Arte

Dançar conforme a música

Parceiros na vida e no trabalho, a brasileira Bárbara Wagner e o alemão Benjamin de Burca ganham destaque na cena artística com um trabalho visual voltado à pesquisa de ritmos

4 Abr 2018 12:05

Por Julia Flamingo

Para além do gosto pela batida e melodia, a música pode revelar muitas informações de um grupo e um jeito de viver. Ela também esbarra em questões de consumo, tecnologia, sonhos e valores. Basta lembrar do clipe de Anitta Vai Malandra: sendo a sua praia ou não, é inegável que traz discussões sobre temas como a beleza real e o empoderamento feminino.

Manifestações artísticas do tipo são um prato cheio para a recifense Bárbara Wagner, 37 anos, e o alemão Benjamin de Burca, 43, dupla de artistas visuais que sai pelo Brasil (e agora pelo mundo) para investigar e registrar em vídeo as mais diversas cenas musicais. Caboclinho, maracatu, passinho, gospel, frevo, brega, tudo interessa – o negócio dos dois é dançar conforme a música. “Queremos mostrar quem são os jovens artistas dos centros urbanos que produzem músicas, clipes e movimentos. Eles integram a cultura popular brasileira e formam mercados gigantescos”, diz Bárbara.

Ela e Benjamin foram apresentados em Berlim em 2010 e, em 2012, se casaram. Um ano depois, numa temporada no Brasil, fizeram um test-drive profissional: “Eu queria publicar um livro sobre esculturas públicas do Recife e a Bárbara me ajudava nas entrevistas. À noite, fotografávamos as pessoas nas boates dançando o brega. Assim tudo começou”, conta Benjamin. Foi a partir daí que surgiu o vídeo Estás Vendo Coisas, sobre a indústria da música brega na capital pernambucana. O trabalho fez a dupla estourar em 2016. Apresentada na 32ª Bienal de São Paulo, a videoarte mostrava cenas da vida de dois protagonistas da boate Planeta Show: Dayana Paixão, bombeira durante o dia e cantora à noite, e MC Porck, cabeleireiro e cantor. O trabalho chamou atenção de museus, curadores e veículos: “No Brasil, encaramos a arte de um jeito esquizofrênico, porque gostamos do que está no museu, do que é belo e eurocentrado. Não conhecemos de verdade a nossa cultura popular atual. O vídeo fez as pessoas enfrentarem seus próprios preconceitos”, observa Bárbara.

A repercussão garantiu uma vaga no grupo de 35 projetos comissionados para o Skulptur Projekte, em Münster. O evento acontece apenas uma vez a cada década e, em 2017, espalhou instalações públicas pela cidade do oeste alemão, ao mesmo tempo em que Veneza recebia sua 57ª Bienal, e Atenas e Kassel abriam a Documenta 14. Os artistas criaram uma gigantesca instalação: o trabalho Bye Bye Deutschland, que mostra a indústria do schlager – música pop sentimental e kitsch alemã – e foi apresentado dentro da Elefant Lounge. “Decidimos fazer um vídeo que comenta a réplica e o fake, já que a cidade de Münster foi reconstruída depois da guerra e o schlager surgiu para criar a identidade do povo”, acrescenta.

De volta ao Brasil, a dupla concluiu o ano marcando presença em três grandes eventos: o filme Terremoto Santo fez parte da exposição inaugural do Instituto Moreira Salles, na Avenida Paulista; Faz que Vai foi um dos premiados na 20ª edição do Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, no Sesc Pompeia; Como Se Fosse Verdade integrou o 35° Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna (MAM). Para o primeiro, eles firmaram parceria com uma gravadora de música gospel na cidadezinha pernambucana de Palmares. “A gravadora produz vídeos religiosos para o YouTube e torna isso uma verdadeira potência na região”, relata Bárbara. O resultado é um vídeo em que cantores protagonizam videoclipes pitorescos em meio a cenários artificiais. Faz que Vai traz dançarinos de frevo nos dias atuais, e foi escolhido para exibir a mistura do estilo com outros ritmos.

Já a instalação Como Se Fosse Verdade é uma série de retratos de anônimos feita com imagens inspiradas nas capas de disco de música popular. Para isso, a dupla montou um estúdio móvel durante uma semana no terminal de ônibus Cidade Tiradentes, em São Paulo. Algumas pessoas eram abordadas para responder a um questionário e tirar uma foto. “Foi o trabalho que mais gostei de fazer”, admite Bárbara, que acaba de vencer o Prêmio Pipa, uma das mais respeitadas condecorações no cenário das artes plásticas nacional. “Não me interesso por arte se não for desse jeito, na rua e em contato com as pessoas.”

Atualmente, os dois trabalham em seu próximo projeto, uma pesquisa iniciada em Toronto sobre spoken word, em que jovens poetas se reúnem em centros comunitários para fazer batalhas de palavras.

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