Arte

Piano para as novas gerações

O português Vasco Mendonça desembarca no Brasil para apresentar o seu primeiro concerto criado após o programa da Rolex, Mentor & Protégé.

por Artur Tavares 22 Out 2018 12:06

A Sala São Paulo apresenta entre os dias 22 e 24 de novembro “Step Right Up”, o primeiro concerto para piano do compositor português Vasco Mendonça. Conhecido por seus trabalhos em operetas, como “Bosch Beach”, Mendonça começou a trabalhar na apresentação ao participar do programa de mentoring artístico da Rolex, Mentor & Protégé. Logo, “Step Right Up” foi comissionado pela Fundação Gulbenkian, que propôs uma parceria com a Orquestra Sinfônica de São Paulo, que participa das apresentações paulistanas. Carbono Uomo conversou com Mendonça sobre sua primeira vinda ao país:

 

Carbono Uomo – Step Right Up é seu primeiro concerto para piano. Como se desenvolveu o desafio de compôr a obra, após se dedicar nos últimos anos à produção de três óperas de câmara?
O meu interesse pelo gênero concertante, em particular pelo concerto para piano, já vem de trás. A tensão dramática inicial de um concerto é sempre a oposição entre o homem e o mundo. Num certo sentido, um dos desafios composicionais foi criar uma dramaturgia consistente, que criasse uma relação instável e entusiasmaste entre piano e orquestra.

 

Carbono Uomo – Quanto o piano dá tom em suas óperas, e como foi ter o instrumento como elemento central na composição de Step Right Up?
Apesar de o meu catálogo não contar com muitas obras para piano, é um instrumento do qual me sinto muito próximo: a precisão do mecanismo, o carácter percussivo, a sua natureza “orquestral”, todas estas características o colocam num lugar muito próprio no panteão instrumental. Tirando “Jerusalem”, que é uma peça particular, nenhuma das minhas óperas tem piano. De uma forma geral, em ensembles de câmara, parece-me que a homogeneidade do piano de alguma forma neutraliza a diversidade timbríca à disposição do compositor.

 

Carbono Uomo – Após tocar na temática dos refugiados em Bosch Beach, quais foram as inspirações para Step Right Up? Do que a composição trata, quais os sentimentos e impressões que você expressa através desse concerto para piano?
“Step Right Up” [algo como “venha cá”, em tradução livre] é uma interjeição usada para chamar as pessoas para uma atração ou número de variedades, por exemplo nas feiras de provincia. Agrada-me porque evoca a natureza comunal do ato artístico, e está associada à ideia de ilusão. Cada um dos andamentos é uma forma particular de ritual, uma experiência colectiva milimetricamente sincronizada, com a precisão de um relógio suíço.

 

Carbono Uomo – O projeto soa grandioso, foi concebido em ação junto à Fundação Gulbenkian, longa parceira sua, e a Orquestra Sinfônica de São Paulo. A ligação entre Brasil e Portugal também está expressa na música e na temática de Step Right Up?
De uma forma consciente, não. Curiosamente, depois de terminada a peça, creio que que há uma energia festiva e uma utilização da percussão – uma exterioridade – que talvez tenha algumas afinidades com a cultura brasileira.

 

Carbono Uomo – Outro parceiro fundamental para a composição da obra foi a Rolex, que auxiliou em seu desenvolvimento nos últimos anos através de seu programa Mentor & Protégé. Pode me contar sobre o tempo em que passou dentro do programa?
O Rolex Mentor and Protégé, é a todos os níveis, um programa único. Primeiro, porque permite que dois artistas de diferentes gerações estejam em contato durante um período de tempo, apoiando-os generosamente, sem qualquer restrição, deixando aos artistas a definição do que será o seu percurso partilhado. Depois, porque juntando diferentes gerações e ciclos, promove o intercâmbio entre um grupo cada vez maior de artistas absolutamente excepcionais, criando uma comunidade artística de características absolutamente únicas.

 

Carbono Uomo – E o que pode me contar sobre Kaija Saariaho? Como era seu estilo de composição e execução musical antes de conhecê-la, e o que dela você incorporou ao seu trabalho após o mentoring?
A Kaija é uma artista e uma pessoa notável. Presenciar a sua disponibilidade e humildade, durante o nosso tempo juntos, perante todos os que a rodeiam, foi inspirador. Tal como foi inspirador ser exposto a uma série de estreias e apresentações da música dela – cuja estética é substancialmente diferente da minha -, permitindo-me descobrir pontos de entrada para as minhas ideias em universos sonoros inesperados. Não diria que o meu estilo se alterou, mas seguramente enriqueceu-se.

 

Carbono Uomo – Na Sala São Paulo, “Step Right Up” será apresentada acompanhada de duas peças de Korsakov. Na abertura, A “Grande Páscoa Rússia”, e, logo após sua obra, “Petrouchka”. Como as peças de Korsakov conversam com a sua, e como o russo influenciou sua carreira como um todo?
O programa não foi determinado por mim. Aprecio Korsakov como um dos mais eminentes compositores a deslocar a sua atenção do eixo franco-germânico, e a procurar alternativas ao esgotamento da linguagem que se adivinhava na sua altura.

 

Carbono Uomo – Será a segunda vez que Step Right Up será apresentada, logo após sua estreia em Portugal no último mês de junho. Como foi a primeira apresentação? Muda algo para as apresentações no Brasil?
A estreia mundial em Lisboa com o [pianista] Roger Muraro e a Orquestra Gulbenkian foi muito gratificante. Pelo que conheço da OSESP e do Giancarlo Guerrero, antecipo uma belíssima estreia americana.

 

Vasco Mendonça em Helsinki

 

Carbono Uomo – O concerto ainda será registrado em disco pela Naxos. Haverão apresentações em outros lugares do mundo, seja em casas de concerto, ou então em festivais dedicados à música erudita?
Ficaria muito contente se tal acontecesse. Neste momento estão a ser realizados contatos nesse sentido.

 

Carbono Uomo – Quais são seus próximos projetos? Criar um concerto para piano trouxe inspiração para trabalhar dedicadamente a um outro instrumento, ou você retornará ao mundo das óperas?
Vou sair da sala de concerto para o museu. O meu próximo trabalho será uma peça multimedia para percussão, mais próxima do território da performance.

 

Os ingressos para assistir “Step Right Up” já estão à venda no site da OSESP, que você acessa clicando aqui

 

 

 

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.

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