Trip

Four Seasons é comedido em Dubai

Hotel não tem a ostentação típica dos emirati

por Shoichi Iwashita 3 Fev 2017 12:02

Elegância raramente rima com grandiosidade (“a elegância não grita, ela sussurra”, li uma vez). E, apesar de refletir a cultura emirati com ricos veludos e o brilho dos metais dourados e das madeiras laqueadas, o Four Seasons Dubai DIFC não segue a proporção dubaiana, felizmente: é um hotel com apenas oito andares — são mais de 100 quartos, mas a sensação é a de que se está num hotel boutique — no coração deste minúsculo e jovem emirado que, em pouco mais de vinte anos, já tem mais arranha-céus que Tóquio e Chicago. Por isso, numa cidade onde o céu é — literalmente — o limite, o Four Seasons Dubai DIFC é uma belíssima opção ao extenso cardápio de hotéis de luxo em Dubai, e com ótima relação custo-benefício (praticamente todas redes estão aqui, com um ou até mais hotéis, como é o próprio caso da Four Seasons, que tem um resort de praia em Jumeirah, e você pode utilizar a estrutura pagando uma taxa por dia de uso).

A localização não poderia ser melhor. Você está no coração do DIFC, o Dubai International Financial Centre, um bairro-jurisdição vizinho ao complexo Burj Khalifa — Dubai Mall (hoje considerado o “centro” de Dubai; e por ser vizinho, o Four Seasons garante ótimas vistas para o edifício mais alto do mundo), que, além de ser uma zona de livre comércio — tem até cortes independentes; tudo para facilitar os negócios num país regido pela restrita lei islâmica, a charia —, é também o bairro mais gastronômico de Dubai. A alguns passos do hotel, em uma enorme e meio labiríntica área exclusiva para pedestres (eu me perdi algumas vezes porque a sinalização é escassa, e até para o concierge é meio complicado explicar como chegar até o metrô, a algumas quadras), você vai encontrar alguns dos melhores restaurantes do emirado como o Zuma, o La Petite Maison, o Cipriani Downtown, o Boca, além de vários cafés, lojas e galerias de arte (tudo internacional, nada típico). E o melhor é que, por ser uma região com leis especiais, só os restaurantes que estão no DIFC têm permissão para vender bebidas alcoólicas; fora daqui, só em hotéis e restaurantes dentro de hotéis.

Não que você precise de outros lugares para beber. Porque além do belo Penrose Lounge no térreo (com um salão interno e mesas no terraço para o “inverno”, quando a temperatura é mais amena e suportável) e dois bares nos últimos andares do hotel, o Luna Sky Bar (também com terraço) e o Churchill Club (um elegantíssimo bar de charutos que te faz sentir em casa), existe o fato de que você ainda tem a vista para o Burj Khalifa — todo iluminado — e para todos os enormes prédios da região.

No restaurante, um susto: em vez de um salão com design mini ou maximalista, você encontra o Firebird, um diner típico americano à la 1950s com direito a jukebox, metais cromados e balcão e milk shake ; mais para lanchonete que para restaurante. Uma aposta arriscada para um hotel de luxo que tem apenas um restaurante, mas, estamos em Dubai (!), por isso, relaxe e aproveite os excelentes hambúrgueres, o tartare de atum, o doughnut de foie gras, os frutos do mar, as sobremesas ou os milk shakes, também servidos com opções alcoólicas, for adults-only. No café da manhã servido no restaurante, só não deixe de provar o “The Elvis” American Toast (custard de canela, crust de açúcar, amendoim temperado, banana caramelizada), que é simplesmente divino (e dá tranquilamente para duas pessoas).

Com mais de cem propriedades de luxo espalhadas pelo mundo, a Four Seasons já domina a arte de criar quartos de hotéis perfeitos. O menor quarto, o Superior Room, tem 35 metros quadrados, amplo banheiro todo em pedra (mas, infelizmente, banheiras só nas suítes), e possui todas as comodidades que o viajante moderno e exigente precisa: wi-fi com boa velocidade de conexão, TVs no quarto e escondida atrás do espelho do banheiro, tomadas universais e entradas USB (por que todos os hotéis do mundo não fazem isso, gente?; tem até saída HDMI para a TV), cama e lençóis deliciosos, mesa de trabalho, sofá, black-outs que funcionam 100%, sem falar nos acabamentos, que é o que fazem um hotel ser luxo de verdade. Da qualidade à costura do couro na cadeira de trabalho às madeiras, tecidos e pedras usadas em toda a decoração, tudo é impecável.

E aí, você tem ainda uma ótima academia 24 horas (para nós, que estamos chegando do Brasil ou voltando da Ásia, o jet-lag é inevitável e é ótimo poder aproveitar a madrugada para treinar), um spa com cinco salas de tratamento com vestiários que podem ser usados quando você já tiver feito check-out mas tem um voo só à noite, e ainda uma piscina com paredes de vidro e uma jacuzzi aquecida no topo do hotel com serviço de bar (quando você chega a atendente já coloca um balde de gelo com garrafinhas de água e uma campainha para você chamá-la sempre que precisar).

Tirando o fato de que eu achei um pouco estranho tomar sol vendo a foto de Sua Alteza Shaikh Mohammed bin Rashid Al Maktoum estampada no prédio ao lado olhando para mim, a minha hospedagem no hotel foi perfeita.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.

Veja mais