Arte

O punk é revisitado em “Cidade em Chamas”

Estreia literária de Garth Risk Hallberg é ótimo thriller de época

por Artur Tavares 7 Set 2016 10:14

cidadeemchamas05092016

É noite de Ano Novo em Nova York. A cidade não tem muito o que comemorar. Os primeiros dias de 1977 serão só a continuação da pobreza em suas áreas periféricas, como Bronx, Long Island, Queens e Hell’s Kitchen. Bairros estão degradados, enquanto incêndios destroem o que sobraram deles. Tudo está sendo reconstruído pelos ricaços que vivem dentro da ilha de Manhattan isolados do caos. As ruas pichadas e sujas estão tomadas de marginais, drogados, homossexuais e os punks.

As 1048 páginas de Cidade em Chamas, estreia literária do norte-americano Garth Risk Hallberg, 37, narram a história de um crime que liga a vida de diversos nova-iorquinos. A garota de 17 anos fã de uma banda qualquer de punk é baleada no Central Park, à meia-noite do primeiro dia de janeiro de 1977. Talvez o gelo acumulado no parque tenha ajudado a salvar a vida de Samantha, que consegue sobreviver, mas permanece em coma.

Será que o Ex Nihilo (ex-Ex Post Facto) é mesmo uma banda qualquer? Havia muito tempo que seu antigo líder, Billy Três-Paus, um viciado em heroína, estava sumido. Até aquela noite, quando apareceu no show que seu antigo grupo faria em um buraco no Bowery, onde a menina tinha passado com seu amigo Charlie, o mesmo garoto que encontrou seu corpo horas depois.

Billy é, na verdade, herdeiro de uma tradicional família nova iorquina, os Hamilton-Sweeney. Quando seu pai casou-se com uma mulher mais jovem, quinze anos antes, William cortou relações com seus parentes e foi embora. Ninguém pareceu se importar que ele estava tão perto aquele tempo todo, em Hell’s Kitchen, pintando quadros, tentando não pensar em voltar a fazer música, cuidando de seu namorado, o professor Mercer Goodman, um negro vindo do sul do país.

Outras pessoas acabam se envolvendo na trama, como a irmã de William, Regan, que está enfrentando um divórcio com seu marido, Keith. Meses antes, a outra herdeira dos Hamilton-Sweeney descobriu que seu companheiro tinha um caso com uma garotinha punk. O centro da família parece desmoronar ainda mais quando seu patriarca é acusado de tráfico de influência para manter contratos e expandir seu poder por Nova York.

Policiais investigam o caso de Samantha, enquanto seu amigo acaba percebendo que os integrantes daquela banda estão contribuindo com os incêndios criminosos nas áreas periféricas da cidade. A reconstrução destas regiões é um dos braços de investimento dos Hamilton-Sweeney agora que a empresa é controlada por Amory Gould, cunhado do pai de William.

Ao construir esta trama introdutória em mais ou menos 150 páginas, Hallberg começa a desenvolver um entrelace com tons de epopeia por uma Nova York degradada pela corrupção, enquanto empresários começam a tomá-la pouco a pouco. O romance é dividido em sete tomos, que narram a história de maneira não-linear. Eles transitam entre uma metrópole prestes a explodir (talvez literalmente?), um idílico passado em 1961, quando os Hamilton-Sweeney ainda não pareciam desmoronar e, por vezes, um futuro que ultrapassa os anos 2000 – além de enormes fluxos de consciência, ensaios jornalísticos, fanzines e um e-mail.

A jornada de William é também a de todos que de alguma maneira foram tocados por ele em sua vida disfuncional. Enquanto os personagens entram em uma espiral de sofrimento, Billy começa a perceber que ele pode ser o próximo a sofrer uma tentativa de assassinato, ou talvez até mesmo toda a sua família. O herói derrotado pelo seu vício precisa se levantar para garantir que isso não aconteça.

Os capítulos, sempre curtos, alternam a vida dos personagens durante os vários períodos da história, que tem clímax na madrugada de 14 de julho de 1977, um dia em que Nova York sofreu um blecaute e uma série de levantes populares reais. Também os interlúdios, impressos em páginas cinzas, são breves. A leitura flui de maneira agradável, e mesmo assim o romance ainda consegue trazer análises profundas ao leitor. Os ganchos utilizados por Hallberg funcionam, e a história tem uma conclusão satisfatória. Outro ponto notável é que o mistério por trás da tentativa de assassinato de Samantha, o ponto que liga a vida de todos, é difícil de solucionar, intrigando ainda mais o leitor.

A Companhia das Letras acertou em trazer Cidade em Chamas tão rápido para o Brasil. O livro saiu lá fora em outubro de 2015, enquanto a versão brasileira estava nas livrarias já no primeiro trimestre de 2016. O trabalho gráfico está impecável, com uma capa de fogos metálicos brilhantes sob os céus de uma das metrópoles mais emblemáticas do planeta. Para saber mais sobre o livro, acesse o site oficial da editora, clicando aqui.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.