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Do bem

Fundador da ONG TUCCA, Dr. Sidnei Epelman reflete sobre a importância cultural e da ciência em plena crise de Coronavírus. Aos detalhes!

25 Fev 2020 14:05

Carbono conversou com o Dr. Sidnei Epelman, Diretor do Departamento de Oncologia Pediátrica do Hospital Santa Marcelina e presidente fundador da Associação TUCCA, que desde 1998 ajuda crianças a enfrentar o câncer infantil. Com diversas atividades criadas ao longo dessas mais de duas décadas, entre elas o projeto Música Pela Cura e Chef Pela Cura, a ONG ultrapassou os limites da saúde e passou a integrar um cotidiano artístico que faz parte da efervescente cidade de São Paulo.

Dr. Sidnei Epelman

 

Com concertos que esgotam após os anúncios oficiais serem feitos, em 2020 prestes a grade oficial ser oficialmente aberta, o revés da pandemia coronavírus deixou tudo em suspenso, inclusive as atividades diárias do ambulatória da TUCCA em Itaquera. Porém, o tratamento diário permanece o mesmo, talvez até maior. “O câncer não espera a pandemia passar, precisamos continuar tratando os pacientes e temos que fazer diferente, criando novas estratégias para driblar esse momento”, conta Sidnei, que com anos de experiência em oncologia pediátrica, acredita que saíremos mais fortes dessa pandemia. “Daqui para frente fica a reflexão que temos sobre a importância da saúde e investimentos nesta área que precisa sempre de atenção”, entrega. O papo completo você lê a seguir.

 

CARBONO UOMO >> Você foi visionário quando em 1998 fundou a TUCCA, fazendo com que os espetáculos da Música pela Cura [projeto lançado em 2000] trouxessem visibilidade e investimentos para a manutenção do ambulatório e despesas de saúde. Nesse novo cenário que temos hoje, qual artificio devemos aprender para acompanhar as evoluções culturais que o mundo vai passar depois da pandemia?
DR. SIDNEI EPELMAN >> Do meu ponto de vista, como oncologista pedriátrico, prefiro dizer o que nós aprendemos para poder superar tudo isso. Com a pandemia nossos projetos e todas as arrecadações diminuíram, claro, mas o atendimento continua e o câncer não espera a pandemia passar, precisamos continuar tratando os pacientes e temos que fazer diferente, criando novas estratégias para driblar esse momento. E a hora que tudo voltar ao normal, ou for liberado, voltamos com nossos projetos, programações culturais e eventos. Nosso foco agora é trabalhar nossas redes sociais para tentar driblar essa situação. As pessoas esquecem que existem outras doenças além do coronavírus.

 

CARBONO UOMO >> Como a TUCCA está se projetando nas redes sociais a partir dessa nova necessidade de estar presente?
DR. SIDNEI EPELMAN >> Criamos uma nova campanha especial para esse momento, porque é o que falei antes, o câncer não espera. E projetamos todos nossos esforços para doações por conta de grandes projetos como o Música Pela Cura, Aprendiz de Maestro estarem em suspenso e não temos como captar por aí. O que trabalhamos agora com mais força e é a continuidade das doações, por enquanto não temos outro caminho.

Claudia e Sidnei Epelman assistindo a um concerto da TUCCA do projeto Música Pela Cura na Sala São Paulo

 

CARBONO UOMO >> Existe alguma previsão de retorno das atividades culturais da TUCCA?
DR. SIDNEI EPELMAN >> Não. O que está acontecendo é uma incógnita para todo mundo ainda. A prefeitura pode até liberar a Sala São Paulo, por exemplo, mas não é necessariamente só a liberação, existem outros detalhes em jogo. Acredito que antes do segundo semestre nós não devemos voltar, como aparentemente o mundo todo. Acredito que haverá um processo de voltar às ruas, uma recessão econômica… Não será tão simples assim.

 

CARBONO UOMO >> Me conte sobre o Dr Sidnei Epelman de hoje? Os desafios mudaram? Como avalia o que criou 22 anos depois? [A TUCCA – Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer foi fundada em 1998]
DR. SIDNEI EPELMAN >> Tudo mudou! Tudo cresceu de uma forma que não imaginaria e ao longo desses anos todos desenvolvemos ações e projetos para cuidar dessas crianças e adolescentes. Seja em forma de prover acesso a drogas de alto custo para tratamentos específicos ou a criação dos Hospice Francesco Leonardo Beira, espaço , que trata apenas de forma paliativa pacientes em fase terminal; até darmos a melhor chance de cura para aquela criança que nos procura. Esse é nosso maior desafio!

A cantora norte-americana Lizz Wright e sua banda estão na programação de concerto internacionais da TUCCA de 2020. Caso a programação do segundo semestre não seja afetada, Lizz deve se apresentar em São Paulo no dia 8 de dezembro

 

CARBONO UOMO >> O projeto Chef pela Cura tem como principal objetivo aproximar as famílias em reuniões semanais em torno da mesa, por assim dizer. Chefs renomados já passaram pelo ambulatório e essa rotina é recebida calorosamente por todos que estão ali. Quam a importância desse projeto? Sabemos que há também um desdobramento anual – o Jantar Chefs pela Cura, uma noite de alta gastronomia e solidariedade que ganhou sua 5º edição ano passado no JK Iguatemi tendo como um dos chefs o Rodrigo Oliveira, do Mocotó. Como surgiu a ideia de levar essa experiência para além do ambulatório?
DR. SIDNEI EPELMAN >> A ideia surgiu de um jantar que dei na minha casa há mais de dez anos e alguns chefs falaram que queriam nos ajudar de alguma forma, foi aí que levamos essa ideia para dentro do ambulatório onde as mães que acompanham seus filhos no tratamento estão lá, muitas vezes sem fazer nada, então porque não darmos a ela uma aula de culinária? Isso foi crescendo – no começo era um chef só, depois outros vieram e abrimos para grandes chefs da cidade de São Paulo e mais de 300 já passaram por lá. E transformamos essa ação no Jantar Chefs pela Cura, sempre com chefs que já foram ao ambulatório. Esse viés da gastonomia é muito importante para nossa arrecadação. Já passaram por lá também Rodolfo de Santis (Nino Cucina) e Salvatore Loi (Salvatore Loi).

Chef Rodrigo Oliveira dá aula no Projeto Chef pela Cura do TUCCA

 

CARBONO UOMO >> Como ajudar o Hospital Santa Marcelina e consequentemente a TUCCA? (As formas de doação, voluntariado…?)
DR. SIDNEI EPELMAN >> Agora com a pandemia, antes e depois dela precisamos de doações de insumos, máscaras e voluntários. E depois que passarmos por tudo isso, claro, engajarmos na causa da TUCCA e colaborar através de doações, estar presente em nossos eventos, precisamos de mais mãos.

 

CARBONO UOMO >> Como o pensamento científico e o investimento em pesquisa pode salvar diagnósticos?
DR. SIDNEI EPELMAN >> Quando há esse tipo de investimento nós curamos muito mais e salvamos muito mais porque entendemos muito mais as particularidades de uma doença. Investir em pesquisa e tratamentos, novos medicamentos foi fundamental para o crescimento e relevância da TUCCA, que conseguiu aprender nessa nova forma de curar. É muito simples, para melhorarmos precisamos mirar esses investimentos em pesquia, não tem discussão.

Filha do ícone do jazz Nina Simone, Lisa abriu a temporada da série Concertos Internacionais do projeto “Música Pela Cura “ da TUCCA em 2016

CARBONO UOMO >> Empreender é resistir. O que podemos aprender sobre resistencia e a pandemia que vivemos?
DR. SIDNEI EPELMAN >> Eu acho o momento pede que todos possam se proteger e fazer o que dá, aprendendo que há bons ensinamentos em momentos como esse. Que a gente possa utilizar toda essa experiência para evoluirmos e olhar com mais atenção ao valor da vida. O que aconteceu é que todos se sentiram ameaçados [com a pandemia de Covid-19], diferente quando uma doença como o câncer e a gente acha que estaremos fora desse problema, né? Agora todos se acham vulneráveis ao coronavírus e é uma verdade, então fica a reflexão que temos sobre a importância da saúde e investimentos nesta área que precisa sempre de atenção.

 

Para ter acesso a programação 2020 da série de concertos internacionais da TUCCA basta clicar aqui. E vale lembrar que doações também são bem-vindas e para ajudar a ONG neste link aqui você saberá como. Causa nobre!