Arte

Da arte de se aposentar com segurança

Por que Fabio Luchetti, CEO da Porto Seguro, decidiu abrir uma galeria em São Paulo

17 Jan 2018 12:43

Por Daniel Salles

O paulistano Fabio Luchetti odeia ser pego desprevenido. Talvez seja pré-requisito do cargo que ele ocupa, CEO de uma das maiores seguradoras do país, a Porto Seguro. Ele dá expediente na empresa desde 1984, quando tinha 18 anos, e está no comando desde 2012, quando deixou a vice-presidência executiva da companhia. Levado por um tio-avô corretor de seguros, começou como office boy. Hoje é o mandachuva de um conglomerado que se divide entre 25 empresas e fechou o ano passado com um lucro líquido de R$ 923 milhões. Está com 52 anos. E porque é precavido como poucos, já tem sua aposentadoria definida em detalhes.

Não é que o executivo já determinou a data para entregar sua cobiçada cadeira, mas não esconde pensar nisso. “Calculo que isso possa ocorrer entre cinco e sete anos”, despista ele, apontado pela revista Forbes como um dos 25 melhores CEOs do Brasil em 2017. O que fará quando deixar a Porto Seguro, no entanto, também não é segredo: dedicar 100% do tempo à Adelina Galeria, aberta por ele em abril deste ano. “A maioria das pessoas espera se aposentar para começar a pensar no que fará em seguida. Ou para começar a apostar em um novo negócio, que só dará retorno a médio ou longo prazo. Não faz sentido”, diz Luchetti.

A Adelina ocupa um edifício de três andares e 450 metros quadrados no bairro de Perdizes, em São Paulo. O primeiro é reservado a exposições e o terceiro, a cursos e oficinas – no do meio fica o administrativo. Um prédio anexo, de 250 metros quadrados, com direito a uma cafeteria, está em fase inicial de construção e deverá ficar pronto em meados do primeiro semestre de 2018. “Quero um espaço com atividades e convidativo como um museu, no qual quem não entende muito de arte também se sente acolhido”, diz o CEO da Porto, responsável pelo enorme espaço cultural que a seguradora abriu no ano passado no centro paulistano. “Não quero receber apenas os colecionadores e os entendidos.”

O investimento total na galeria, batizada com o nome da mãe dele, será de R$ 3 milhões, que Luchetti pretende reaver em cinco anos. O negócio engloba quatro ateliês, do outro lado da rua, que serão ofertados aos artistas da casa e, futuramente, a jovens bolsistas. Um apartamento de três quartos, localizado a uma quadra, será destinado a residências artísticas. Da lista de 11 artistas representados pela Adelina, em geral na faixa dos 35 anos e não tão conhecidos do grande público, fazem parte a paranaense Erica Kaminishi e o gaúcho Marcelo Armani.

A vontade de trabalhar com arte começou a ser esboçada quando Luchetti deu início à sua coleção. Formada a princípio para decorar uma nova residência, ela soma hoje 35 trabalhos de artistas contemporâneos como o escultor mineiro Fernando Cardoso e o pintor paulista Kenji Fukuda. “Não demorei para perceber que só comprava uma obra depois de entender a fundo a história dos artistas e que queria estar próximo deles”, diz o executivo. Para se aprofundar nesse universo, ele se matriculou no curso de pós-graduação em museologia, curadoria e colecionismo da Belas Artes – entregou o TCC em julho.

Enquanto não se converte em galerista em tempo integral, Luchetti continua a dedicar a maior parte de suas horas aos desafios nada abstratos da seguradora. Um dos mais comentados é o posicionamento diante dos carros autônomos, que prometem diminuir drasticamente o número de colisões e, portanto, os valores das apólices – estima- se que 3,5 milhões de veículos que se dirigem sozinhos estarão rodando por aí até 2025. “Eles vão diminuir muito as colisões, mas não resolvem questões sociais como o número de roubos e furtos”, avalia o CEO, para quem o mercado de seguros no país ainda tem muito potencial. “Só um terço da frota circulante do país é segurada e apenas 10% da população faz seguros de vida ou residencial.”

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