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Viagem: Polinésia

Carbono visita o paraíso no Pacífico e fomos até a ilha particular de Marlon Brando.

por Artur Tavares 29 Mar 2018 11:15

Um dos berços da humanidade, a Polinésia Francesa é conhecida por praias paradisíacas, resorts deslumbrantes e suas ilhas mais famosas, Taiti – capital administrativa – e Bora Bora. Mas a dica ali é ir além do básico: explorar diferentes regiões trará imersões completamente únicas. Em um mesmo dia você pode, por exemplo, nadar com tubarões e arraias pela manhã, e, à noite, jantar ao lado de franceses que se radicaram por lá no auge do movimento hippie e até hoje lutam pela preservação natural da região.

Colonizado primeiro por ingleses e depois por franceses durante o período das navegações, o território é composto por 118 ilhas e se divide em cinco arquipélagos: Ilhas da Sociedade, Tuamotu, Gambier, Ilhas Marquesas e Ilhas Austrais. Devido ao cuidado ambiental, a ocupação turística foi se desenvolvendo de forma orgânica nos últimos 50 anos. Investimentos recentes acabaram criando novas – e boas – opções de hotéis, pousadas e passeios ao longo da Polinésia. A rede Paul Gauguin, por exemplo, oferece uma série de cruzeiros cinco estrelas que vão até Tonga e Fiji.

Dona de uma das mais impressionantes barreiras de corais da região, Raiatea abriga o sítio histórico de Taputapuatea, que é Patrimônio Mundial da Unesco, e um iate clube badalado entre os apreciadores da vida em alto-mar. Sem estradas nem carros, o atol de Ahe tem uma criação de pérolas aberta à visitação. Já ilhas como Moorea oferecem atividades terrestres e ecológicas, como passeios de quadriciclo, trilhas e montanhismo, enquanto os tuamotus – ou atóis, como Rangiroa – são destinos certos para passeios aquáticos como mergulho, caiaque e kitesurfe.

Enquanto estiver na região, interaja com os locais. Por lá rege a regra do maná, uma filosofia de vida que preza a alegria e o amor. Nas mesas de bares, nos saguões de espera dos restaurantes, nos hotéis, os polinésios estão sempre tocando seus instrumentos, cantando e dançando. Eles são orgulhosos de sua história e gostam de contar com detalhes lendas de seu povo. Esqueça que está em território francês e busque a comida típica, baseada em peixes e frutas. O atum vermelho é um dos melhores do mundo, inclusive exportado para os exigentes restaurantes japoneses, e é muito barato. Há também outra variedade de atum, o yellowfin tuna, e espécies locais, como o mahi-mahi e o salmão branco. Não deixe de experimentar os crustáceos e os frutos do mar, todos bastante frescos, nem a marca de cerveja Hinano, que já foi premiada três vezes como a melhor lager do mundo.

PREPARE-SE
Quem sai do Brasil tem duas opções para chegar à Polinésia Francesa, ambas bastante longas: ou toma-se um voo até Los Angeles ou Santiago, no Chile, com uma escala na Ilha de Páscoa. Em média, são 18 horas de viagem. Todos os voos chegam primeiro a Papeete, a principal cidade do Taiti, e de lá o viajante deve fazer voos domésticos ou usar transporte aquático para se locomover entre as ilhas. As Marquesas e as Austrais são bem distantes para o norte e para o sul, enquanto os tuamotus são bastante próximos. Mais uma vez, programação é tudo: alguns destinos têm poucos ou apenas um meio de locomoção diário. Ali, o tempo é valioso, e recomenda-se uma longa estadia para não perder nada. Faz calor o ano inteiro, mas uma forte temporada de chuvas se desenrola entre a segunda metade do mês de novembro e fevereiro, único período que não se recomenda ir para lá.

Taiti
A capital administrativa da Polinésia Francesa é também seu maior aglomerado urbano. Por ali ficam museus, lojas de pérolas, um grande mercado que vende desde alimentos até roupas e suvenires. É de onde saem os voos e também os ferry boats, catamarãs e as lanchas para as outras ilhas.

HOTÉIS
Existem mil opções, mas prefira aqueles que estão perto do aeroporto e do porto local. O Intercontinental Tahiti tem quartos com vista para piscina com espelho d’água e também para o mar. Das areias de sua praia privativa é possível assistir ao nado de algumas espécies de peixes. A gastronomia é competente e a mesa do café da manhã, uma das mais fartas de toda a Polinésia. Outra rede que marca presença por lá é a Le Méridien.

MERCADO
Um passeio que todo turista deve fazer para se familiarizar com a cultural local: o mercado central de Papeete. Confira a variedade de peixes e frutas nas bancas do térreo, encontre pérolas rústicas e colares de conchas e madrepérolas a preços bastante acessíveis, e não deixe de experimentar o ceviche do Café Maeva, no segundo andar, feito com leite de coco, legumes e atum vermelho.

ARTE
Depois de atravessar meio planeta para chegar até o Taiti, você nunca vai imaginar que um artista de rua brasileiro é bastante popular por lá. Pois o grafiteiro Crânio tem suas obras espalhadas nos muros do centro de Papeete, e também no Museum of Street Art Tahiti, uma galeria dedicada às artes de rua que anualmente convida os melhores do mundo para renovar suas paredes. Se a ideia é ouvir um pouco de música, nem precisa ir longe. Sempre há alguém tocando canções tradicionais pelas esquinas e estabelecimentos locais.

TATUAGEM
Se quiser levar com você uma arte típica polinésia, procure um tatuador em Papeete. Eles são bastante familiarizados com as tradições locais e vão criar algo completamente original. As artes, sempre em preto, contam histórias sobre a força do Maná, dos quatro elementos, dos navegadores antigos e das regiões de arquipélagos que formam a Polinésia.

Moorea
As histórias sobre a formação de Moorea são cercadas de misticismo. Dizem que a ilha fazia parte do território do Taiti, separada após uma batalha de guerreiros. Quando os vencedores tentavam separar Moorea, puxando a massa de terra, um dos deuses polinésios se enraiveceu e jogou sua lança sobre eles. Assim, as duas ilhas teriam sido divididas – elas ficam distantes apenas uma hora de ferry. Hoje Moorea serve de cidade-satélite ao Taiti e quase 50% de seus moradores viajam para a capital diariamente para trabalhar.

HOTÉIS
Mais uma vez, o Intercontinental é a melhor opção entre os resorts. Tem quartos amplos, decoração étnica e uma lista grande de atividades. Lanchas saem diariamente para passeios no mar, e ainda é possível praticar stand up paddle e caiaque. Destaque para as duas piscinas que estão logo em frente à praia, uma delas com bar que só é acessado pela água. Outra opção em Moorea é o aluguel de casas particulares. Ótimas para grupos, têm preços bons. Muitas delas contam com geradores solares e ficam nas orlas.

GASTRONOMIA
O melhor restaurante para jantar em Moorea é o Mayflower. Administrado por um casal de franceses, tem ambiente intimista e romântico, deque externo e carta de vinhos de tirar o chapéu. Os rótulos vão de Baron de Rothschild a produções do Jura, da Alsácia, das Côtes du Rhône, Borgonha e Bordeaux. A comida tem toque sofisticado, mas ainda assim é regional. O mahi-mahi grelhado e o sashimi de atum vermelho são boas pedidas e os (enormes) camarões com legumes salteados, imperdíveis.

TURISMO HISTÓRICO
Com a ajuda de um guia experiente, é possível subir algumas montanhas e encontrar antigos marae – templos de pedra construídos a céu aberto, que serviam para a realização de celebrações religiosas e sacrifícios para os deuses. Entre os polinésios existe a regra do tapu, que consiste em não tocar esses espaços sagrados. Quando o Capitão Cook e seus marinheiros britânicos chegaram lá no século 18, foram informados da restrição, que traduziram para o inglês como “taboo”. Essa seria a origem da palavra “tabu”.

NATUREZA
Para fomentar a agricultura e reduzir o número de pessoas que viajam diariamente ao Taiti a trabalho, o governo arrenda terrenos para que moradores cultivem o abacaxi, que na ilha é utilizado para fazer doces, licores e vinho espumante. Essas plantações são abertas ao público. Vale procurar a que fica próxima à Magic Mountain, uma trilha que pode ser acessada a pé, de quadriciclo ou de jipe. No topo da montanha está uma das vistas mais belas de toda a Polinésia.

Rangiroa
Os 80 territórios que formam o Arquipélago dos Tuamotus da Polinésia Francesa são a maior cadeia de atóis do planeta Terra, uma extensão territorial do mesmo tamanho da Europa Ocidental. Um tuamotu, ou atol, se difere de uma ilha porque é uma massa de água cercada por terra, e não o inverso. Geralmente protegidos dos Oceano Pacífico por barreiras de corais, os tuamotus polinésios tornam-se imensas lagoas de água salgada ricas em espécies marítimas, sem formações montanhosas em seus arredores.

EMBAIXO D ’ÁGUA
Rangiroa é um dos lugares mais requisitados do mundo quando se fala de mergulho. O tuamotu é destino certo para quem deseja praticar desde snorkeling até scuba diving. Em águas de diversas profundidades é possível nadar com peixes ornamentais, tubarões e arraias, ou apenas observar as formações milenares de corais nas lagoas do atol. A regra número 1 é não ter medo de dividir o espaço com animais que, à primeira vista, podem intimidar. Reserve um dia e faça uma viagem até a Lagon Bleu, onde há ilhotas de formações rochosas bastante exóticas e uma grande variedade de vida marítima.

HOTÉIS
A melhor pedida de Rangiroa é o Kia Ora Resort & Spa, que oferece bangalôs privativos com piscina e banheiras externas. As vilas são bastante amplas, com sala de estar, quintal, cama confortável e chuveiros deliciosos. O hotel pertence a um grupo de investidores japoneses, por isso a gastronomia tem toques orientais. Muitos passeios que podem ser feitos no tuamotu saem também dali, uma mão
 na roda para os hóspedes. Há bangalôs dentro d’água e uma piscina que serve de cenário perfeito para o pôr do sol.

GASTRONOMIA
Cansada da vida em Paris, a francesa Denise Joséphine Caroggio mudou-se para a Polinésia Francesa há 37 anos e abriu em Rangiroa o restaurante Les Relais de Joséphine. Hoje, aos 70 anos, Joséphine é uma atração à parte no tuamotu. Ligue para lá e reserve uma mesa, mas faça um favor a si mesmo e peça que ela o acompanhe pelo menos para um drinque. A simpatia torna o bate-papo imperdível. A decoração é impecável e o restaurante tem um píer de observação de frente para uma área onde nadam golfinhos e, porvezes, baleias. O Les Relais de Joséphine funciona também como pousada, mas tem apenas sete quartos e horários rígidos. Sua administradora pede que todos estejam na cama às 21h. Ótima escolha para quem procura privacidade. Bem pertinho do Joséphine e do Kia Ora fica a sede da vínicola Vin de Tahiti, que produz quatro variedades de castas como Carignan e Moscatel de Hamburgo. Ali também é envelhecido o rum Mana’o, o melhor da Polinésia Francesa.

Tetiaroa – The Brando
Um voo de apenas 20 minutos separa a ilha de Taiti do tuamotu de Tetiaroa. Comprado pelo ator Marlon Brando no ano de 1967 por uma pechincha de 270 mil dólares, o atol abriga o resort e santuário de proteção ambiental The Brando. O norte-americano se apaixonou por Tetiaroa em 1962, enquanto gravava o filme O Grande Motim. Não foi apenas o atol que conquistou o coração de Brando. Lá ele
conheceu Tarita Teriipaia, com quem contracenou na produção, e que tornouse mãe de três de seus filhos. Primeiro, Teriipaia administrava um pequeno hotel ali, mas desde que Brando morreu, em 2004, ela nunca mais retornou a Tetiaroa. A ilha foi alugada pelo grupo Pacific Beachcomber por 99 anos, responsável por tudo até hoje.

Com apenas 35 vilas, o The Brando é um hotel all inclusive de qualidade pouco alcançada em outros lugares do mundo. Frequentado por atores como Leonardo DiCaprio e Bradley Cooper, hospedou também Barack Obama por três semanas após o término de seu mandato como presidente do EUA. Os luxuosos bangalôs têm piscina e praia privativa, escritório, sala de estar, quartos confortáveis, banheira externa e amenities especiais – o protetor solar, por exemplo, é biodegradável.

Há regras rígidas para preservação ambiental das 18 espécies raras de plantas e um sem-número de animais de Tetiaroa. Esportes como o kitesurfe são incentivados, mas proibidos perto das ilhotas em que habitam pássaros. Ao longo do resort, os ovos de tartaruga são protegidos por cercados bem sinalizados, e não é incomum assistir – em silêncio e no escuro – às fêmeas cavando seus ninhos durante as noites. Todo o The Brando tem ar-condicionado resfriado por um sistema chamado SWAC, que retira água do oceano a uma profundidade de 930 metros, em uma temperatura de 4º C – isso produz uma economia de 90% de energia elétrica, um sonho compartilhado por Marlon Brando ainda em vida. O lixo orgânico é transformado em compostagem para os jardins e hortas, 3800 painéis solares geram luz e calor, e todas as vilas e áreas comuns têm captação de chuva para reúso.

O The Brando ainda conta com um spa de primeira linha à beira de um rio artificial, dois restaurantes e dois bares. Na gastronomia, o destaque fica para o Les Mutinés, restaurante que só abre para o jantar e tem menu criado pelo francês Guy Martin, dono de duas estrelas Michelin por seu trabalho no parisiense Le Grand Véfour. Passe alguns dias nesse paraíso praticando esportes aquáticos ou simplesmente cometendo indulgências à beira da piscina. A experiência é inacreditável, e o sentimento de reconexão com a natureza vai mudar completamente sua maneira de viver.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.

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