Gastronomia

Aventuras Cafeinadas

Perfil do Instagram que falava sobre café, o Pura Caffeina tornou-se loja on-line que entrega de bicicleta grãos arábica torrados e moídos na casa dos paulistanos

por Artur Tavares 25 Out 2017 06:26

O boom de cafeterias abertas nas grandes cidades nos últimos anos foi responsável por introduzir a categoria dos cafés especiais na rotina dos brasileiros. Lotes que vêm de microtorrefações do Paraná, Espírito Santo e Bahia são conceituados pelos apreciadores da bebida, mas ficam restritos ao consumidor dessas casas especializadas, com poucas opções de venda em empórios, mercados e on-line. As pessoas ainda não tornaram cotidiano o hábito de consumir um café de altíssima qualidade em casa, missão que Gisele Coutinho tem com sua loja Pura Caffeina.

Em 2010, Gisele atuou como repórter em uma publicação dedicada ao café. Nesse tempo, pôde conhecer a fundo fazendas e seus métodos de produção ao redor do País. Adquiriu bastante conhecimento técnico e paixão pela bebida: “Comecei a comprar cafés, me especializei em técnicas e utensílios. Decidi criar um perfil no Instagram para indicar cafeterias em São Paulo e fora daqui quando eu viajasse. Queria compartilhar minhas aventuras cafeinadas”. A primeira foto é de 8 de dezembro de 2014: uma xícara de café, alguns copos, duas bolsas de mão, uma tela de celular e a legenda: “Doppio gostoso no Lighthouse Café, em Florianópolis. Mas, bom mesmo foi o café da Nicarágua feito na Aeropress. Torrado pela Panther Coffee, um café inesquecível. Só tomaria ele mais diluído”. A crítica virou negócio quando seus seguidores começaram a pedir indicações de cafés para ela, e também de coadores, aeropresses, filtros. “Então, o HM Food Café abriu em frente à minha casa. Frequentei lá desde o início, quando eles não tinham um café tão bom. Por minha influência, pagaram cursos ao barista, investiram em uma máquina melhor, encontraram grãos de qualidade superior.”

Em outubro do ano seguinte, Gisele foi convidada para servir café coado no HM, e teve que se virar para encontrar o café perfeito para a ocasião. “Topei, mas não tinha o café que ia servir e vender. O Luis Pereira Villela me enviou uma amostra de um café que torrava no Espírito Santo. Era incrível, mas com muita acidez. Eu procurava uma bebida muito doce e com muito corpo. Ele me mandou outras amostras, mas nada combinava. Encontrou com o irmão dele, Delmar, um café como o que eu queria. Foram três semanas até a escolha e o produto chegou no dia, não tinha como mudar.”

Um ano e meio depois, o catuaí amarelo do Sítio São José ainda é o produto oficial do Pura Caffeina, que também oferece variedades de outras microtorrefações de maneira sazonal. À sua base de clientes, Gisele envia semanalmente um e-mail informando o que está disponível em estoque, como um catuaí vermelho do Sítio Ferradura do São Domingos, em Minas Gerais. “No começo dessa minha vida de empreendedora, eu tinha medo de oferecer mais de um tipo de café e ficar com dois encalhados. Acabei percebendo o contrário. As pessoas levavam ambos para casa.” De um único pedido de 8 quilos que recebeu via Sedex dos Pereira Vilella, hoje o estoque do Pura Caffeína já é entregue via transportadora. Quando ele chega a São Paulo, a loja distribui os pedidos para os clientes em um serviço de bike courier: “Conforme as vendas foram aumentando, contratei uma empresa de entregas. Como boa feminista, procurei um lugar que empregasse mulheres ciclistas.” Como tem comando total sobre a empresa, ela também consegue controlar a cadeia de envio: “Se a semana tem feriado, aumento para dois ou três o número de dias de entrega. As pessoas não ficam sem café e todo mundo pode parar para descansar”.

Somando a produção brasileira do café como commodity – para exportação e consumo de massa –, de cafés gourmets e cafés especiais, o País colhe cerca de 51 milhões de sacas de 60 quilos por ano, ou um terço de todo o mundo. Mas a nossa realidade é diferente: “Acredito que os brasileiros têm o direito de tomar café especial. Nós somos os maiores produtores mundiais, e só 25% fica por aqui. Nós exportamos cafés verdes para cafeterias incríveis em todo o mundo. Alguns deles são inscritos em leilões. Dependendo da região que você vive no Brasil, é mais fácil encontrar cafés brasileiros de qualidade em Berlim”, explica Gisele.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.