Arte

Jean-François Rauzier em exposição

Centro Cultural São Paulo inaugura exposição do fotógrafo francês

28 Fev 2018 14:00

Pintura ou fotografia? Real ou virtual? As obras do francês Jean-François Rauzier costumam despertar esse tipo de dúvida no observador. A resposta não é única. Em seu trabalho, o artista mescla fotografia e manipulação digital para criar novas imagens, de tons surrealistas. Suas obras coloridas, ricas em detalhes, poderão ser conferidas na mostra Hiperfoto – Brasil que o Centro Cultural São Paulo (CCSP) recebe a partir de 15 de março.

Com curadoria de Marc Pottier e idealização de Bertrand Dussauge, o projeto chega à capital paulista depois de ter passado pelas cidades do Rio de Janeiro, Brasília e Salvador. A edição de São Paulo apresentará ao público cerca de 100 trabalhos, entre hiperfotos e hipervídeos – parte deles ainda inéditos, recriações de uma série de espaços da cidade. A mostra é parte de uma iniciativa que o artista desenvolve em diversas metrópoles do globo desde 2002, quando começou a desenvolver suas primeiras hiperfotos.

Frustrado com as limitações técnicas da fotografia e inspirado por Polaroid, de David Hockney, Rauzier encontrou na digitalização da prática um universo de possibilidades. Com sua máquina a tiracolo, ele roda o mundo em busca das particularidades do patrimônio mundial, fotografando de monumentos históricos a detalhes que poucos enxergam. Em apenas um dia de trabalho, dispara até dez mil cliques, numa ânsia por retratar todos os ângulos possíveis do local.

De volta ao seu estúdio, o artista dá início a um exaustivo processo de colagens, combinando as imagens umas às outras. Os trabalhos, que também contam com inserções de efeitos visuais, lembram composições cubistas, com inúmeros fragmentos de paisagens. A técnica foi batizada como hiperfotografia, em referência ao termo hiper-realismo adotado pelo psicanalista francês Jacques Lacan, para quem a realidade humana é constituída pela articulação do real, do simbólico e do imaginário.

O curador da mostra destaca o caráter híbrido, quase fantástico, das obras de Rauzier: “A palavra intensidade se adéqua perfeitamente a seus trabalhos. Suas fotografias, impressas em formatos enormes, intensificam o mundo sobre o qual ele lança seu olhar, criando uma espécie de casamento entre o macro e o micro, o virtual e o real. Desta maneira, ele nos mostra uma versão original e excepcional das cidades, das paisagens e dos assuntos que aborda”, afirma Marc Pottier.

O panorama de um país
Nos últimos quatro anos, o artista francês tomou o Brasil como protagonista de seus trabalhos. Neste período, registrou a exuberância do Rio de Janeiro, o sincretismo de Salvador e a arquitetura imponente de Brasília. Na última fase de seu projeto no País, Rauzier decidiu apontar suas lentes para São Paulo, retratando a arquitetura, o cotidiano e as contradições da megalópole.

Em Veduta SP1, por exemplo, o artista reúne centenas de casas clássicas e edifícios modernistas da capital. Em uma única imagem, o espectador tem uma visão panorâmica da arquitetura paulistana, onde a Igreja da Sé, o Masp e o Auditório do Ibirapuera se fundem a casarões dos séculos passados. Já em Veduta SP2, Rauzier apresenta milhares de espigões da cidade, registros do fotógrafo realizados a bordo de um helicóptero Helibras. Juntos, os trabalhos revelam “a memória do patrimônio de uma cidade inteira, em um grande formato”, pontua o artista.

Em suas caminhadas, o fotógrafo construiu um olhar bastante particular sobre a capital e seus contrastes. “Sem dúvida nenhuma, São Paulo é a metrópole latino-americana que mais se aproxima de Nova York, se dividindo em dois estilos arquitetônicos bastante distintos: se por um lado temos casas e mansões construídas desde o século XIX, do outro, encontramos edifícios monumentais no estilo concretista do pós-guerra”, pontua o Rauzier, chamando atenção para a intensa verticalização que os bairros têm experimentado nos últimos anos.

O fotógrafo recompôs também a Passagem Literária, espaço subterrâneo sob a rua da Consolação que reúne sebos de livros, exposições e, eventualmente, recebe apresentações musicais. O caráter underground do local impressionou o artista, que decidiu retratá-lo em diversos cliques. Os livros e cartazes, representados em perspectivas distintas, formam um grande mosaico colorido.

Grande marca de São Paulo, a arte urbana também chamou a atenção do francês, para quem o grafite é o principal termômetro de uma democracia e da relação da juventude com a própria cidade. A seu ver, a maneira como se expressam sobre os muros diz muito sobre seus sonhos.

A mostra traz ainda um conjunto de hipervídeos que, em formato audiovisual, reproduzem o mesmo efeito das fotografias. Inúmeros fragmentos do cotidiano de São Paulo são combinados e multiplicados, revelando ao expectador a vitalidade daquela que é tida como a mais influente cidade da América Latina. Em um dos vídeos, por exemplo, o artista imortaliza os grafites da Avenida 23 de Maio, apagados em 2017 pela Prefeitura e recentemente substituídos por jardins verticais.

Hiperfoto – Brasil encerra o projeto iniciado por Rauzier em 2015, reunindo não apenas obras inéditas que retratam São Paulo, mas também amostras do trabalho apresentado nas outras três capitais do País por onde o fotógrafo passou. A exposição, que segue em cartaz até 6 de maio, traz ao público um registro documental do Brasil do século XXI. Mais do que isso, vislumbra a construção de cidades utópicas e oníricas, onde o belo prevalece.

Hiperfoto – São Paulo, individual de Jean-François Rauzier
Centro Cultural São Paulo – Rua Vergueiro, 1000
Abertura: 15 de março, a partir das 18h
Período expositivo: de 16 de março a 6 de maio
Visitação: Terça a sexta, das 10h às 20h | Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h
Telefone: (11) 3397-4002