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Alexandre Nero

Capa da edição #10 da Carbono UOMO.

1 Set 2018 11:44

Ator premiado, músico, pai em processo de aprendizado. Nesta conversa com Carbono Uomo, Alexandre Nero se desvela em facetas além da ficção. Vai do papo cabeça à leveza, dos bastidores do palco à sala de estar e transita por todos os temas sem se levar muito a sério.

Por Raquel Fortuna, de São Paulo.

Quando encontramos Alexandre Nero, havia mais ou menos um mês que ele tinha matado Pedro Gouveia, o “rei do sertão”. Estamos falando do personagem do ator na aplaudida série da Globo Onde Nascem os Fortes, en- cerrada em julho. “Para mim é difícil encontrar o per- sonagem, mas depois que acho, ele vai. E, quando ter- mina o trabalho, eu o mato rapidinho”, contou o ator à Carbono Uomo. Se for colocar no papel, estamos falando aí de assassinatos em série: de 2007 para cá, foram oito novelas e seis séries, sem contar a trajetória no cinema e teatro. Na TV, o curitibano já foi Vanderlei Peive, Terên- cio, Baltazar Fonseca (o Zoiúdo), Stênio Alencar, Rome- ro Rômulo, José Alfredo de Medeiros (o Comendador), entre outras personas. Este último, na novela Império, de 2014, um papel dos mais marcantes – não é raro Nero ser chamado pelo apelido na rua, como pudemos presenciar numa rápida circulada ao lado do ator na avenida Paulista, nos bastidores deste ensaio na Japan House, em São Paulo.

Na ficção e fora dela também, Nero é força em cena. Garante ele, não faz separação entre pessoa física e jurí- dica. “Todos nós somos o que nossos personagens são, só que com uma lente muito maior, com um negrito hiper- -realista. Todos eles passam por nós, por mais absurdos que sejam. Engraçado que as pessoas costumam dizer ‘ah, o Nero sempre faz personagem dúbio’. Eu não vejo assim. Tento trabalhar por pessoas adultas. E me parece óbvio que qualquer personagem tem dualidade. O que somos nós? Podemos ser qualquer coisa, basta saber o que a gente quer. Acho pobre para um ator resumir o cara num vilão ou bonzinho. Eu faço a vida. E a gente na vida é muita coisa”, diz o ator, que conta 13 prêmios, uma indicação ao Emmy (melhor ator na novela A Regra do Jogo) e concorre agora, no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, ao posto de melhor ator por sua interpretação no filme João, O Maestro, sobre a vida do pianista João Carlos Martins.

O currículo parrudo, porém, não lhe dá a tranquilidade de quem chegou lá. Nero torce para ser disputado para trabalhos bons, mas sabe que precisa carregar piano de vez em quando. “Como todo funcionário, acabamos, às vezes, levando o papel. Isso faz parte do trabalho de todo mundo. Esse negócio do glamour vem muito mais de fora do que de dentro”, diz. Brigar por roteiros bons é sempre uma meta. Mas atribui o sucesso de um trabalho a uma soma de fatores e entende que errar é bem humano. “Às vezes você tem um grande diretor, um grande texto, e aqui- lo dá errado. Porque a ideia é basicamente sempre simples,

A grande questão é fazer acontecer. Às vezes, um produto é brilhante e não tem público para assistir. Financeiramente não rendeu, mas artisticamente foi uma potência. Tem coisas que dão bilheteria, mas artisticamente não cumprem a lacuna. Eventualmente a gente acerta. Nosso trabalho é basicamente errar. Às vezes, a gente acerta.”

Nos últimos tempos, um dos roteiros desejados pelo ator foi o do filme Sem Pai Nem Mãe, do diretor André Klotzel, que ele grava atualmente e no qual interpreta um escritor que tem o computador roubado e acaba se envolvendo com a vida do ladrão. “Uma comédia requintada”, define. O trabalho, por sinal, é uma das únicas coisas que estão na agenda do ator nos próximos meses. É que, em acordo com a Globo, ele se permitiu dar uma pausa, raridade para alguém que pode boicotar as próprias férias para fazer “só uma participaçãozinha” em alguma produção. Agora, é verdade, existe uma motivação extra: aos 48 anos, Nero será pai pela segunda vez. Em setembro, chega mais um menino para se juntar a Noá, de 3 anos, do relacionamento com a consultora de estilo Karen Brusttolin, sua parceira na vida e no trabalho (é ela quem assina a produção de moda deste ensaio – e entende como ninguém os gostos do ator)

Ao falar da paternidade, Nero ri de si mesmo quando lembra de seu processo de aprendizagem. Músico, já quis colocar Björk (cantora islandesa aclamada) para entreter seu garoto. Compôs uma canção de ninar que foi um belo de um fracasso em casa. “Eu tinha uma ideia tão errada de filho… Não entendia por que eu tinha que colocar o Bita (personagem do desenho ins- pirado em um dono de circo que é sucesso atual entre as crianças) para ele ver? Será que ele não pode ouvir Björk? Não, não pode e não quer. Tem hora que a única coisa que dá um tempo é a TV. Então, obrigado, Bita”, conta. É com Noá que Nero costuma incorporar um de seus papéis mais divertidos. “Temos uma brincadeira nossa em que ele é o menino-gato e eu sou o lagartixo. Basicamente, a gente fica brigando. Noá corre, me imobiliza, e eu fico pedindo ajuda. Mas eu sou pai velho, tenho quase 50, fico imaginando daqui uns anos. Agora chegando outro! Isso me dá medo. Tem horas que não aguento, doem as costas, as pernas. Mas meu momento mágico mesmo é quando ele vai para a nossa cama, antes de dormir. Fica aqui assim [mostra o colo]. Essa viagem é uma delícia”, diz.

Como qualquer pai do mundo moderno, Nero também enfrenta os dilemas de criar um filho em um cenário que se transforma rapidamente e que pede, cada vez mais, a quebra de paradigmas. “É importante compreender que o machismo é algo enraizado na nossa cultura e que nós precisamos repensar algumas coisas, assim como o racismo e a homofobia. Não é porque eu pensava assim antigamente que não posso mudar. E eu acho que a gente está pensando. Eu não tive a mesma educação do meu pai que, sem dúvida, foi mais machista. Mas eu também não sou totalmente feminista. Estamos num processo de aprendizado e as mulheres precisam nos ensinar. Eu estou de ouvidos abertos”, pondera. Na última Copa do Mundo, na contramão da maioria, Noá usou uma camiseta da seleção que trazia o nome da jogadora Marta. “Você vê meninas usando a camisa do Neymar, por que ele não pode usar a da Marta, que é maravilhosa? Meu filho brinca muito de carrinho, nunca foi forçado, e também adora bonecos. E está tudo certo. Então, eu tento passar essas coisas para ele. Acredito que a gente tem que ir quebrando esses modelos. É como um terno que precisa ser desconstruído. Não precisa ter a cara do vovô. Eu fui um jovem que sempre quis desconstruir tudo”, diz.

Nesta conversa com Carbono Uomo, Nero fala muito em construir e desconstruir, da importância de entender processos para dar sentido ao que se faz. E isso não envolve só escolhas profissionais. “Quando eu proponho um look, e eu gosto de moda há muito tempo, não estou só inventando da minha cabeça. É preciso entender a construção para poder desconstruir depois, para conseguir agregar algo, senão vira um grande entulho de coisas que não serve para nada”, reflete.

No campo das histerias e neuroses, o ator revela que não escapou do divã e que foi parar ali mais pelo resultado da profissão do que por causa dela. “A fama, o assédio, isso meio que me desnorteou. Ainda não consigo entender o que faz as pessoas te amarem ou odiarem tanto. E gratuitamente. Essa coisa da comunicação popular foi um estranhamento para mim. Sempre fui duro, feliz com o que tinha e fazia. De uma hora para outra, você vira paparicado, ‘o cara’ [pausa longa]. Coloca aí: beber com os amigos é fundamental para extravasar tudo também.” Sim, tudo isso não quer dizer que não haja espaço para a leveza em sua vida. Nero garante que é muito mais raso do que profundo. Gosta de festa, de reunir a turma e fazer piadas bobas. “Às vezes, as pessoas me perguntam: ‘Você leva tudo na brincadeira?’. E eu respondo: ‘Não, só o que importa’”, finaliza, aos risos.

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