Arte

A arte do diálogo

Sam Bardaouil e Tim Fellrath, curadores do prêmio Montblanc de Cultura, falam à Carbono Uomo sobre o impacto social da arte em tempos de intolerância.

23 Set 2018 21:02

Horas antes de subirem ao palco do Auditório Ibirapuera, em São Paulo, onde entregariam o Prêmio Montblanc de Cultura 2018 à Mônica Nador (leia mais à seguir), os curadores do prêmio – Sam Bardaouil e Till Fellrath – receberam Carbono Uomo no lobby do hotel Unique para um rápido, porém, profundo papo sobre o poder transformador da arte. Apesar do jetlag (dois dias antes, ambos estavam em Abu Dhabi conduzindo a edição local do evento), tanto o alemão Till, quando o libanês Sam esbanjavam descontração e intensa paixão pelo trabalho.
O impacto da arte nas sociedades, sobretudo as menos assistidas, é real. Encoraja pessoas, empodera comunidades. Till foi preciso ao afirmar que “a arte promove a empatia e favorece o diálogo”. Sam foi incisivo em sua análise da tragédia que destruira, dias antes,  o Museu Nacional, no Rio. “A sociedade é vítima mas também responsável pelo que aconteceu”, disparou.
Sobre o prêmio, criado em 1992 para apoiar não o artista, mas o patrono, ambos são entusiastas. Pudera, desde a sua criação, mais de 250 projetos foram contemplados e 5 milhões de euros já foram distribuídos no mundo para pessoas, instituições e organizações que, conforme critérios bem definidos pelos curadores, desenvolvem com brilhantismo a promoção da arte. Neste ano, 17 países sediaram as suas edições do prêmio. O Brasil está em sua terceira participação. A vencedora do ano foi Mônica Nador, criadora do JAMAC (Jardim Miriam Arte Clube), que promove oficinas, eventos e debates culturais em áreas carentes de São Paulo. À ela, o prêmio de 15 mil euros e uma caneta Montblanc Patrono das Artes, edição em homenagem ao Rei Ludwig II, ambos entregues pelo novo diretor da marca no País, Michel Cheval.
Acompanhe à seguir nossa conversa com os curadores Sam Bardaouil e Till Fellrath.

 

Carbono Uomo – Não tem como começar com vocês sem perguntar sobre o incêndio no Museu Nacional do Rio (ocorrido dias antes). Que avaliação fazem do episódio?
Sam Bardaouil – Sem dúvida que foi uma tragédia, mas depende para quem: para o governo, para as pessoas, para o mundo das artes, para o acervo que foi destruído… E minha resposta é que foi uma tragédia de todos. Todos são vítimas e responsáveis. Uma tragédia de toda a sociedade, porque todo mundo sabe que pode fazer algo para apoiar uma instituição cultural. Às vezes, isso deve ser mais do que apenas pagar o ticket de entrada.
Till Fellrath – Eu penso que é uma tragédia gigante. Por acaso, eu estive no Rio no ano passado e visitei aquele museu e vi o enorme potencial do que foi perdido. A história de um país e das pessoas que o fizeram chegar até aqui, tudo foi deletado. Pensando no futuro, talvez a sociedade perceba o que significa a perda e isso seja um gatilho para que as pessoas percebam o valor de coleções como aquela, da arte e da cultura, e, de um jeito positivo, engajar as pessoas para um melhor tratamento aqueles objetos e a cultura como um todo.

 

Carbono Uomo – De fato, uma perda irreparável…
Sam – Sim, mas sendo ainda mais filosófico, quando você olha um objeto queimando e pensa que o perderá para sempre, realmente é duro! Mas olhar o mesmo objeto pegando poeira por 20 anos em um museu sem que ninguém cuide dele adequadamente também é uma perda! São duas maneiras de ver e desejar que algo volte a ter vida.
Till – Minha origem é alemã e estamos acostumados, por tudo o que vivemos, a ver objetos de arte e arquitetura destruídos. São perdas que temos para sempre e não se pode superar. O que se tem a fazer é viver com isso e aprender a ver como podemos agir no futuro.

 

Carbono Uomo – Falando sobre algo mais leve… qual a relevância do prêmio da Montblanc na arte mundial.
Sam – É um dos programas mais importantes, único e pioneiro porque vai além e busca mundo afora as pessoas e instituições que estão fazendo o possível para promover a arte. Tem um aspecto global, que busca mostrar e apoiar iniciativas que vão além da Europa e América do Norte. E isso nos oferece um outro exemplo de como instigar a mudança e criar impacto sobre o mundo da arte. E é por isso que o Brasil se tornou um lugar importante para nós, assim como o Chile e a Colômbia. É importante mostrar e aprender com estes modelos, às vezes mais dinâmicos e excitantes do que o jeito original de se promover a arte no Velho Mundo.

 

Carbono Uomo – Como são definidos os competidores?
Sam – O que fazemos é ouvir as pessoas locais e, por isso, desenvolvemos o sistema de indicações onde cada país participante nos entrega três ou quatro nomeações. Elas são avaliadas por todos e decidimos em conjunto. E quem melhor poderia conhecer o que é feito de mais relevante em cada país do que curadores, diretores de museus e críticos de arte locais?
Till – Eu acho que o mais importante é que eles sentem a necessidade da sociedade local, e de outro jeito isso não aconteceria. E é um forte argumento a inclusão global. As empresas são globais e a fundação está se tornando assim também em sua abordagem. E foi muito importante para nós estabelecer este prêmio no Brasil – e Juliana (Pereira, gerente de marketing da Montblanc para o Brasil) foi fantástica e nos apoiou muito, de forma ativa.

 

Carbono Uomo – O Prêmio Montblanc de la Culture Arts Patronage é realizado em 17 países. Como é recebido por culturas tão diferentes?
Till – Nós já apoiamos organizações na América Latina, começamos no Chile este ano, estamos nos organizando para chegar ao sudeste asiático e África. Isso reflete como este prêmio impacta na sociedade, no modo politico e sociológico, empoderando as pessoas e encorajando-as não apenas como indivíduos, mas como o sentimento de sociedade.
Este impacto social do prêmio também é sentido de maneiras diferentes em cada país. Na Alemanha, por exemplo, onde já há muito suporte do governo, é diferente do impacto em países como o Brasil. E mesmo lá há questões como a imigração e a arte pode ajudar a encontrar caminhos de como agiremos com isso no futuro.

 

Carbono Uomo – Como este impacto se traduz na sociedade atual?
Till – Algo que a arte pode ensinar à você é a empatia, a aceitar outros pontos de vista e ouvir os sentimentos diferentes de outras pessoas. Então, o que as organizações sem fins lucrativos podem fazer é dar força a este jeito de pensar, habilitar as pessoas a ouvir primeiro antes de começar a falar. Isso é muito importante em nossa sociedade atual: ninguém ouve ninguém, não se busca mais o diálogo. E a arte, como a música, mudam isso e fazem as pessoas dividirem juntos a experiência.

 

 

Veja mais