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Torna-se quem tu és, seja contagioso

Para Pedro Tourinho ‘o estrago algorítmico já está feito e lidar com isso é uma condição do nosso tempo”

por Artur Tavares 2 Set 2019 17:17

Especialista em imagem que trabalha com nomes como o do ator Bruno Gagliasso e da cantora Anitta, o baiano Pedro Tourinho soube como poucos surfar na onda da internet. No lugar certo e na hora certa, foi ele quem noticiou com mais profundidade no Brasil a morte do cantor Michael Jackson – ele estava em Los Angeles no fatídico 25 de junho de 2009, fazendo toda a cobertura pelo Twitter. Desde então, aprofundou as noções do uso da internet em benefício do self. Em agosto, ele lança o livro Eu, Eu Mesmo e Minha Selfie, pelo selo Portfolio-Penguin, da Companhia das Letras. Em conversa com Carbono Uomo, ele fala sobre gestão de imagem, fake news e outros temas pertinentes do mundo online.

Pedro Tourinho fotografado por João Bertholini

Carbono Uomo – Do que o livro se trata?

Pedro Tourinho – É uma grande reflexão de uma pessoa que cuida da reputação de muitas outras pessoas e marcas. Um conjunto de notas práticas sobre como cuidar da própria imagem e sobre o conceito de verdade em nosso século.

 

Carbono Uomo – Não são só os artistas que lidam com uma vida pública hoje…

Pedro Tourinho – Todo mundo hoje está conectado e tem uma vida pública. Você está sujeito a uma crise no grupo de
WhatsApp da família, por exemplo. Essa expressão “pública” pode ser entendida de diversas maneiras. Muita gente não se importa com isso, mas se você tem consciência de quanto sua imagem está perto da verdade, faz toda a diferença. Não se trata de técnicas de manipulação ou de uma imagem para o mercado. Tem um filósofo que gosto muito, Agostinho da Silva, que diz: “Torna-te quem tu és, seja contagioso”.

 

Carbono Uomo – As pessoas andam inflamadas no mundo virtual. Essa ‘verdadeirização’ não pode se tornar nociva nas relações?

Pedro Tourinho – Essa tomada das pessoas para os extremos é uma inverdade, é algo simulado. Os algoritmos das redes sociais nos acampam em extremos e incitam a nos expressar a todo momento, repetindo mensagens atrás de mais engajamento. Essa inflamação é provocada pelo contexto das mídias sociais, pela busca da aceitação que acontece com likes.

 

Carbono Uomo – A profecia dos 15 minutos de fama para todos, de Andy Warhol, chegou?

Pedro Tourinho – É um conceito antigo, porque está ligado à fama, à mídia de massa. Hoje é muito mais complexo. Todo mundo tem seus 15 minutos de influência. Acho que essa frase não cabe mais no nosso mundo.

 

Carbono Uomo – Alguns artistas saíram das redes sociais. Acha possível esse movimento de reversão em massa?

Pedro Tourinho – Acho que estar conectado é um caminho sem volta, mas as pessoas vão adquirir mais consciência do que estão fazendo, como estão se comunicando e de quais são as regras do jogo. E tem uma galera que vai continuar atirando de qualquer jeito. É assim com tudo na vida, há quem é mais consciente e quem é mais porra-louca.

 

Carbono Uomo – Como fugir das fake news e do efeito moralizante do outro?

Pedro Tourinho – Enquanto jornalista, quantas vezes você já teve um título de reportagem alterada porque dá mais clique? As fake news começam por aí, pela concessão que se faz por engajamento. A notícia falsa tem compromisso de viralizar. Isso é uma loucura. Não dá tempo de contornar, contextualizar. O estrago algorítmico já está feito. Lidar com isso é uma condição do nosso tempo.

 

Carbono Uomo – Um dos maiores embates online é do politicamente correto contra o politicamente incorreto. Como você enxerga essa situação?

Pedro Tourinho – O politicamente correto é um caminho sem volta. É um processo civilizatório e, como tal, tem quem vá contra porque percebe que uma nova realidade chegou. A pessoa tem que se responsabilizar pelo que diz e seguir por um caminho de civilização, e não de manutenção de privilégios, de justificativas do erro.

 

Carbono Uomo – Você acaba de lançar uma marca de camisetas, a Milk Supply.

Pedro Tourinho – Foi uma ideia que meu sócio Rafael Caldeira trouxe, porque ele conhecia meu dilema de buscar camisetas básicas pelo mundo. Resolvemos esse problema lançando uma linha apenas de camisetas brancas, pretas e cinza. Passamos dois anos desenvolvendo a melhor camiseta básica do mundo, uma que todo mundo pode usar, do hipster ao topster, com preço adequado para esse tipo de produto.

 

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.

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