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A corrida criativa

Ele busca dar um sentido novo à práticas antigas, seja na comunicação ou na publicidade. Agora, Fábio Seixas, do Festival Path, vai em busca de um propósito para o esporte mais popular do momento.

por Fabiano Mazzei 2 Jan 2019 18:35

E aí, correndo muito? Quanto: 10K, 20k… mais? E se sua próxima “provinha” fosse de 3.000 km? Sim, você leu certo. E mais: por dentro da Mata Atlântica, do Rio Grande do Sul até a divisa do Rio de Janeiro com o Espírito Santo, no meio do mato, cheio de bicho, em uma trilha inacanada e sob um clima que muda constantemente. Partiu? O empresário Fábio Seixas está dentro.
Conhecido no mercado publicitário e de economia criativa por ser co-criador de projetos como o Festival Path e a plataforma O Panda Criativo, ele tem se dedicado cada vez mais a criar desafios no esporte que adotou para si desde 2014: a corrida de longa distância. De lá para cá, ele já escalou o Kilimanjaro, na África do Sul, cuja parte do percurso é feita correndo; a corrida Circuito das Serras – 80km entre Ubatuba (SP) e Cunha (RJ); a ultramaratona de Bombinhas (SC); e os 100k da Patagônia, no Chile, quando ficou nada menos do que 19h correndo.
O desafio mais recente foi o Caminho da Fé, à convite do ultramaratonista Márcio Souza. Foram 318k entre cidades de Águas da Prata e Aparecida, no interior paulista. O trajeto, cerca de sete maratonas e meia, foi concluído em cinco dias, com direito a encontro com peregrinos e suas histórias incríveis.
Manauara, 36 anos, ele não tem carro e, não raro, vai correndo encontrar amigos. Agora, Fábio está focado em percorrer os três mil quilômetros em meio a Mata Atlântica, em parceria com a WWF. O projeto visa estabelecer um “corredor vivo” dentro do bioma, permitindo a migração segura de animais. Estabelecida a trilha, ele quer multiplicar a mensagem de preservação da região por meio de programas de TV, redes sociais e websérie. Fábio encontrou Carbono Uomo para um almoço em um restaurante em São Paulo e deu detalhes do novo projeto e de sua vida corrida. Literalmente corrida.

 

Carbono Uomo – Veio correndo?
Fábio Seixas – (risos) Não, vim caminhando, moro aqui ao lado.

 

Carbono – É verdade que você vai encontrar amigos correndo?
Fábio – Aos finais de semana, às vezes sim. Saio para correr e já marco um almoço, açaí ou chope com amigos. Já corri 80k dentro de São Paulo num domingo: fiz todos os parques, dando volta dentro deles. Tem vezes que vou para lugares que nem sei onde fica. Me perco e aí tenho de chamar um Uber para poder voltar para casa (risos).

 

 

Carbono – De onde surgiu esse gosto por correr?
Fábio – Sempre pratiquei esporte: tênis, basquete…  já velejei atravessando o Atlântico e quase toda semana eu salto de paraquedas. Mas, em 2014, fui participar da escalada ao Monte Kilimanjaro, na África do Sul, e vi que meu corpo aceitou bem as longas caminhadas e corridas de preparação. Passei a treinar, correr em grupo e, de lá para cá, já fiz a corrida Circuito das Serras, entre Ubatuba e Cunha; os 80k da ultramaratona de Bombinhas, onde terminei em 8o. lugar; e os 100k da Patagônia, no Chile. Em 2018, fiz os 318k do Caminho da Fé, no interior de São Paulo, até Aparecida.

 

Carbono – Que tipo de desafio, de preparação e de transformação este último desafio lhe trouxe?
Fábio – O desafio foi convencer o corpo que ele aguenta. É onde começa a preparação: na cabeça. Faço uns cálculos malucos para eliminar as barreiras psicológicas e vencer os objetivos diários de uma prova como essa. Já meus treinos físicos foram mais leves, porque respeito meu corpo e não quero me machucar antes das corridas. A grande transformação foi na fé mesmo, na crença em Deus. Conheci muitos peregrinos pelo meio do caminho com histórias emocionantes e é impressionante o que as pessoas são capazes de fazer pela fé.

 

(Assista ao teaser Vai Na Fé, produzido na experiência. A senha de acesso para assistir é vainafe)

 

Carbono – Agora, correr na Mata Atlântica. Qual a ideia por trás do projeto?
Fábio – Tudo começou quando li uma notícia de que a WWF estaria desenhando uma trilha que ligaria os parques e áreas preservadas de Mata Atlântica entre os cânions do Rio Grande do Sul e a divisa entre o Rio e o Espírito Santo, considerada a última área mais extensa deste bioma – depois, o que se tem são trechos muito curtos, de 1km, 2km, já que no Nordeste a devastação da Mata foi muito maior. Liguei para a WWF e sugeri fazer o projeto.

 

Carbono – Do que se trata essa trilha?
Fábio – É um corredor verde conectando os parques e que poderá ser explorado pelo ecoturismo. Este corredor também permitirá a migração de animais, colaborando com a preservação das espécies. Algo semelhante já foi feito nos Estados Unidos, com muito sucesso. Do percurso total, apenas 400km estão sinalizados, o resto eu vou ter de descobrir.

 

Na escalada ao Monte Kilimanjaro, África do Sul, em 2014

 

Carbono – Como está a preparação para este projeto?
Fábio – É um esporte pesado, requer preparo físico, mas não é muito diferente do que um maratonista faz. O cálculo estimado é de 90 dias para todo o trajeto: média de 40km por dia. É quase uma maratona diária, mas no Caminhos da Fé cheguei a fazer um trecho de 80km direto. Requer uma logística bizarra, porque terá momentos que terei de passar cinco dias no meio do mato, sem contato com a equipe de apoio.

 

Carbono – Quantos estarão na equipe?
Fábio – Haverá uma van com quatro pessoas que me acompanhará pelas estradas existentes. Massagista, nutricionista e um expert em trilha, pronto para o resgate e primeiro-socorros, se necessário. Além deles, uma equipe de filmagem vai contar todo o enredo do projeto.

 

À frente de projetos inovadores, Fábio busca dar um propósito maior ao às corridas e maratonas

 

Carbono – Você já lançou o projeto Cidade Corrida, que busca conectar as cidades às pessoas com o mesmo esporte. Agora, quer levantar a questão da preservação ambiental. Qual o objetivo destas associações?
Fábio – Na verdade, tudo o que tenho feito na minha vida busco dar um impacto social positivo e cada vez maior. O Ser Trancoso é isso para a comunidade local, o Path é isso para o Brasil inteiro. A ideia desta história com a WWF é ajudar com a comunicação de uma maneira menos técnica. E a corrida em si é um evento perfeito para chamar a atenção de todo um País: como alguém vai correr uma trilha de 3.000 km, que nem existe, cheia de animais e exposto às variações do clima? Vamos gerar conteúdo a partir disso, seja para programas na TV aberta e fechada, para webséries e postagens nas redes sociais.

 

Carbono – E quais os próximos projetos?
Fábio – Tenho já dois outros projetos em mente: descer de caiaque pelos afluentes do rio Amazonas da Bolívia até Belém (PA), enfocando as comunidades ribeirinhas; e fazer um ride de bike pelo sertão nordestino. Admiro muito a cultura do Nordeste e quero mostrar isso pedalando.

 

 

Fabiano Mazzei

Jornalista especializado na cobertura do mercado de luxo mundial, ele é também consultor de comunicação para empresas e gestor digital da plataforma Carbono Uomo.

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