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Governando com prazer

Bruno Covas assumiu a Prefeitura de São Paulo em 2018 e, na contramão de muitos, vem fugindo de grandes obras para mudar a história da cidade

por Artur Tavares 5 Set 2019 16:38

Por ser um ambiente em que se disseminam ódio e fake news, as redes sociais passaram a ser encaradas como um dos maiores males dos tempos modernos por muitas pessoas. O atual prefeito de São Paulo, Bruno Covas, no entanto, sai em defesa delas: “Eu acho que as redes sociais trouxeram um aperfeiçoamento do regime democrático, porque aproximam mais representante de representado”, disse ele à Carbono durante um almoço em um restaurante no bairro do Itaim, em que alternou momentos bem-humorados com reflexões sobre o poder. “Hoje é muito difícil você escutar que fulano é que nem Copa do Mundo, só aparece de quatro em quatro anos. Você vai acompanhando diariamente o político”, completou. Neto do governador Mário Covas, um dos fundadores do PSDB, Bruno, de 39 anos, assumiu a prefeitura em abril de 2018, depois que João Doria deixou o cargo para disputar (e vencer) o governo do estado. Na contramão de muitos políticos, tem evitado uma guinada aos extremos, permanecendo mais ao centro. “O mundo está vivendo essa dificuldade da intolerância religiosa, da intolerância sexual, da intolerância de gênero, de quem pensa diferente. É muito difícil você ter opiniões que vão mais para o centro no campo ideológico, o que significa apanhar dos dois lados. Tem que manter a tranquilidade”, afirma ele.

 

Apesar dessas – e de outras – dificuldades da vida pública, Bruno declara que governa com muita satisfação: “Nada mais prazeroso para quem gosta de fazer política do que ser prefeito”. Segundo ele, uma de suas maiores conquistas até então foi a drástica redução das filas em creches, graças às 50 mil vagas criadas. Já sobre um ponto crítico de seu mandato, “essa eu deixo para os meus opositores falarem”.

 

Carbono Uomo – Como a prefeitura está vendo o aumento do número de bicicletas? Isso incentiva a volta da construção de ciclovias?
Bruno Covas – Em relação à bicicleta, não há nenhum problema da nossa parte. O que achamos é que a gestão anterior fez ciclovia um pouco como se joga orégano em pizza: foi salpicando pela cidade. O que acabou fazendo com que grande parte da população ficasse com ódio da bicicleta. Essa é a pior herança da gestão anterior. Não é nem a construção, é essa cizânia que se criou, transformando algo que sempre foi visto como simpático e agradável numa grande discussão: bicicleta x carro. Encomendamos um plano cicloviário para poder definir onde precisa ter ciclovia,
ciclofaixa e ciclorrota. Não adianta ciclovia que liga nada a lugar nenhum. A do Jockey, por exemplo, só tem uso aos fins de semana, quando você tem integração com os parques. As ciclovias precisam ter conectividade e alimentar em especial as estações de trem e metrô. Ninguém sai para trabalhar de bicicleta de Parelheiros até a Paulista. Você sai de casa até o ponto mais próximo e aí faz a integração com o sistema de transporte. A partir do estudo devemos
fazer a requalificação de 350 quilômetros de ciclovias e a ampliação de 170 quilômetros.

 

Bruno Covas fotografado por Raphael Briest

Carbono Uomo – E sobre o boom dos patinetes?
Bruno Covas – No início de janeiro, nós montamos um grupo para discutir a regulamentação do patinete na cidade. Em maio, anunciamos uma regulamentação provisória que tem, entre as principais regras, o uso obrigatório de capacete e a proibição da circulação pela calçada. O poder público não acompanha a velocidade das novas tecnologias. Mas cabe a ele regular esse embate de utilização do viário. Você passa pela Faria Lima, pela Paulista, e vê esse conflito que se criou entre a bicicleta, o patinete e o pedestre.

 

Carbono Uomo – Como está a questão do Elevado João Goulart, o Minhocão, que o senhor optou por transformar em um parque suspenso?
Bruno Covas – Contextualizando, já existia uma lei municipal que dizia que, a partir de 2024, o Minhocão não poderia mais ser utilizado como viário. Essa decisão foi tomada pelos vereadores por meio de uma lei municipal. Portanto, só restava à prefeitura definir se seguia na linha da criação de um parque ou na linha de derrubar. Preferimos o parque. Neste primeiro semestre,ficam prontos os estudos para verificar quais adaptações vão ter de ser feitas no viário do centro para poder receber a carga de veículos resultante da mudança. E quais ações a Secretaria de Desenvolvimento Urbano vai desenvolver para evitar especulação imobiliária, ou seja, que haja uma saída das pessoas do centro por conta dessa valorização.

 

Carbono Uomo – Qual o passo seguinte ao estudo?
Bruno Covas – A ideia é que no segundo semestre sejam discutidos os editais de licitação para construir e adaptar o viário. As obras começam no primeiro semestre de 2020, e entregamos até o fim do segundo semestre.

 

Carbono Uomo – Como ex-secretário de Meio Ambiente, que ações o senhor acha que podem ser desenvolvidas na área?
Bruno Covas – No que diz respeito aos parques, o que mais dificulta é a manutenção dos atuais. Sem manter bem o que já existe, é muito mais difícil ampliar. A cidade tem hoje 105 parque municipais, e é por isso que uma das nossas apostas é a parceria com o setor privado. O Parque Burle Marx é um bom exemplo. O vencedor da concessão do Ibirapuera também já saiu. São R$ 70 milhões de outorga. Mais algo em torno de R$ 20 milhões que vamos deixar de gastar por ano com a manutenção de lá, para poder fazer a manutenção de outros parques. Quem venceu o Ibirapuera vai ter a obrigatoriedade de manter cinco parques na periferia. O Parque Augusta, por exemplo, durante dois anos vai ser mantido pela própria empresa que o está construindo. A partir disso, é possível pensar em ampliação.

 

Carbono Uomo – O senhor tem algum método para viver nesta época de tantas paixões?
Bruno Covas – (Risos) Tem que ter calma. Eu não diria que é a época das paixões. É a época do ódio. Esse é o problema. E isso não é um caso isolado de São Paulo ou do Brasil. O mundo está vivendo essa dificuldade da intolerância religiosa, da intolerância sexual, da intolerância de gênero, de quem pensa diferente. É muito difícil você ter opiniões que vão mais para o centro no campo ideológico, o que significa apanhar dos dois lados. Mas não tem muito o que fazer. Não adianta ir ao sabor dos ventos. Tem que manter a tranquilidade. Aliás, se tem uma cidade que celebra a sua diversidade, é São Paulo. Ela foi criada a partir de migrantes e imigrantes do mundo e do Brasil todo, que vieram para cá em busca de oportunidades.

 

Carbono Uomo – O senhor vê com bons olhos a proximidade que as redes sociais trazem entre povo e políticos?
Bruno Covas – Eu acho que as redes sociais trouxeram um aperfeiçoamento do regime democrático, porque aproximam mais representante de representado. Hoje é muito difícil você escutar que fulano é que nem Copa do Mundo, só aparece de quatro em quatro anos. Você vai acompanhando diariamente o político. Eu acho fantástico! Permite a todo momento ir explicando o que está sendo feito. Medindo a temperatura da sua popularidade. Então, eu acho muito positivo. O distanciamento entre representante e representado coloca a democracia em risco. A partir
do momento em que as pessoas não se veem representadas pelos partidos políticos, para que votar? As mídias sociais aproximam e criam identificação. Você vê o político cuidando do filho, vê ele no fim de semana. Você vê que ele é uma pessoa, que ele é real, que ele é gente.

Bruno Covas fotografado por Raphael Briest

 

Carbono Uomo – O senhor tem uma conta secreta no Instagram só para os seus amigos e parentes?
Bruno Covas – Não. Já me disseram para fazer isso, mas não dá. Eu já tenho dificuldade de lidar com uma. Duas, então… A conta do Instagram sou eu quem administro exclusivamente.

 

Carbono Uomo – O secretário de Subprefeituras começou a acompanhar online os serviços de zeladoria na cidade. A tecnologia pode ajudar muito mais a gestão?
Bruno Covas – Quando eu era secretário de Subprefeituras e o Alexandre Modonezi era o secretário executivo, começamos a implantar esse sistema. São Paulo é a única megalópole que tem um sistema como esse. Com isso conseguimos aumentar a produtividade das equipes de zeladoria em torno de 10%. Com relação a buraco tapado, área limpa, corte de grama. Este ano, nós estamos triplicando o orçamento de zeladoria. De R$ 500 milhões para R$ 1,5 bilhão. A lição de casa nas vacas magras nós fizemos. Agora com recursos, temos mais tranquilidade.

 

Carbono Uomo – Ampliar a internet gratuita é um plano da prefeitura?
Bruno Covas – A cidade de São Paulo tinha, quando assumimos, 120 pontos de wi-fi gratuitos, que custavam R$ 13 milhões por ano para a prefeitura. Nós vamos ter, até o fim da gestão, mais de 600 pontos. Vamos quintuplicar isso. E o custo que era de R$ 13 milhões vai cair para R$ 1 milhão. Da população que utiliza esses pontos gratuitos de wi-fi, 85% só tem acesso quando os está usando. Além do analfabeto, você tem o analfabeto digital. Além da exclusão, você tem a exclusão digital. Nós também estamos informatizando todos os processos da prefeitura. A ideia é que até o fim da gestão nenhum novo processo dê entrada no papel. Tudo eletrônico. O que dá muito mais transparência. Nessa migração para o eletrônico, o prazo médio dos processos cai 70%. Você acompanha em que mesa está parado, há quanto tempo está parado. Não há só o ganho de deixar de utilizar papel. Há o ganho na gestão do dia a dia dos processos.

 

Carbono Uomo – O senhor poderia fazer um balanço do seu mandato até aqui?
Bruno Covas – Eu acho que o ponto mais positivo é que cumpri a principal promessa de quando assumi a Prefeitura de São Paulo, dia 6 de abril do ano passado. De que seria um só governo. O governo do qual sou prefeito se iniciou em 1º de janeiro de 2017, com a posse do prefeito João Doria. E assim a gente tem mantido. Todos os grandes programas, todas as grandes iniciativas, estão mantidos. Uma das grandes conquistas é a redução drástica das filas em creches. Havia 65 mil crianças aguardando uma vaga em creche quando assumimos a prefeitura. Já criamos 50 mil vagas. Vamos criar mais 35 mil nos próximos dois anos. Em 2018, São Paulo atingiu a meta do Plano Nacional de Educação de ter 60% de vagas em relação ao total de crianças de zero a 3 anos. Não tem uma grande obra para inaugurar, é uma ação pulverizada, mas muda a história da cidade.

 

Carbono Uomo – E qual seria o ponto que merece autocrítica?
Bruno Covas – Essa eu deixo para os meus opositores falarem.

 

Carbono Uomo – A influência do seu avô perdura até hoje?
Bruno Covas – Eu costumo dizer que não foi a cegonha que me trouxe, foi um tucano. Desde criança, eu fazia campanha, discutia política dentro de casa, na escola, com os meus pais, com os pais dos meus amigos. Meus colegas não gostavam tanto assim de política quanto eu. Lembro de passar minhas férias em Brasília com 7, 8 anos. De carregar bexiga com a frase “vote Mário Covas senador” em 1986. Eu saí de Santos e vim morar em São Paulo para ficar com os meus avôs porque eu queria ser político. Com 14 anos eu decidi sair de casa, o que não é uma decisão comum. Hoje as pessoas estão saindo de casa com 40 anos. Diga-se de passagem, depois de muita insistência dos pais (risos). Eu me formei em direito e economia porque achei que eram faculdades importantes para quem fosse seguir a vida pública. Sempre foi o que eu desejei para a minha vida. Mas se eu dissesse que esperava virar prefeito de São Paulo tão cedo, não seria verdade. Candidatura ao Legislativo é fruto sempre de uma decisão individual. Candidatura ao Executivo é sempre uma questão de momento e vontade coletiva. Tanto é que tentei disputar as prévias do PSDB em 2011 e não consegui. Em 2015, apoiei outro candidato e não o João Doria e, mesmo assim, ele acabou me escolhendo para ser o vice dele. E acabei assumindo a Prefeitura de São Paulo.

 

Carbono Uomo – Como é ser um político tão jovem para a média?
Bruno Covas – Não esperava assumir a prefeitura tão rápido. Mas nada mais prazeroso para quem gosta de fazer política do que ser prefeito. Ainda mais da cidade de São Paulo, que é a capital da América Latina, não é nem do Brasil. Não tem nada que seja mais próximo do dia a dia das pessoas do que a prefeitura. Muito embora as grandes decisões sejam do estado e da União, o dia a dia das pessoas está relacionado ao poder municipal. A pessoa sai de casa, tropeça num buraco e me xinga. Vai atrás de remédio no posto de saúde e diz que eu sou o responsável. Até mesmo quando quebra a escada rolante do metrô as pessoas entram no meu Instagram para reclamar. Mas nada melhor que isso para quem gosta de política.

 

Carbono Uomo – Como separar o Bruno prefeito do Bruno ser humano?
Bruno Covas – Não tem como distinguir. Eu sou prefeito 24 horas por dia, sete dias por semana. Já aconteceu de estar em um bar com amigos e alguém vir reclamar de IPTU, de buraco na rua. Faz parte. Não tem como querer ser agressivo, não ter conversas como essas. Tem que estar preparado para fazer isso a todo momento. O que eu tento separar é o principal do acessório. O principal é ser prefeito de São Paulo. E quando eu tenho um tempo livre, consigo ficar com o meu filho, sair com os meus amigos, ter um pouco de lazer. Mas a cidade de São Paulo tem inúmeros problemas, não dá para querer muito tempo livre, não.

 

Carbono Uomo – Como é a rotina com seu filho, Tomás, de 13 anos?
Bruno Covas – Eu tenho guarda compartilhada com a mãe dele. Ele fica uma semana comigo, uma semana com ela. Trocamos toda semana, normalmente aos domingos. Ele é torcedor fanático do Santos. Ele é tão fanático que ontem arranjou uma camisa do Bahia para passar o dia na escola, porque o Bahia ganhou do Corinthians.

 

Carbono Uomo – Acha que ele vai ser político?
Bruno Covas – Difícil saber. Mas muita coisa do que ele vê em casa é política. Eu quero que ele faça o que quiser fazer, que seja feliz. Não tem nenhuma imposição. Mas ele gosta bastante. Ele pergunta por que precisa fazer a reforma tributária, por que os ônibus ainda não estão com ar-condicionado. Ele é superpolitizado. Ano passado, ele entrava no Instagram particular dos professores que estavam votando no Haddad e botava #bolsodoria (risos). Ele provocava.

 

Carbono Uomo – O senhor tem a percepção de que o poder é momentâneo?
Bruno Covas – Eu já fui e deixei de ser neto de governador, né? Você percebe claramente que tem gente que desaparece. Já senti isso, já estou prevenido. Eu lembro no dia do velório do meu avô, no Palácio dos Bandeirantes. Minha avó foi entrar no elevador, e o guarda falou: “Não, aqui é só para o governador e a família dele. A senhora precisa usar a escada”. Ela falou: “Claro”, e foi de escada. Se o Alckmin, que estava assumindo, tivesse sabido na hora, ele teria tido um negócio.

 

Carbono Uomo – Quais são os seus planos para o futuro próximo?
Bruno Covas – Difícil estabelecer. A candidatura majoritária, como disse, nunca depende só da vontade individual. Qualquer estagiário começa numa empresa querendo chegar à direção. Como na carreira política. Mas para isso você precisa plantar, não adianta só querer colher. É muito mais o problema do dia do que ficar pensando 2020 é isso, 2022 aquilo. Se você ficar pensando em 2020, deixa passar 2019.

 

Carbono Uomo – O Legislativo seria uma opção interessante?
Bruno Covas – Eu adoro. É muito melhor começar pelo Legislativo e ir para o Executivo do que o reverso. Geralmente, quem faz o caminho contrário acaba se frustrando muito. O Legislativo não anda na velocidade que anda o Executivo. Eu já escutei de um deputado, que só tinha sido prefeito, que para ele o Legislativo é como andar na esteira: você anda, anda, se cansa e não sai do lugar.

 

Carbono Uomo – Algum sonho no âmbito de formação?
Bruno Covas – Gostaria muito de fazer um curso no exterior. Eu me arrependo de não ter morado fora, de ter feito um curso fora. Logo entrei na faculdade e fui candidato com 24 anos. Mas estou fazendo um curso da Bloomberg Academy para 40 prefeitos do mundo inteiro. Foram três dias presenciais em Nova York no ano passado. Professores da Harvard School dão as aulas, das 8h às 21h. E, agora, a cada 45 dias tem uma aula online. A duração é de um ano. Daqui da América Latina fomos convidados eu e o prefeito de Quito, no Equador.

 

Carbono Uomo – Como o senhor faz para aguentar o ritmo de trabalho?
Bruno Covas – Tenho a alimentação regrada e vou cinco dias por semana na academia. Das 6h30 às 7h. Faço treino de corrida e musculação. Eles [aponta para os assessores] adoram quando vou, porque eu dou menos bronca (risos).

 

Carbono Uomo – Uma palavra que sintetiza a cidade de São Paulo?
Bruno Covas – Vida. Aqui as coisas acontecem, aqui as coisas existem. São Paulo é impressionante!

 

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.

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