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Inquieto

Lázaro Ramos está com tudo – e não para. Ator, apresentador e escritor, empresta ainda sua voz a discussões necessárias, como o racismo e a construção de um Brasil melhor. Mas, aonde ele quer chegar?

por Artur Tavares 20 Mar 2018 12:16

“Não estou confortável com a maturidade, pelo contrário. Estou aqui te jogando um ‘H’ pra ver se funciona.” Lázaro Ramos chegou aos 39 anos incerto com o futuro, o seu e o do Brasil. Atualmente em cartaz no teatro com a peça O Topo da Montanha, e prestes a estrear novas temporadas de três programas na TV, o ator e apresentador vive uma fase das mais produtivas. Bem casado, pai de dois filhos, é um dos nomes com maior credibilidade do showbiz brasileiro. E tudo isso não é o suficiente.

Há 13 anos entrevistando personalidades e pensadores em Espelho, no Canal Brasil, e mais recentemente rodando o país nas gravações de Lazinho com Você, na Globo, o baiano tomou gosto por colocar sua voz perante o público. No ano passado, lançou o bem-sucedido livro Na Minha Pele, na lista dos maiores best-sellers do país ainda hoje, e passou a abordar questões sociais brasileiras em plataformas além da dramaturgia: “Em um dado momento da carreira, decidi colocar a minha voz em meus trabalhos. A voz de um pai de dois filhos, negro, baiano, que fez um teatro engajado em Salvador e depois um teatro lúdico no Rio. Queria que todos os meus projetos tivessem isso tudo, mas, às vezes, os parceiros que eu encontrava não conseguiam suprir minha necessidade de entender a voz misturada que tenho. Percebi que precisava aprender a me comunicar, falar o que eu estou sentindo e quais são minhas expectativas”, ele conta.

Versátil como poucos de sua geração, Lázaro utiliza desde o humor de Mister Brau até a seriedade de reportagens documentais para retratar um país perdido em seu processo de amadurecimento: “Precisamos entender que, no Brasil de hoje, as coisas são simultâneas. Falamos muito do conservadorismo mas, ao mesmo tempo, ele não está crescendo sozinho. Ele está junto do movimento feminista, o movimento estético de aceitação de gays e mulheres. Está crescendo com a possibilidade que várias pessoas antes sem visibilidade adquiriram de se comunicar com o mundo, de se posicionar. Tem algo de interessante nessa simultaneidade”. Quando chega ao fim do dia, porém, é exatamente essa noção de maturidade intelectual que o incomoda: “Tento entender como não ficar obsoleto nesses valores, porque não adianta nada estar engajado, mas com olhar limitado para o mundo que está vivendo. É um assunto que tenho muito com quem trabalha comigo nas criações, entender quem é o nosso público, para quem estamos falando. Se queremos falar para os que já foram contaminados ou se queremos atrair novas pessoas. É como tenho exercido todas as minhas criações”.

O Topo da Montanha, em cartaz no Rio de Janeiro até 29 de abril, fala sobre a luta por direitos civis nos EUA sob a tutela de Martin Luther King Jr. Dirigida por Lázaro, a peça roda o Brasil desde 2015, e já soma mais de 100 mil espectadores. O sucesso o encorajou a levar adiante um outro projeto que toca na questão do negro. No segundo semestre, estreia no Canal Brasil Namíbia, Não!, filme baseado em espetáculo homônimo que ele protagonizou em 2011. Na história, um decreto do governo brasileiro obriga que todos com “melanina acentuada” sejam capturados e enviados novamente para a África, um absurdo.

Na esfera dos temas mais amenos, o ator exercita sua veia lúdica como autor em dois livros infantis, O Caderno de Rimas do João e O Caderno sem Rimas da Maria, uma homenagem aos seus filhos João Vicente e Maria Antônia: “O Caderno de Rimas tem a ver com meu filho, que ficava me perguntando coisas como ‘pai, o que é a morte?’. Comecei a fazer rimas para explicar. Então, ele me questionou se não haveria um livro da Maria. Como vi que ela é uma criança um pouco do contra, vou lançar O Caderno sem Rimas da Maria.”

Lázaro Ramos se diz inquieto, e conta que é essa característica que lhe faz buscar o novo em termos profissionais: “Sempre busco ser diferente do que fui anteriormente. É por isso que faço uma comédia bem rasgada, então entro num drama que necessita de laboratório. Hoje em dia, tenho me interessado por uma dramaturgia que mistura estilos. O cinema argentino tem muito disso. São dramas com momentos de gargalhadas, e de repente você já está chorando. É uma maneira de contar a história que acho inteligente. Outro exemplo é um francês chamado Os Intocáveis [sobre um milionário tetraplégico e seu assistente de enfermagem]. É tão legal aquilo, uma roda-gigante de surpresas para os personagens”. Para ele, infelizmente, “não aparecem muitos projetos desse tipo por aqui. Temos a tendência de deixar o drama ou a comédia isolados”.

A mesma inquietitude fez com que o ator gravasse as 26 entrevistas da 13ª temporada de Espelho em apenas cinco dias. Em conversas com celebridades como Caetano Veloso e Fernanda Torres e célebres anônimos como Dona Diva – professora que lhe emocionou em depoimento sobre racismo na última Feira Literária Internacional de Paraty –, uma pergunta em comum norteou todos os entrevistados: “O que você quer dizer de novo para o Brasil?”. Lázaro explica: “Vivemos em um momento em que parece não haver alternativa. Em resposta à provocação, os entrevistados usaram ‘de novo’ como ‘novamente’, mas também ‘de novo’ como novidade. Estamos tentando oferecer alternativas”.

Quando peço para Lázaro tentar explicar esse Brasil de hoje, sem alternativas e sem esperanças, rindo, ele diz: “Estou achando uma grande bagunça, não dá para explicar. Quem souber vai ganhar um prêmio. Mesmo com a ajuda de sociólogos como o Jessé de Souza [autor de A Radiografia do Golpe], não está dando. É um momento importante para saírmos das nossas bolhas e escutar aqueles que você acha que não têm nenhuma afinidade. Se quisermos construir um Brasil melhor, precisamos entender o que está faltando para as pessoas, o que podemos fazer para tentar organizar o país de novo. O Brasil tem nos entristecido. Estamos com dificuldades de comunicação, porque não estamos vendo horizontes, nos sentimos manipulados e sem voz o tempo todo. Mesmo quando se grita, as coisas não mudam. Essa é a grande questão. Nem o grito está funcionando. Quando se gritou para mudar, não mudou”.

E, se o amanhã brasileiro parece duvidoso, o amanhã de Lázaro também: “O que será amanhã? Dúvida de novo. Acho que isso é alimento para a vida. Quem tem muita certeza às vezes não sabe nada”.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.