Moda

Fora da curva

Com criação focada em tecidos naturais, consumo consciente e peças sem gênero, André Namitala dirige a Handred rumo a inovação da moda nacional.

por Artur Tavares 27 Abr 2019 08:47

Na última quinta-feira, 25, a Handred levou às passarelas do São Paulo Fashion Week sua nova coleção, cuja temática girava em torno do Rio Vermelho, um dos lugares mais emblemáticos de Salvador. Nascida no Rio de Janeiro, a marca genderless tomou boas proporções mesmo em tempos de crise, e tem sede também em São Paulo. Seu criador, André Namitala, pensa na moda como ponto de confluência estética e social, transformando suas roupas em peças que debatem questões de consumo e de estilos de vida. Poucos dias antes do desfile, ele recebeu Carbono Uomo para um delicioso bate-papo, que você confere agora.

 

André Namitala, da Handred

 

Carbono Uomo – Como são as peças da Handred para essa estação, o que vocês mostrarão no SPFW?
André Namitala –
Todo desfile, tentamos passar um contexto e uma mensagem maior, também conversando com a arquitetura da loja. Tentamos vender todo o cenário, o contexto, a vibe e o tema. A marca, desde o começo, levanta algumas bandeiras muito genuínas e naturais. Não pensamos, lá no começo, em uma marca genderless, não era um business plan ter uma marca unissex. A Handred foi agregando bandeiras de inclusão muito naturalmente. Tanto o gênero quanto fazer uma roupa mais solta, por causa dos tecidos naturais, e também porque agrada as pessoas mais velhas. Parte disso aconteceu quando vieram as lojas, que apareceram quatro anos depois da marca começar. Fomos incluindo essas facilidades, como rampas para cadeirantes, provadores maiores para eles. A marca é pequena, temos um teor de ateliê muito grande, nossa produção é toda interna. Temos a vivência de costureira todo dia. Ajustamos todas as peças, fazemos à necessidade dos clientes. Também pelo ateliê, conseguimos aliar a produção a outras necessidades especiais, como os que têm próteses, ou que tiveram câncer de mama, por exemplo. Nossa marca acabou virando muito inclusiva, uma coisa foi puxando a outra.
No desfile, tentamos trazer um pouco da nossa atmosfera mais praiana, do linho, que é nossa matéria-prima principal. Fazemos um ambiente mais cosy. Toda nossa imagem mostrada vai além do produto. Agora, pela primeira vez, faremos um show ao vivo com a cantora Virginia Rodrigues. Ela é baiana, maravilhosa, que mistura toques de candomblé com um lirismo de ópera, algo bem erudito, muito lindo.

 

 

Carbono – Os desfiles sempre têm participação masculina e feminina, certo?
André –
Sempre mesclamos homens e mulheres, mas na verdade a parcela deles é maior. A marca nasceu como masculina, e foi para o unissex naturalmente. As adequações foram mais em relação ao tamanho.

 

Carbono – A moda está mudando de novo? Porque o sem gênero deu uma bombada, mas acabamos por perceber que a sociedade ainda tem pensamentos bastante conservadores.
André –
Muito conservadores, mas a verdade é que para nós nada mudou. A questão é justamente fazer desfiles mais politizados. Já tocamos músicas feitas por Caetano e Chico Buarque durante a época da ditadura, para citar um caso. Não vai mudar a maneira que fazemos nossas roupas, mas sim como passamos nossas mensagens. Esse desfile é sobre o Rio Vermelho, mas não é uma coleção sobre o candomblé. É sim sobre sincretismo, tolerância, culturas coexistentes e não-excludentes. O que passamos para nossos clientes é que somos uma marca com essa postura e ponto. O desfile vai ter esse tema, as músicas e os modelos também. Trata-se de fincar o pé. Nunca tivemos problema com esse tipo de caretice, a não ser no começo, quando nos perguntavam se as peças eram para homens ou mulheres. Na verdade, depois da eleição dois clientes chegaram aqui sem entender o unissex e, está bem, sabe? Eles podem comprar roupa em qualquer outro lugar. Tentamos ser educados, mas quando convém… Com essas possíveis mudanças previdenciárias, nós temos uma empresa interna, todos são contratados CLT, não vamos mudar nada com nossos empregados. Eu até brinquei de fazermos nosso próprio horário de verão, com a loja abrindo às 9h e fechando às 19h. Enquanto eu puder fazer o meu mundinho dentro da minha empresa, farei.

 

 

Carbono – Como tem sido dividir seu tempo entre São Paulo e o Rio de Janeiro?
André –
Tem sido ótimo. Aqui não tem a praia, lá tem o ateliê. A loja daqui é maior, tenho mais clientes. O que uma cidade tem, a outra não tem. Está sendo gostoso. São Paulo é uma cidade de mundo, o Rio recebe o mundo. Lá também é cosmopolita, a qualidade de vida é melhor por conta da praia e da natureza, mas aqui o trabalho é mais puxado. Tem sido bom ficar indo e vindo.

 

Carbon – Tudo que você faz é ready to wear, sai do desfile para a loja?
André –
Não consigo criar pensando em seis meses depois. Para se adequar ao mercado de atacado, vamos ter entradas de produtos. Lanço a coleção agora, e para o atacado vou lançando estampas ou fundos maiores ou menores, com entrega mais para o meio do ano. Também criamos coleções no meio das duas semanas de moda. Com o ateliê, o processo de criação é mais frequente, não preciso criar, fazer uma ficha técnica e mandar para um fornecedor. Se temos uma ideia, tecido e costureira, podemos pirar e fazer novas peças. Esse ano já tivemos duas entradas de coleções cápsulas.

 

Desfile da Handred na última edição da SPFW

 

Carbono – Tem feito colabs?
André –
Tenho uma com a Democrata, uma marca de sapatos gigantesca. Nosso produto não tem essa cara gigantesca, aliando a técnica deles com a nossa visão, o que tem sido ótimo. E tenho um café com a Santo Grão. Eu sempre fui muito do café, desde lá de casa. Tem uma mistura bem libanesa de colocar canela e cardamomo no café. Quando o ateliê no Rio virou loja, começamos a servir para os clientes, e virou sucesso. Quando viemos para São Paulo, rolou a parceria para abrir a loja.

 

Como a origem libanesa se mostra na sua vida?
André – Sou neto de libaneses, dos dois lados. Meu pai nasceu já no Brasil, mas em uma colônia que ficava em uma fazenda. A família dele veio refugiada da guerra. Ele tem sete irmãos, nove primos, todos moravam juntos. Até os 14 anos, meu pai viveu em uma colônia árabe no interior no Rio. A alimentação sempre foi totalmente árabe na minha vida, as formas de comemoração em volta da cozinha. Mas a influência é mais culinária. A família sempre foi católica, mas é bastante com a cabeça libanesa. Tem um traço para a minha criação, os pontos mais étnicos que gosto de visitar. As cores são terrosas, eu já fiz coleção sobre o Marrocos… A veia comerciante eu também sempre tive. Eu fiz direito por um ano, por conta da família, mas logo larguei para fazer moda.

 

 

Carbono – Você cozinha?
André – Cozinho, mas ainda preciso aprender melhor a culinária árabe com meu pai para passar para as próximas gerações.

 

Carbono – Te ajuda no processo criativo?
André –
Cozinhar? Não. Engraçado, não… Não tenho muito essa coisa de processo criativo, mas o que me deixa mais inspirado é estar perto do mar. Isso me dá ideias. Estar sozinho em um barco, uma praia, ou na natureza. Mas não existe nenhum exercício que eu faça, talvez escutar música.

 

Carbono – Você faz tudo na Handred?
André –
Tudo, da criação ao financeiro e ao marketing. Só não costuro. Tenho equipe, claro, mas estou ligado na criação, na venda, na loja, na obra.

 

Carbono – Foi difícil achar seu estilo?
André –
Não, foi muito natural desde a primeira coleção. Usar linho e seda, essa cara de alfaiataria praiana. Fui evoluindo em cima desses conceitos. Porque temos essa limitação de só trabalhar com tecidos naturais. Não tem como inventar nada além do linho, da seda, do algodão e da viscose. O desafio é se reinventar, fazer bordados, pinturas, formas de estampas, juntar recortes de tecidos. Desde o começo, a minha cara foi essa. E, um ponto positivo lá no começo, foi ter tido a maturidade de criar algo bastante limpo, porque não sabia o que eu iria me tornar. Minhas campanhas sempre foram muito limpas, toda minha linguagem também. A sacolinha de papel só tinha um carimbo. E, assim, minha imagem acabou sendo muito limpa. A evolução foi ter tido dinheiro para empregar mais gente, pagar os colaboradores, que antes faziam na camaradagem… Tem sido interessante.

 

 

Carbono – O linho voltou com força há poucos anos, mas muita gente ainda reclama que amassa, que isso e aquilo. Como é a aceitação?
André –
Graças a Deus, desde o começo eu tive o cliente que sempre quis. A marca também não é um buzz pensado. Não fizemos o unissex nem o linho porque eles iam ficar em alta. Estava incutido em mim. E, o linho sempre atraiu as pessoas mais velhas, que ficaram carentes do tecido. Fizemos sucesso com elas. E, quem não gosta de linho não entra aqui. Não tem esse ruído de que o linho amassa. Acho que só ganhei usando o linho, por ser um tecido que não amassa, que é isolante térmico, que permite ser usado no frio. Tem conforto, tem cara de roupa de férias. Acabou que o linho virou essa coisa toda, mas temos uma consistência grande.

 

Carbono – Você falou dos tecidos naturais. Usa também corantes naturais? Como é essa busca?
André –
Não somos uma marca ecológica, não levantamos essa bandeira. Mas, o linho gasta cerca de 70% a menos de água em relação a qualquer outra matéria-prima. Além de ela ser natural, tem um processo de fabricação menos impactante para o mundo. Agora, o Brasil não tem essa cartela de tecidos, fornecedores e preços para podermos falar que somos ecológicos. E, o lance do ecológico às vezes barra no sintético. Couro ecológico é poliéster. Não queremos trabalhar com isso. E por uma questão de preço. Essa coleção até tem algumas peças de seda orgânica, que é muito mais caro… É aquele velho lance, como na comida orgânica e vegana. Tudo é mais caro. Uma seda normal custa 100, a seda orgânica, 250. Para tingir numa seda orgânica, não pode ser o rolo todo, e sim de três em três metros. Tem que estragar sua seda. Tenho peças que gasto cinco metros. Para fazê-la com seda orgânica, precisa ter emenda. Tem alguns poréns e limitações de maquinário. Impossível tingir 1000 metros de tecido na mão, tem que parti-lo. Os pigmentos naturais também são mais caros, e não têm uma uniformidade. Para trabalhar com peças orgânicas, você tem que educar seu cliente final e de atacado de que não serão peças iguais as das fotos, que têm variações. Nessa coleção também tem muitas pinturas a mão na seda e no linho, que geram a mesma nuance. Elas também foram pintadas com pigmentos naturais, e por uma só pessoa. É algo que tem um custo maior, tem um tempo de fabricação maior, mas temos cada vez mais buscado formas de viabilizar esse tipo de trabalho. E estamos conseguindo.

 

 

Carbono – Mas o mercado da moda continua bastante predatório…
André –
Entramos em um lugar em que vamos meio contra essa indústria errada da moda. Nós não nos prostituímos, não damos roupa para famosos, não damos desconto para todo mundo. Chega gente aqui dizendo que é sei lá quem, stylist do stylist do stylist. Quem é você na fila do pão? Você não vai ter desconto. O que chega de mensagem para mim dizendo que quer ir no meu desfile, mas que precisa de dois looks. Who are you? Sabe? E outra… quem é você para a marca? Desde o começo, fomos contra essa questão marqueteira da indústria. Até porque somos independentes, eu sou sozinho, não temos sócios. Não tenho esse budget, e nem se eu tivesse, daria. E, desde o começo, não quisemos ser essa marca perecível. Temos uma coleção permanente de clássicos, que é aquém coleção. Sempre vou ter calça de linho preto, com pregas, de tom cru e branco. Não somos uma marca que cria coisas que nunca mais faremos, que são descartáveis. Temos uma questão de atemporalidade, que faz a marca não ser sazonal. Esse é nosso jeito de sair dessa curva da produção louca, de fazer para jogar num sale, um bota-fora. E, produzir com ateliê próprio, tira a necessidade de mínimos gigantescos. Fomos nos moldando naquilo que era mais confortável, e no que acreditávamos. Temos essa política de fazer o que queremos e acreditamos. Sou muito contra essa prostituição para famoso, para blogueiro, para fazer foto. Quem é aquela pessoa para nós, e o que ela comunica? Não estou aqui para likes, e sim para relações. As mesas das minhas lojas ficam lotadas de clientes que passam o dia tomando café. Construímos a marca para eles. Essa troca do olho a olho é muito mais importante do que uma pessoa que nunca vi na vida, com um Instagram que nunca vi na vida, com seguidores que nunca vi na vida, e que não têm nada a ver.

 

 

Carbono – A crise financeira brasileira foi ruim para você?
André –
Eu já comecei na crise, então não tenho esse parâmetro anterior. Acho que ajudou em algumas vertentes. Consegui pegar alugueis mais baratos, estou em uma esquina da Oscar Freire em São Paulo, e uma na Visconde de Pirajá, no Rio. É ainda mais caro. Minha loja do Rio é três vezes menor, e cinco mil mais cara. Mas, até para o caro, está mais barato do que antes. Não paguei luva, não tem multa… a crise trouxe algumas facilidades. Ajudou também porque os clientes começaram a parar de viajar para comprar roupa, e também passaram a ter o pensamento de support your local people, support your local suppliers. O olhar está voltando para o ateliê, para o handmade, para o natural, se é contratado ou escravo, como se produz… Já somos uma marca assim, eu vim dessa cultura. Pegamos essa galera que está querendo como vai ser, que seda é essa… Temos esse cliente que entende de moda, que sabe quanto custa uma seda ou um linho, e que estamos até baratos em relação ao mercado. Acho que o cliente também não quer mais comprar roupas descartáveis, e isso gera um consumo consciente.

 

Carbono – É uma mentira que se vende menos por conta disso…
André –
Uma mentira. Você só conquista. E volta para aquilo de antigamente, do boca a boca. Inicialmente e ainda hoje. É muito legal ver cliente que traz cliente, gente que chega de outro estado por recomendação. Outro exercício que fazemos muito é sobre o lugar de fala. Eu sou branco, mas amo a Bahia, flerto com o candomblé, assim como com o catolicismo. Tenho uma empatia forte com a cultura negra, estudo sempre que posso, mas ainda sou um branco falando sobre isso tudo. Fiz uma coleção sobre o Rio Vermelho com todos os dedos da minha vida. Fiz um projeto fotográfico em Salvador com gente local. Acho que o desafio maior hoje em dia, para uma marca que fala com as minorias, é falar com uma propriedade um pouco maior, com mais cuidado e mais estudo, e como aliar essas minorias às vezes desfavorecidas economicamente com meus preços. Eu não acho que minha roupa é barata, só que ela é para o mercado. Não é barato uma camisa de seda custar R$ 900. Mas é preciso fazer esse exercício de amarração, ter um viés mais social, chamar mais gente para ajudar. Quando homenageei o Marrocos, procurei professores de história. Agora, fui até terreiros perguntar sobre as estampas. Depois de certos escândalos, caí com uma estampa específica que iria fazer. Tenho essa preocupação de olhar. Procurei produtores de Salvador, vamos usar coisas feitas por eles. Alguns bordados também foram feitos lá. Fiz um livro de fotos, estou tentando patrocínio para lançar, tentar reverter a renda para eles. Talvez vender duas fotos e dar a renda para alguma instituição. Sair dessa questão do extrativismo, conseguir devolver um pouco. Nos desfiles usam pessoas mais velhas, dessa vez temos uma cliente. Incluímos pesos diferentes, idades diferentes, cores diferentes. Nossos desfiles sempre foram majoritariamente negros, e uma coleção sobre a Bahia terá muito mais. Conseguimos trazer um albino, que até para o negro é complicado historicamente. É cuidadoso colocar isso na passarela. Vão falar mal ou vão falar bem, mas é para quem entende. Têm códigos nessa coleção que tocam em questões que não são muito ditas.

 

 

Carbono – Para terminar, quais seus planos para o futuro?
André –
Acho que é ter um braço fora do Brasil. Não pode ser enorme, porque não é uma roupa para fora daqui o tempo todo. É uma roupa sazonal. Acho que o lance da Handred é se adaptar. Se eu for para o hemisfério norte, vou vender para um período do ano. Minha produção não precisa ficar bombando. Óbvio que vou fazer mais roupas para frio, mas acho que o caminho é estar próximo de lugares que eu admire. Seja a África ou Nova York e Paris. E poder fazer o melhor dentro da minha roupa. Minha evolução é no sentido de qualidade, encontrar o melhor botão, o melhor tecido… Sabendo sempre que quero estar na minha loja. Não quero ter quinze ou vinte lojas, porque não estarei nelas. Estou aqui com você porque já estaria aqui. Não é por causa da entrevista ou do desfile. Eu realmente fico meio a meio. No Rio, das 7h às 16h eu vou para o ateliê, e depois para a loja. Aqui em São Paulo, passo o dia todo na loja. Meu crescimento vai ser pautado nessa minha entrega à marca. www.handred.com.br

 

(Fotos: Pedro Loreto e Agência Fotosite)

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.

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