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Um clássico

Antonio Fagundes, capa de Carbono Uomo #13

por Artur Tavares 9 Jun 2019 18:57

“A vida anda uma loucura”, exclama Antonio Fagundes enquanto se prepara para o primeiro clique do ensaio que você confere. Ele se refere ao aniversário de 70 anos, completados em abril, e também à carreira de 53 anos, que continua em plena ascensão. Prestes a estrear Bom Sucesso, novela das 19h na TV Globo, ele já juntou 200 mil espectadores em salas de teatro do Brasil, de Portugal e dos Estados Unidos com a peça Baixa Terapia: “A luta continua, a data não chegou a ser um marco para mim. Estou fazendo tanta coisa que fica até difícil selecionar a comemoração, se deve ser a partir de um ponto ou de outro. A vida tem sido tudo junto e misturado”, diz.
Tudo junto e misturado parece definir bem o homem que cativa o público brasileiro desde meados dos anos 1960. Fagundes começou no teatro e, logo em seu primeiro papel na televisão, na novela Nenhum Homem É Deus, foi indicado ao Troféu Imprensa como ator revelação de 1970. De lá para cá, foi Cacá em Dancin’ Days, Pedro da Boleia em Carga Pesada, Ivan Meireles em Vale Tudo, Bruno Mezenga em O Rei do Gado, Coronel Ramiro Bastos em Gabriela e mais recentemente Halim, em Dois Irmãos. Já são mais de 50 papéis na TV e outros 50 no cinema, sem nunca ter deixado o palco, sua grande paixão, de lado: “O teatro é a pátria do ator. É nele que o ator ousa, erra, arrisca-se, aprende a ser humilde. O teatro é imprescindível para mim e muitos atores da minha geração, ainda mais no que diz respeito à formação”, afirma. “Quando me perguntam se eu prefiro o teatro, o cinema ou a televisão, peço que deixem o teatro fora disso, porque ele não se compara a nada. É a base. E por isso nunca parei”.

 

 

Comédia do autor argentino Matías del Federico, de apenas 36 anos, Baixa Terapia reúne Fagundes e sua família no palco há dois anos, um sucesso que continuará lotando as salas por onde passa pelo menos até o fim de 2019. Ele contracena com o filho Bruno, a atual esposa, Alexandra Martins, e a ex-mulher, Mara Carvalho. Não foi proposital, nem uma oportunidade de se reconectar aos entes queridos após tanto tempo de uma rotina louca de pontes aéreas e gravações: “Para montar o elenco, fizemos ensaios com seis ou sete grupos de atores diferentes e pinçamos aqueles que funcionavam mais dentro daquilo que queríamos. Quando vimos, era essa a formação. Não foi algo pensado desde o começo, fomos crescendo juntos, e se provou uma decisão acertada”, explica. A sinergia de palco é familiar, mas também foi construída pelo quarteto em outros trabalhos, já que todos já haviam se encontrado na TV, no cinema ou no teatro em outras ocasiões.
A peça passou por 27 cidades brasileiras, além de palcos portugueses e americanos, mas ainda não chegou ao Rio de Janeiro. Considerando que foram pouco mais de 300 sessões, tem uma média de público de mais de duas mil pessoas por fim de semana, impressionante para épocas de maratonas de seriado na Netflix: “Principalmente agora, com o streaming, o teatro se faz atrativo. Estamos vivendo em um mundo cada vez mais sem vínculos, totalmente individualista. Os produtos que você quer, escolhe individualmente. Isso faz com que você se dissocie dos meios sociais, ao contrário do que se imagina”, reflete Fagundes.
“‘Estou nas redes sociais’… Você não está em nada! ‘Tenho 5 milhões de seguidores’… Você não tem nada! Apenas uma ilusão de que está se relacionando com alguém. No teatro você tem realmente um momento social. São 700 pessoas que se reúnem em um mesmo espaço, respiram o mesmo ar e, durante uma hora e meia, sem usar essa porcaria [aponta para o meu celular, que grava a conversa], ouvem um grupo de pessoas desenvolverem ideias. É revolucionário, não tem o que acabe com isso.”

 

 

Fagundes diz que não vê novidades no streaming, formato que “apenas tem reciclado as experimentações dos últimos cem anos do cinema”, e lista outros pontos negativos: “O cinema foi um ganho sobre o teatro em termos de possibilidades de cenários maiores e locações diferentes. Sua interpretação cresce cinco metros. A televisão, não, porque você não controla o ambiente. Podem levar a tela para onde quiser. Isso cria uma mudança de relacionamento. Eu acho que o streaming traz uma perda de qualidade ao seu trabalho e também à concentração do espectador, em termos de vínculo. É quase impossível fazer uma pessoa se emocionar se ela está vendo uma cena no meio do trânsito. Ela tem que ter um grau de concentração que, se tivesse, não estaria no celular”, ironiza.
Mesmo assim, o ator se diz fã de seriados, daqueles “maratonistas”, e reco- menda a divertida série Jean-Claude Van Johnson, produzida por Ridley Scott, e que coloca o ator/lutador Jean-Claude Van Damme no papel de si mesmo, mas em tons de galhofa: aposentado após protagonizar tantos filmes de artes marciais, o belga decide usar suas habilidades para se tornar mercenário de aluguel. No tempo livre, entre uma série e outra e suas gravações, Fagundes se diz ávido leitor: “Estou lendo Na Fissura: Uma História do Fracasso no Combate às Drogas, de Johann Hari, para mim até agora a obra mais completa sobre política de drogas que já foi escrita. É de uma amplitude de análise realmente extraordinária”.

 

Blazer, camiseta, calça jeans e sapato DOLCE&GABBANA

 

Em Bom Sucesso, o ator interpretará o milionário Alberto, que, com uma doença degenerativa, tem que viver em uma cadeira de rodas. Mas Fagundes não trata o desafio como algo novo na carreira: “Entre as cenas eu vou levantar [risos]. O público tem a impressão de que não fazemos outra coisa a não ser se preparar para o personagem, e na verdade é isso mesmo, é a vida. Estou me preparando há 70 anos para fazer esse personagem. Não existe essa busca constante por laboratórios e pesquisas. Você traz uma carga humana e de experiência que, somada ao conhe- cimento do autor e do diretor, faz com que a coisa não fique tão complicada”.
E o futuro? A pergunta é um clichê, mas não deixa de ser necessária ao homem que definitivamente não tem mais nada para provar a ninguém: “Depois de 53 anos de profissão… bom, Shakespeare escreveu 37 peças, eu escrevi uma só. Tenho 36 para serem feitas. Sempre brinco com meus colegas que sonham em fazer Hamlet que depois disso eles têm que morrer. Não vai sobrar mais nada para fazer. Prefiro ter 1.800 projetos, e é o que eu tenho hoje”, ele diz.

 

Fotos Marcus Steinmeyer
Edição de moda e styling Stephanie Marie Eli

 

 

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.

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