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O futuro das cidades

É loucura entrevistar um petista em tempos de ânimos tão acirrados? Talvez. Mas, deixada a política de lado, a visão do advogado, economista e filósofo Fernando Haddad sobre urbanismo sempre mereceu atenção mesmo dos adversários. Aqui, o convidamos para fazer uma reflexão sobre seus urbanistas favoritos e questões que fazem parte do dia a dia do paulistano

por Artur Tavares 20 Fev 2018 12:36

São Paulo é uma das cidades brasileiras mais antigas. Fundada, ainda em 1554, por padres jesuítas, ganhou espaço no cenário nacional após a independência da colônia, no século 19. Deu-se início ao ciclo do café no estado, e a metrópole rapidamente desenvolveu sua indústria. Quase 200 anos depois, São Paulo evoluiu para a sétima cidade mais populosa do planeta, e a maior economia de toda a América do Sul. Hoje, cerca de 12 milhões de pessoas convivem em uma área de quase 2 mil km².

Ex-ministro da Educação, advogado, economista e filósofo, Fernando Haddad foi o último político a governar São Paulo. Ficou à frente da prefeitura durante os anos de 2012 a 2016. Sua gestão foi marcada por uma ampla discussão sobre urbanismo: debateu sobre transporte não motorizado, abertura de avenidas para passeio aos domingos, readequação de espaços públicos. Convidamos Haddad para saber o que ele pensa sobre o futuro das cidades.

INSPIRAÇÕES URBANÍSTICAS
“Acompanho o trabalho do dinamarquês Jan Gehl, reparo nas coisas dele. Evidentemente, o Paulo [Mendes da Rocha] é uma referência máxima. Gosto das ideias, do desenho e do traço do Angelo Bucci. Ouço muito o que a Raquel Rolnik, a Ermínia Maricato e o Álvaro Puntoni falam. Acho fundamental que todos leiam um livro sobre planejamento urbano que Jane Jacobs escreveu nos anos 1960, The Death and Life of Great American Cities.”

CIDADES NA VANGUARDA MUNDIAL
“Sempre temos que prestar atenção a Nova York. Na América Latina, Bogotá, Buenos Aires e a Cidade do México foram inspirações para mim. Na Europa, obviamente, Berlim é uma cidade muito inspiradora para São Paulo. Tem semelhanças importantes. De forma mais arrojada, Vancouver, no Canadá, é sempre uma referência na mente das pessoas.”

TRANSPORTE
“Não uso carro. Hoje me desloco de bicicleta, ônibus e metrô. Caminho quando a distância é razoável e uso muito os aplicativos. Uso a ciclovia da Avenida Vergueiro, uma subida íngreme perto de casa, e não acredito quando dizem que o terreno paulistano não favorece quem está sobre duas rodas. Não sou exatamente um menino, tenho 54 anos, e subo o espigão da Paulista pedalando, sem bicicleta elétrica. Minha saúde, meu peso e minha disposição melhoraram.”

O MINHOCÃO
“Hoje, a ordem no mundo é colocar viadutos para baixo. O Minhocão foi o último suspiro de uma cultura em desuso, pensar que ampliar a malha viária vai resolver o problema do trânsito. A ciência de engenharia rejeita esse conceito. Os urbanistas mais radicais são a favor da remoção. Acreditam que não deveria ter sido feito e que alguém tem que ter coragem de remover. Mas existem experiências que funcionam superbem. Talvez alguém consiga fazer um desenho que funcione, com entrada para os prédios, ou talvez estreitando para entrar mais luz embaixo. Tem que fazer um concurso, ver as propostas.”

MONOTRILHOS
“Acho monotrilhos e trens por cima da terra equívocos urbanísticos enormes. São caros, não batem na conta custo-benefício e são horríveis visualmente.”

MOBILIÁRIO URBANO
“Uma das coisas que me impressionam negativamente é o grau de vandalismo, que é muito acentuado. Estou falando de depredação do espaço público. Isso choca. Às vezes, você inaugura uma praça e, quando volta um mês depois, parece uma praça de dez anos. Mas tem que insistir. A Praça 7 de Abril é toda de madeira. Tinha tudo para dar errado, mas está sendo preservada. O Centro Aberto, com espreguiçadeiras também de madeira, inspiradas na Times Square, alcançou até o Largo São Francisco, do Paissandu e São Bento.”

CARNAVAL DE RUA
“O Carnaval de São Paulo se tornou um grande negócio, que não deve sofrer retrocesso. Levar os blocos para um corredor na Avenida 23 de Maio, em vez de usar a rua, é uma política de confinamento, que vai na direção contrária da expansão de uso do espaço público vigente no mundo hoje. Ninguém deveria ficar confinado para brincar o Carnaval. A cidade tem que se transformar em um espaço de folia. O comércio abre e, estatisticamente, as pessoas deixaram de congestionar as rodovias para as praias. É como acontece no Recife, em Salvador e no Rio de Janeiro.”

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.

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