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Zwinger e Residenzschloss em Dresden

O palácio dos príncipes saxões com uma das mais belas coleções do mundo

por Shoichi Iwashita 23 Ago 2017 13:20

Diferentemente de outros palácios, geralmente isolados, o Palácio Real do que foi de 1356 a 1806 o Eleitorado da Saxônia (um dos estados parte do Sacro Império Romano Germânico) e até 1918 o Reino da Saxônia, não tem quilômetros e quilômetros de jardins com altos muros em sua volta (palácios típicos do século 18), mas está interessantemente integrado ao contexto urbano, bem no centro da cidade de Dresden. E o mais impressionante — além da coleção absurda de joias, roupas, espadas e armaduras tão ricamente decoradas que mais lembram o carnaval que as guerras medievais; o Residenzschloss era um dos mais magníficos e importantes palácios na Europa do século 18 — é que, apesar de todas as reviravoltas da História (pense em feudalismo-monarquia, república, nazismo, Segunda Guerra Mundial, capitalismo, socialismo — Dresden era parte da Alemanha Oriental, subordinada à Moscou), as coleções de Augusto, o Forte, estão quase que inteiramente intactas e reunidas, sendo que as mais importantes peças ocupam hoje EXATAMENTE OS MESMOS lugares onde estavam em 1729, quando o Eleitor da Saxônia — e também Rei da Polônia e Grão-Duque da Lituânia — abriu as portas de algumas salas para o público num projeto de museu extremamente moderno para a época. Raras coleções tão antigas gozam deste privilégio.

PALÁCIO REAL TRANSFORMADO EM MUSEU, UM DOS PRIMEIROS DO MUNDO, PARA ABRIGAR AS COLEÇÕES DE AUGUSTO, O FORTE

Mas, desde a reconstrução do palácio em 1985 (os governantes da Saxônia fizeram desta localização sua residência exatos 500 anos antes, em 1485; e ele também foi destruído durante os bombardeios dos ingleses e americanos em 13 de fevereiro de 1945), o palácio vem se transformando em um completo museu, dos mais especiais que já visitei. De 2004 a 2019 eles têm inaugurado — praticamente todos os anos — novas alas, deixando acessível ao público as coleções, sempre belissimamente apresentadas e de forma permanente. O mais engraçado é que, de fora (lembre-se que você está bem no centro de Dresden), parece que são vários edifícios independentes, quando, na verdade, eles fazem parte de um único complexo, o Palácio Real ou, em alemão, Residenzschloss.

São várias as coleções: as sofisticadíssimas ferramentas para jardinagem que datam do século 16 (é tipo ir hoje à Asprey comprar acessórios como o kit de alicates de unha banhados com ouro 24 K em um estojo de pele de avestruz); uma das mais enormes — e importantes — coleções de armas e armaduras do mundo (até eu que não sou muito fã de artifícios de guerra, fiquei impressionando com a qualidade artística das peças da Rüstkammer, a sala das armaduras, que, em alemão é die Rüstung ); e as roupas que usavam os eleitores e suas esposas e filhos entre 1550 e 1650 na seção Kurfürstliche Garderode (com os tecidos, bordados e costuras completamente restaurados)… Mas os grandes destaques do palácio são a Câmara Turca (die Türckische Kammer), uma das mais antigas e importantes coleções de arte otomana fora da Turquia, com peças adquiridas ao longo de 300 anos (muitas delas durante o auge do Império Otomano, incluindo uma tenda de 20 metros de comprimento por oito de largura e seis de altura, todo de ouro e seda), e a “Caixa-Forte Verde”, das Grünes Gewölbe, dividida em duas: as originais oito salas rebuscadas que ficam no térreo, das Historisches Grünes Gewölbe, abertas ao público desde 1729, que apresentam uma coleção ABSURDA de joias, marfins, bronzes e pratas, e a Neues Grünes Gewölbe, no primeiro andar e em projeto expográfico contemporâneo, com uma não menos impressionante coleção de artes decorativas (e mais pratas e pedras e trabalhos de ourivesaria de tirar o fôlego). Nas fotos, o Residenzschloss visto de um dos terraços do Zwinger; um serviço para café surreal produzido pelo ourives favorito do rei, Johann Melchior Dinglinger; e um exemplo de armadura, para cavaleiro cavalo na Rüstkammer. Imagens: Shoichi Iwashita

ZWINGER: O PALÁCIO DAS LARANJEIRAS E DAS FESTAS QUE ABRIGA UMA DAS COLEÇÕES DE PORCELANAS MAIS MARAVILHOSAS DO MUNDO

Mas para continuar se maravilhando, você terá de atravessar a larga mas pacata Sophienstrasse para chegar a essa que é uma das mais belas construções do barroco germânico, que só parece também um palácio (bem mais bonito e harmônico que o próprio palácio real, preciso dizer), mas é um anexo com jardins, fontes e esculturas construído a pedido de Augusto, o Forte, em 1709, para servir como orangerie e servir de palco para as festas da corte. Além da beleza própria da arquitetura e do paisagismo, é no Zwinger onde foi instalada a magnífica coleção de porcelanas (Porzellansammlung) dos eleitores saxões, principalmente de Meissen — manufatura fundada por Augusto, o Forte em 1708, quando eles descobrem a fórmula para a fabricação da porcelana —, que conta também com importantes peças chinesas e japonesas dos séculos 17 e começo do século 18; com projeto expográfico — repleto de luz natural graças às muitas janelas dos edifícios que formam o complexo — do arquiteto nova-iorquino Peter Marino (responsável pelos projetos das principais lojas Chanel, Louis Vuitton, Dior e Fendi no mundo). Já no Semperbau, o maior — e mais novo, de 1855 — dos prédios do Zwinger (ele fecha um dos lados que antes era aberto), fica a Galeria de Pinturas dos Grandes Mestres, a Gemäldegalerie Alte Meister, que conta com obras belíssimas como a Madonna Sistina de Rafael (você certamente conhece os anjinhos desse quadro que se tornaram ícones pop ), a maravilhosa Vênus Adormecida de Giorgione, a Moça Lendo uma Carta à Janela de Vermeer, sem falar nas obras de Van Eyck, Dürer, Holbein, Rubens, Rembrandt, Poussin, Murillo, Canaletto, Tiepolo (Augusto, o Forte e depois seu filho, Augusto 3, eram ávidos colecionadores, mas em 1746, eles fizeram uma compra espetacular: 100 obras foram adquiridas de uma só vez da coleção do Duque de Modena, com obras de valor inestimável já naquela época). O Zwinger é um lugar que você deve voltar mais de uma vez durante sua estadia em Dresden porque é realmente único. Os três prédios: o Palácio Real (Residenzshcloss), o Zwinger e o Albertinum, outro prédio onde ficam a coleção de esculturas e de pinturas de novos mestres fazem parte das coleções de arte do Estado de Dresden, a Staatliche Kunstsammlungen Dresden, ou SKD.

Mas durante minhas andanças uma pergunta não me saía da cabeça…

COMO ESTA COLEÇÃO PERMANECEU INTACTA E UNIDA DEPOIS DE TANTAS REVIRAVOLTAS HISTÓRICAS E TRAGÉDIAS?

Entre 1723 e 1730, Augusto, o Forte transformou oito salas do térreo do palácio em um museu-caixa-forte bem moderno para a época. A coleção de obras de arte de exceção fascinou visitantes por mais de 200 anos, até o começo da Segunda Guerra Mundial, em 1939, quando foi fechado. Durante os bombardeios de 13 de fevereiro de 1945, todas as salas de exposição foram danificadas e três, completamente destruídas. A sorte foi que toda a coleção havia sido transferida para a fortaleza de Königstein em 1942. Com o fim da Segunda Guerra, em 1945, no entanto, ela foi confiscada pelo Exército Vermelho e transferida para a União Soviética. Em 1958, por ordem dos líderes soviéticos as coleções voltaram para Dresden junto com outras centenas de milhares de obras de arte da Alemanha Socialista, a República Democrática Alemã (RDA). Por mais de 60 anos, os objetos que formavam a coleção de Augusto ficaram separados. Mas, hoje, felizmente e talvez por pura sorte, eles estão juntos novamente.

MUROS INTERNOS E EXTERNOS RICAMENTE DECORADOS

Se em um dos pátios internos você vai se surpreender com as paredes em sgraffito (uma técnica parecida com a do afresco, geralmente em duas cores, em tons de cinza), no muro externo do Residenzschloss que dá para a rua Augustusstrasse (quase esquina com a Schlossplatz), você vai apreciar um painel com 102 metros de comprimento e mais de 23 mil ladrilhos de porcelana Meissen que retrata todos os príncipes da dinastia Wettin desde o século 12, conhecido como a Procissão dos Príncipes (foto acima) ou, em alemão, Fürstenzug (uma ótima forma de se familiarizar com os príncipes saxões; o painel foi originalmente pintado entre 1871 e 1876 para comemorar os 800 anos da Casa de Wettin, a família real saxã, mas para deixar a obra à prova d’água, eles substituíram a tinta pela porcelana em 1904). De Moritz, Príncipe-Eleitor da Saxônia entre 1521 a 1533 (que recebeu o título de Carlos 5, Sacro Imperador Romando) ao rei Friedrich August 3 (1865 a 1932) que abdicou do trono em 1918, o Fürstenzug está localizado na parede externa do Stallhof (do antigo estábulo do castelo).

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.