Motor

Cayenne não é 911, mas é um autêntico Porsche

Avaliamos a versão de entrada do SUV, que entrega altas doses de luxo, desempenho e status

por Rodrigo Mora 2 Out 2019 10:07

Fundada em 1948, a Porsche levou 54 anos para começar a fazer utilitários esportivos, o tipo de carro que ninguém esperava que a marca alemã fizesse. Lançado em 2002, o Cayenne quase enfartou fãs da marca, habituados a cupês e conversíveis – como o lendário 911.

 

É difundida, inclusive, a ideia de que foi através do lucro do Cayenne que a marca conseguiu ter recursos para manter o 911 em linha. Fato ou boato, a verdade é que o SUV fez (e faz) sucesso: foram 270 mil exemplares vendidos mundialmente da primeira, que abriu portas para a segunda, de 2010, emplacar 500 mil.

 

O sucesso de vendas corrobora o que disse uma vez Ferry Porsche (filho de Ferdinand, fundador da empresa), em janeiro de 1989: “se construíssemos um veículo off-road de acordo com nossos padrões de qualidade e o símbolo da Porsche na frente, as pessoas comprariam”.

 

Hoje na terceira geração, o Cayenne provou seu valor. Até entusiastas da Porsche reconhecem que trata-se de um carro de alto desempenho e doses elevadas de luxo. Visualmente, o Cayenne foi uma revolução menor. Exceto pelo brilhantismo das lanternas – emprestadas do Panamera –, a frente segue um tanto trivial. Nenhuma mudança também no entre-eixos de 2,89 metros, geralmente um dos principais alvos nas trocas de geração. O foco foi manter as respostas mais ariscas – aumentar essa distância melhora o espaço, mas muda o comportamento do veículo.

 

Mas os motores são novos. No topo da gama está a versão Turbo, com um 4.0 V8 biturbo de apocalípticos 550 cv e 76,5 kgfm de torque. Intermediária é o Cayenne S, que tem sob o capô um 2.9 V6 biturbo (440 cv e 56,1 kgfm). O modelo de entrada, que sai por R$ 423 mil, tem um 3.0 V6 turbo, de 340 cv e 45,9 kgfm de torque – e foi com ele que Carbono UOMO conviveu por quatro dias, entre percursos urbanos e rodoviários.

 

A primeira boa impressão vem da cabine. Destaque para o console central, que fora redesenhado, agora parecido com um imenso iPhone, composto por botões físicos camuflados sob a tela, na qual é desenhada ou escrita a função de cada um. Acima dele, uma tela de 12,3 polegadas sensível ao toque customizável de alta definição.

 

O sistema permite conexão com Apple Carplay, integração com Apple Watch e mapas do Google, além do One Connect Porsche, aplicativo que tem acesso a uma série de funções via celular – como checar se as portas estão travadas, ver a localização ou até ser alertado sobre uma tentativa de furto.

 

Na frente do motorista, cinco mostradores circulares, tipicamente com o conta-giros sobressaltado. Apenas ele e o velocímetro são fixos: nos demais, as informações mudam conforme o humor do motorista, podendo ir de dados de consumo a um gráfico sobre o comportamento da força G. E o melhor: simples de visualizar e configurar. No mais, espaço interno farto e o acabamento impecável que se espera de um Porsche.

 

Dinamicamente, impressionam a direção afiada e a estabilidade, considerando os 4,92 m de comprimento, 1,70 m de altura e as quase duas toneladas do SUV – que parece mais leve do que é. Se intimado para uma condução esportiva, o Cayenne não arrega: acelera com vigor e contorna curvas sempre “na mão” do motorista. Mérito principalmente do Porsche Traction Management (PTM), sistema que distribui a força de propulsão de modo totalmente variável entre os eixos motores, já que sua tração é integral.

 

Mas nem sempre o momento é de emoção, trocas de marchas rápidas e ronco do motor a excitar o condutor. Uma hora temos que ir à escola buscar o filho, ir à padaria que fica no bairro ou estamos trancados no trânsito. É quando o Cayenne mostra sua outra face, a de um carro familiar, confortável e silencioso. As trocas de marcha passam a ser suaves, a cabine isola os ocupantes do caos lá fora e a suspensão mostra que sabe, além de ser esportiva, macia.

 

Ao fim de quatro dias de convívio, fica a certeza: de fato o Porsche mais emocionante é o 911, mas aqueles entusiastas que lá em 2002 que quase enfartaram com um SUV da marca, se descabelaram à toa.

Rodrigo Mora

Rodrigo Mora é jornalista especializado no segmento automotivo. Ele assina o blog Mora Nos Carros.

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