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O chefe do Tite

Uma exclusiva com o coordenador da Seleção Brasileira na Copa da Rússia, Edu Gaspar.

4 Jul 2018 16:49

Por Rodrigo Grilo
Foto: Camila Maia

O paulista Eduardo César Daud Gaspar está próximo de fazer a sua estreia na Copa do Mundo, de camisa, jeans e terno, na Rússia. Hoje coordenador da Seleção Brasileira de Futebol, ele esteve muito perto de realizar tal sonho no Mundial de 2006, quando ainda desfilava pelo meio de campo mundo afora de calção, meião e camiseta com a seguinte assinatura nas costas: Edu. Primeiro brasileiro da história a conquistar a Premier League, a badalada liga inglesa de fu- tebol, ao se sagrar campeão na temporada 2001-2002 com o Arsenal, ele sofreu uma contusão no joelho às portas do torneio disputado na Alemanha e ficou de fora da lista dos convocados. Hoje, aos 39 anos, atua há sete como execu- tivo do esporte e, há dois, é o homem forte da Confedera- ção Brasileira de Futebol. Edu Gaspar, como passou a ser conhecido na “nova” profissão, é o chefe de Tite, treinador da seleção e, curiosamente, seu último técnico antes de aposentar as chuteiras no Corinthians, o time que o revelou. Na entrevista a seguir, ele fala do gosto pelo dress code como gestor do esporte, sobre os 7×1, a relação de amor e ódio dos torcedores em relação a Neymar e o seu programa pre- dileto longe do esporte: cozinhar.

Carbono Uomo
Por que dos nossos campos não brotam tantos craques de uma vez, como aconteceu na sua época com a geração composta por Djalminha, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Alex etc.?
Edu Gaspar
O futebol evoluiu muito, está cada vez mais rápido, exigindo cada vez mais força, toques ligeiros. Com essa característica de jogo, o craque, hoje, é outro estilo de atleta. Ele precisa dar dois, três toques na bola, pensar diferente. Falando dos brasileiros, o [meia] Philippe Coutinho é craque; o [lateral] Marcelo também. No futebol atual, o craque se destaca a partir da velocidade de jogo, perna, transição, ou seja, por outras características. Para mim, o último craque no sentido literal da palavra, o cara fenomenal, foi o Alex, o meia que jogou no Palmeiras. Ele tocava uma vez na bola e dava um passe diferente, genial, inimaginável, fazia gol de cobertura, dava chapéu em goleiro e por aí vai.

Carbono Uomo
Você não conseguiu participar da Copa do Mundo como jogador, mas fará a sua estreia no torneio como executivo. Qual a dimensão disso?

“HÁ MOMENTOS EM QUE A ÚLTIMA PALAVRA É MINHA. EM OUTROS O TITE TEM AUTONOMIA. SEMPRE QUE VOU TOMAR UMA DECISÃO FALO COM ELE. NOSSO RELACIONAMENTO É PAUTADO PELO RESPEITO.”
EDU GASPAR

Edu Gaspar
Como todo atleta, sonhei em vestir a camisa da seleção e representar o meu país nas principais competições e na maior delas, a Copa do Mundo. Estive muito próximo do Mundial de 2006. A minha convocação para o torneio estava muito bem encaminhada, até que sofri uma lesão no joelho e o sonho se foi. Corta para hoje. Migrei de função, me tornei dirigente, e as coisas foram acontecendo naturalmente. Depois de ser gerente de futebol do Corinthians, entre 2011 e 2016, assumi um cargo executivo na CBF e agora estou próximo de viver um dos momentos profissionais mais bonitos da minha carreira. Já estou envolvido com a Copa do Mundo, participando dela e tomando decisões importantes em nome da seleção brasileira. E me sinto orgulhoso por isso e por ir ao Mundial representando o Brasil.

Carbono Uomo
Qual a importância de a seleção ter enfrentado e vencido o amistoso contra a Alemanha recentemente, antes da Copa?
Edu Gaspar
Desde que entrei na CBF, coloquei com bastante veemência e busquei realizar dois objetivos antes do Mundial: jogar contra a seleção alemã, na Alemanha, e contra a russa, na Rússia. Jogar no país-sede seria bom para sentir o estádio, o am- biente, a logística de Copa, para ter o gostinho já do torneio. E enfrentar a Alemanha, obviamente, faria as pessoas e a mídia lembrarem, falarem bastante do 7×1. Só que agora que os vencemos por 1×0, as pessoas podem até falar ainda do 7×1, mas terão de ponderar que o Brasil voltou a ganhar da Alemanha. Eu queria mesmo que os atletas encarassem essa situação antes da Copa. Imagina se a gente pega a Alemanha somente no Mundial e tomamos um gol logo aos cinco minutos? Eu tinha dúvida sobre como os atletas poderiam reagir. Agora, depois que os vencemos, o país está mais tranquilo, os atletas e a gente da direção, também.

Carbono Uomo
O que foi dito aos jogadores sobre a importância de vencer a Alemanha?
Edu Gaspar
O Tite cobrou bom desempenho e não falou sobre vencer. A cobrança pela vitória é pesada demais. O atleta tem de jogar bem individual e coletivamente falando, o que aumenta a nossa chance de vitória. Foi isso que o Tite disse: ‘Senhores, precisamos ter um bom desempenho técnico, individual e coletivamente falando. E encarar a realidade. Aconteceu o 7×1? Sim. Se dói muito ou só um pouco ainda, ago- ra é encarar. O 7×1 foi um jogo, mas, considerando o histórico do confronto, a gente ganha da Alemanha de goleada. Devemos, então, focar no histórico e não na história de um jogo. E esse objetivo nós alcançamos também.’ Todo mundo voltou a entender o que é Brasil x Alemanha: é jogo duro, difícil e, enquanto ficar nisso, vamos seguir em frente. nessa toada, jogando, vencendo, fortalecendo-nos cada vez mais. É com isso que nos importamos.

Edu Gaspar (Foto: Camilla Maia)

Carbono Uomo
O Neymar é amado e odiado por muita gente. A que você atribui essa dicotomia?
Edu Gaspar
Não vejo tanto ódio assim. Como acontece com personalidades de destaque, os sentimentos nutridos por ele são variados. Fico me perguntando como deve ser difícil ser uma pessoa que não pode dar um passo além sem ser indagada sobre o porquê. É difícil ser o Neymar. Esses caras vivem rodeados de gente, pessoas procurando notícias, amizade. E o Neymar tem de saber ser esse cara de destaque. Porque a crítica pode vir de onde você menos espera. Para você ter uma ideia, o Neymar fez quatro gols em uma partida de seu clube, o Paris Saint-Germain, e, ao final do jogo, a torcida de seu próprio time o criticou porque ele não deu a bola para o [companheiro de time] Cavani bater um pênalti, que resultou no quarto gol do Neymar no jogo. Queria eu ter um jogador no time que faz quatro, cinco, dez gols por jogo, pô!

Carbono Uomo
Como planejou a transição de carreira de jogador para a de executivo de futebol?
Edu Gaspar
Eu tenho um escritório que cuida dos negócios que toco fora do futebol, como investimentos, imóveis, corporações. Sou representante aqui no Brasil de uma empresa chinesa e sinto prazer em conversar com pessoas de segmentos e ideias diferentes. Em 2010, voltei ao Brasil para jogar no Corinthians, e chegou um momento em que eu sentia muito mais prazer em ir ao meu escritório do que aos treinos. Eu me sentia feliz em vestir camisa, blazer, jeans. Em dia de treino, por outro lado, não ficava tão animado. Tinha ainda um ano de contrato e não estava devolvendo em campo o investimento do clube. Para se ter uma ideia, às vezes, eu recebia pessoas na concentração do Corinthians para tratar dos meus negócios. Percebi isso e conversei com o Andrés Sanchez [presidente do Corinthians] para encerrar o contrato. No dia seguinte ao que decidi parar de jogar, estava já no escritório administrando meus negócios. Até que, menos de um mês depois, o Andrés me convida para ser gerente de futebol do Corinthians. Por lá fiquei pouco mais de cinco anos antes de vir para a CBF.

Carbono Uomo
O que você fazia enquanto rolava o 7×1?
Edu Gaspar
Eu estava em um boteco, meu! (risos) E não era pouco boteco, malandro, tinha mesinha de bilhar, amigos próximos, com cervejinha, sambinha. Mas, claro, tudo dentro do normal.

Carbono Uomo
Como seria vingado o 7×1?
Edu Gaspar
Não existe isso. É coisa que fica para o torcedor e para a mídia. A gente não tem esse sentimento. Temos de continuar jogando bem, seguir com o nosso histórico de vitórias. E esquecer aquela goleada. Nós fomos pentacampeões mundiais em cima da Alemanha, vencendo por 2×0. Recentemente, fomos campeões olímpicos batendo os alemães na final. E, mais recentemente ainda, ganhamos deles em um amistoso, na Alemanha. Quer dizer, vamos seguir

Carbono Uomo
Aí você retorna como gerente do Corinthians mandando no futebol e, teoricamente, no seu ex-treinador, o Tite, que inclusive o deixava na reserva. Que situação!
Edu Gaspar
Eu e o Tite nunca tocamos no assunto de ele me deixar na reserva no Corinthians. Agora, estamos juntos na seleção, e as pessoas querem saber: quem é chefe de quem? Há momentos em que a última palavra é a minha. Mas há outros em que o Tite tem autonomia. Sempre que tomo uma decisão, porém, vou falar com ele, porque o aval do treinador é fundamental para qualquer assunto sobre a seleção. Aí eu te pergunto: quem é o chefe, então? (risos). O nosso relacionamento é pautado pelo respeito. A gente não discute; a gente discorda. Tite já mandou mensagem para o Luigi e à Duda, meus filhos que jogam futebol, quando soube que eles fizeram um gol em seus jogos. É um cara que merece ser admirado. Você acredita que o Tite me consulta se pode chegar mais cedo ou mais tarde em alguma reunião por causa de um contratempo?

Carbono Uomo
Quem se veste melhor: você ou o Tite?
Edu Gaspar
Para minha idade, eu. Para a do Tite, ele. (risos)

Carbono Uomo
Foi tranquilo trocar calção e meião por terno e gravata?
Edu Gaspar
Eu sempre fui enjoado para me vestir, no sentido de curtir me vestir bem. Na minha posição, hoje, preciso estar bem-vestido, apresentável, sempre. É uma das minhas responsabilidades. Não preciso estar com o terno mais caro, mas mais apresentável. Para poder cuidar dos outros, eu tenho de cuidar de mim. Por isso, vou todo dia de manhã para a academia, corro, leio o meu livro, escuto a minha música, porque isso tudo me faz bem para, na sequência, eu poder cuidar dos outros. Minhas camisas e ternos sempre foram feitos sob medida, mas, atualmente, o Ricardo Almeida cuida do que eu visto. E sempre tenho uma gravata guardada estrategicamente para combinar com o restante do visual, se preciso.

Carbono Uomo
Havia muita gente que se incomodava com o fato de você ter pouca idade para ocupar um cargo de responsabilidade?
Edu Gaspar
Eu acho incrível quando as pessoas olham para a minha cara de moleque e se surpreendem: “Você é o coordenador de seleções!?”. O que me incomoda é quando, ainda que saibam que eu ocupe o cargo, desconfiam que não seja eu quem organize e decida as coisas no meu departamento. Há situações também nas quais, por desconhecimento, algumas pessoas procuram o Tite primeiro. E, de pronto, ele fala: “Desculpa, mas quem decide é o Edu”. Mas, tudo bem, é bom que eu esteja com essa cara jovem. Esta é uma seleção jovem, moderna.

Carbono Uomo
Em qual esfera enxerga que precisa se aprimorar?
Edu Gaspar
O fato de eu não ter uma formação me incomodava. Eu não concluí os estudos porque me dediquei ao futebol. Não tive nem a chance de optar porque, aos 17 anos, eu já era jogador profissional do Corinthians. No começo da minha carreira como gestor, eu ouvia muito: “Olha lá, é por ser ex-atleta, ter jogado no Arsenal, no Corinthians, que está nesse cargo”. Isso me incomodava, mas agora as pessoas já sacaram que eu corri atrás, estudei, fiz cursos fora do país. Hoje, estou fazendo aulas de media training. É importante eu me expressar corretamente, passar bem a mensagem. Em abril, fui para Harvard dar uma palestra na quarta edição da Brazil Conference at Harvard & MIT. Falei ali sobre ações transformadoras, que eram o tema, sobre o modelo de gestão da seleção brasi- leira e do meu trabalho. E assim vou indo.

Carbono Uomo
Dizem que você é craque na culinária.
Edu Gaspar
A culinária é uma forma de relaxar. Eu sempre acordo cedo. Saio de casa e procuro um mercado transado e começo a escolher e comprar os ingredientes. Depois de uma hora, retorno para casa, monto a bancada, começo a picar tudo. E me divirto cozinhando com a família ao lado: eu e a esposa tomando um vinhozinho, minha filha pequena andando para lá e para cá tentando me ajudar. A minha esposa fez um curso de culinária na Inglaterra, mas, hoje, sou eu quem passo o domingo inteiro cozinhando. Eu sou carnívoro e fico inventando, testando. Já fiz lagosta, paella, tudo o que você possa imaginar. Preparei, recentemente, uma sobremesa de frutas vermelhas flambadas com sorvete e banana que tá louco, meu!

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