Arte

Coming of Age

Ao lançar seu projeto musical Cinnamon Tapes, a paulistana Susan Souza transformou as dores de sua juventude em um espaço de renascimento. E tudo acompanhada por Steve Shelley, ex-baterista do Sonic Youth

6 Mar 2018 10:21

O cenário da música paulistana independente se alvoroça aos poucos com a história de uma garota que conseguiu um feito que parece impossível a iniciantes: gravar seu primeiro disco com a produção de Steve Shelley, ex-baterista do Sonic Youth. Para os fãs de um bom storytelling, a trajetória do Cinnamon Tapes, projeto encabeçado por Susan Souza, bastaria. Mas não é só isso. Aos 33 anos, ela venceu suas angústias de juventude enquanto entrou em um processo de renascimento, graças a composições emotivas, de letras bastante pessoais.

Jornalista de formação, atriz e dançarina de flamenco por paixão e musicista por impulso da alma, Susan começou a tocar violão ainda aos 10 anos. Na adolescência, viciada na MTV, conheceu astros que ajudaram a redefinir sua vida: Kurt Cobain, Billy Corgan, do Smashing Pumpkins, e Gavin Rossdale, seu guilty pleasure e líder do Bush. Com as bandas femininas L7 e Bikini Kill, percebeu o poder que uma mulher tinha ao empunhar uma guitarra. Foi um caminho sem volta. Na época, morava com a família na cidade de Jundiaí: “O que as pessoas no interior ouvem mais? Sertanejo ou metal. As meninas do colégio não estavam interessadas em tocar guitarra, a paixão não era algo que eu compartilhava com meus amigos e, sim, uma coisa minha”, conta.

De volta à sua cidade natal, na época da faculdade, encontrou amigos que compartilhavam sua paixão. Montou bandas, uma delas com Pablo Miyazawa, ex-editor-chefe da revista Rolling Stone Brasil, até que decidiu seguir carreira solo. Shelley foi um sonho alto, depois de se decepcionar com tentativas de produzir com brasileiros: “Nos momentos em que tentei trabalhar meu disco por aqui, as pessoas envolvidas modificavam um pouco minha proposta, e eu sou teimosa. Em 2015, estava tomando gim-tônica com um amigo no Mandíbula e surgiu a ideia. Arrisquei no vislumbre, e escrevemos a mensagem pelo meu Instagram. Foi um inbox bem sonhador, o princípio número um de uma pessoa que faz uma música e quer que alguém ouça. ‘Oi, Steve, gosto muito do seu trabalho, você pode ouvir minha demo?’”.

Shelley se comoveu com a garota que entoava versos como “era pra ser tão fácil” e “é difícil ser cristal quando a sombra mora dentro de você” e topou o projeto na hora. Com sua Fender Mustang nas costas – a mesma guitarra de Cobain – Susan voou para Nova York em abril de 2016 para sua primeira sessão de gravação. Dela, saíram cinco das nove músicas que compõem Nabia. As outras quatro foram produzidas entre janeiro e fevereiro deste ano, quando o norte-americano esteve por aqui e quando ela voltou para o estúdio de Hoboken, o mesmo em que o Sonic gravou seus últimos álbuns: “Eu acabei criando essa personagem, Nabia, que fala por mim. Ela canta e toca, esta lá agora. Tem esse figurino cênico, mas são minhas dores e experiências, meus traumas e meu processo de recuperação de momentos horríveis. As músicas falam muito sobre mim”.

A cantora acredita que seu début não é triste apenas por falar sobre dor: “Se olhamos pelo viés da recuperação que vem pela arte, pela transmutação, é uma metáfora para renascimento”. Nabia é o início de uma trilogia de personagens mulheres que Susan vai encarnar nos próximos anos: “Faria muito sentido se a próxima fosse muito brasileira e, por fim, uma gitana, uma homenagem à minha paixão pelo flamenco. No próximo álbum, quero explorar instrumentos do interior do Brasil, uma sonoridade mais folclórica nossa”. Sem Shelley para acompanhá-la, ela seguirá em turnê pelo Brasil em 2018 explorando diversos formatos: um power trio composto apenas de mulheres, como no show de lançamento que fez em outubro passado no Estúdio Lâmina, ou completamente solo, como em apresentação no Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

Os discos favoritos de Susan

Paco de Lucía – Fuente y Caudal (1973)
Ainda que minha música não soe flamenca, eu me inspiro muito na profundidade do sentimento gitano quando componho. Para mim, este álbum traz a genialidade do Paco de uma forma muito pura e majestosa. Energias ancestrais mexem com minha alma toda vez que ouço esse disco, especialmente a faixa “Cepa Andaluza”. Ela me transporta para o sul da Espanha como se eu tivesse deixado algo de outra vida por lá.

PJ Harvey – Rid of Me (1993)
PJ Harvey é uma das minhas maiores influências entre as compositoras de rock. O Rid of Me me inspirou muito na vida, ouvi esse disco compulsivamente na adolescência e volto sempre que dá vontade. A voz dela está muito forte e empoderada, as guitarras são altas, às vezes sujas, mas sem deixar a influência do grunge impregnar. Ela conseguiu cravar uma assinatura musical própria que admiro demais.

Nara Leão – 10 Anos Depois (1971)
Nara foi a cantora que mais me inspirou em técnica vocal. Sempre admirei a sutileza do canto dela por ser sem efeitos, cristalino, aveludado e gentil, eu me identifico com isso. Fiquei bem contente quando consegui encontrar este disco em vinil por um preço possível, já que ele é um pouco raro de achar. É um desses discos que, quando ouço, parece que estou sendo abraçada. Nara sempre me enche de paz.

Os melhores discos de 2017 na opinião de Susan

Rimas & Melodias – Rimas & Melodias
As sete mulheres que formam o grupo já são indispensáveis à música brasileira: Mayra Maldjian, Tássia Reis, Stefanie, Tatiana Bispo, Karol de Souza, Alt Niss e Drik Barbosa. Elas unem rap, R&B, neo soul e feminismo de uma forma muito inteligente, única, poderosa e necessária. Os shows são muito vibrantes, e o primeiro disco é fundamental pelo discurso inspirador e pela produção musical impecável.

Slowdive – Slowdive
Ver a volta do Slowdive ao estúdio depois de 22 anos sem lançar nenhum single é notável. O som deles também é uma referência para mim, gosto muito da Rachel Goswell (vocalista e guitarrista) e de toda a cena shoegaze de que eles fizeram parte. O disco novo mantém a estética que os consagrou, mas sem parecer congelado no tempo, existe frescor. Minhas favoritas são “Sugar For The Pill” e “Don’t Know Why”.

Tim Bernardes – Recomeçar
Conhecido pelo trabalho com o grupo O Terno, Tim Bernardes fez um disco solo realmente bonito, achei muito honesto. As composições são superdelicadas, têm aquela melancolia boa que eu gosto de apreciar. Fiquei encantada com a tristeza dos versos e a construção dos arranjos, é tudo de muito bom gosto. Sempre me identifico com quem expurga os fantasmas em canções, e este disco é um belo exemplo disso.

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