Design

José Marton: visita

Uma imersão na vida, no trabalho e nas coleções particulares do designer.

por Artur Tavares 26 Mar 2018 13:20

Entrar na casa de José Marton é fazer uma verdadeira imersão no mundo das artes – e também na história do dono. As obras que estão por todo o apartamento, no Paraíso, em São Paulo, são protagonistas tanto daquele espaço bastante pessoal quanto da sua carreira no design há quase 30 anos. À frente do Marton Estúdio, na Barra Funda, ele atua nos bastidores da produção de artistas como Nino Cais, Paulo Bruscky, Ana Maria Tavares, Rosangela Rennó e Thiago Honório, ajudando na montagem de quadros, esculturas e instalações, um negócio que lhe garantiu uma enorme coleção de arte contemporânea.
Seria óbvio se a história de Marton, 53 anos, fosse a de um garoto bem-nascido que sempre teve o privilégio de circular no restrito círculo das artes, mas não é bem assim. Ele nasceu na cidade paulista de Cajobi, na época com apenas 2 mil habitantes. Seu pai, um imigrante italiano que chegou ao país sem ser alfabetizado, era dono de uma marcenaria e queria que o filho tocasse os negócios. “Desde aquela época, eu criava coisas para brincar com os resíduos da marcenaria e com as frutas que encontrava no quintal da casa dos meus pais, onde minha mãe cultivava um jardim enorme de margaridas e rosas. Além disso, minha irmã desenhava muito bem, era algo que me fascinava.” Inquietações artísticas não faltavam para tirá-lo de lá: “Cajobi tinha um jardim público que era o mais premiado do Brasil. Foi um despertar plástico muito positivo na minha infância”, conta. Na adolescência, Marton estudou técnicas de desenho e, aos 17, depois de trabalhar por quatro anos no negócio da família, pegou suas economias e veio para São Paulo cursar artes plásticas na Faculdade Santa Marcelina: “Durante os cinco anos, nunca trabalhei. Vivenciei minha faculdade com intensidade. Chegava todos os dias às 7h e saía às 23h. De tarde, costumava visitar os estúdios e convivia com meus colegas da moda para aprender a fazer estamparia”.

Foi no mundo das passarelas, por sinal, que ele se destacou em primeiro lugar. Desde que fundou seu primeiro estúdio – Marton + Marton, com o irmão Fernando, em 1995 – fez lojas e cenografias de desfiles para mais de 300 marcas, como Alexandre Herchcovitch, Iódice, Fórum e Cori. No último mês de novembro, ele próprio passou para o varejo e abriu uma pop up store com sua assinatura no Shopping Vila Olímpia, no bairro homônimo. “O Armazém do Marton começou como bazar em 2013, mas virou um negócio só quando fizemos um projeto de loja para a Casa Cor. Realizei a curadoria de peças junto a 120 designers jovens. Esse convite de ficarmos um ano no shopping é um estudo para ver como a ideia pode virar uma rede”, explica. Ele compara o Armazém do Marton às lojas de museus, como as do nova-iorquino MoMA ou do parisiense Centre Pompidou, mas não deixa de lado sua herança: “Bem do lado de casa havia um armazém. Eu ficava pensando, aos 6 anos de idade, como uma mesma loja poderia vender de tecidos a grãos. Ali havia todo o universo do que você precisava. Levei o conceito para dentro do projeto. Vendemos desde lápis, que custam R$ 3, até peças vintage de design, que passam dos R$ 30 mil”.

DE TUDO UM POUCO
Enquanto ganhava notoriedade, Marton percebeu que a produção artística paulistana se fortalecia com o surgimento de novos galeristas, que apostavam em obras além da pintura: “Me lembro da abertura da Camargo Vilaça, nos anos 90, e do papel fundamental que o Marco Antônio [seu fundador] teve na divulgação e na possibilidade de projetar os artistas brasileiros lá fora”. Havia efervescência, mas problemas em executar ideias mirabolantes: “Estamos em um momento pós-ateliê, em que os artistas dependem muito de diferentes indústrias para produzirem suas obras. Construí uma plataforma de profissionalização do suporte da arte”.

Com sua expertise em materiais e cenografia, o designer fez flutuar um boneco na obra Fancy Violent, de Rodolpho Parigi, criou mesas de madeira com pernas e tampões retorcidos para Edgar de Souza, e com o mesmo material construiu A Ponte Impossível para Sandra Cinto, entre outros. “Obras assim envolvem mecanismos além da arte. Como vou movimentar uma melancia em pleno ar? É o trabalho de um engenheiro!” Para a exposição Palavra-Coisa, aberta no início de fevereiro na Carbono Galeria, Marton passou três meses trabalhando de perto na execução da obra Water Mater, de Arnaldo Antunes. O que parece um simples painel de acrílico foi motivo de dor de cabeça: “O Arnaldo decidiu usar um motor com redução [para fazer girar uma parte da obra: uma letra W que vira M]. Devido a várias questões mecânicas, a peça faz barulho. Contratamos um profissional de cinema para desenvolver o maquinário”. Ao todo, o designer produzirá para o artista 15 exemplares de Water Mater, cada uma com tempo de produção estimado em até 20 dias úteis após a compra.

Depois de tanto tempo trabalhando com o lado B, Marton se prepara ainda para colocar em cena as próprias obras. “Já tenho todo meu trabalho desenhado no papel. Ele fala sobre como o marketing corrompeu os sistemas, da religião à arte, e como as coisas já não existem sem ele. São obras pesadas, como o papa mostrando o dedo do meio em vez de estar com a mão levantada em sinal a Deus”. A execução fica a cargo de parceiros, segundo ele. “Quando estiver tudo pronto, vou convidar três críticos para ver o que acham.”

A partir de meados deste ano, ele terá suas peças de design vendidas no renomado site 1st Dibs, ao lado de nomes como Paul Evans, Pierre Jeanneret e Finn Juhl. Será uma oportunidade para reviver uma coleção inventada por ele em 2001, Entrelinhas e Híbridos, feita com acrílico colorido. “Nunca ganhei dinheiro com o acrílico colorido, porque a indústria enfrenta muitas dificuldades para executar o projeto. Misturei técnicas das indústrias automotiva, do acrílico e moveleira para criá-lo. Foi um processo de um enorme investimento. Com projeção internacional, quero ter a oportunidade de chegar a um público maior.”

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.

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