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Vem pra Rua

Como Portland, nos EUA, tornou-se referência em mobilidade e qualidade de vida

19 Jul 2017 12:11

Por Flavio Sampaio, de Portland

Doze pontes costuram o Rio Willamette, divisor natural da cidade americana de Portland, no Oregon, entre Leste e Oeste. Nenhuma delas é igual, cada uma traz um charme especial, seja pelo material utilizado, seja pelo design ou funcionalidade. A primeira foi construída em 1908, sem nunca permitir o trânsito de automóveis: serve até hoje como travessia exclusiva de trens. A mais recente, inaugurada em agosto de 2015, também não permite o tráfego de carros: foi pensada exclusivamente para o transporte público (ônibus e VLT – veículo leve de transporte), as bicicletas e os pedestres. É a primeira grande ponte americana construída dessa maneira. Até seu nome, Tilikum, escolhido por votação pública, reflete quem são os maiores beneficiados – no idioma Chinook, etnia indígena que povoava a região, Tilikum significa pessoas.

Desde meados do século passado, Portland pensa em formas alternativas de transporte. Enquanto as grandes cidades americanas eram recortadas por estradas, anéis viários, elevados e carros, muitos carros, Portland decidiu ir na contramão de tudo isso. Em 1970, a comunidade local vetou o projeto de uma rodovia que cimentaria qualquer possibilidade de vida no coração da cidade. Indignado, o Oregonian, principal jornal do estado, chegou a publicar um editorial afirmando que “os americanos abandonariam suas esposas, mas não seus carros”. Talvez os americanos, mas não os portlanders. O dinheiro da rodovia acabou sendo destinado para uma das primeiras linhas de VLT dos EUA e, na sequência, outra rodovia que ficava às margens do Rio Willamette foi transformada em parque.

Portland é hoje uma das cidades mais vibrantes do planeta com seus 650 mil habitantes, ou 2.4 milhões, se contarmos a área metropolitana ao redor. Consegue unir inovação, tecnologia, moda, mobilidade urbana, cicloativismo, cultura, ciência, gastronomia com preservação ambiental. Tem ares de cidade do interior com visão progressista e moderna. As sedes globais da Nike e Intel ficam aqui, bem como da Columbia e, mais recentemente, da Under Armour. Até os alemães da Adidas decidiram pintar suas três listras na cidade, seja para cutucar suas maior rival, seja para poder viver em uma das mais europeias das cidades americanas. São designers, artistas, estilistas e programadores que usam o espaço urbano como inspiração para moda e tecnologia. E nada melhor do que fazer isso tudo em cima de duas rodas.

Nos EUA, a média de uso de bike como transporte é de 0,5%, em Portland é de 7,2% – quase 15 vezes mais que a média. São 563km de ciclovias, sendo 302km exclusivos para as magrelas. Mais do que ciclovias, a cidade oferece integração: todos os ônibus e trens são preparados para transportar bicicletas; existem 6,5 mil vagas públicas para acorrentá-las; 40 programas educacionais em mais de 100 escolas capacitam crianças como futuros ciclistas. Do ano 2000 para 2010 houve um aumento de 238% no número de pessoas que passaram a ir para o trabalho de bike. Não à toa, Portland é a única grande cidade americana a conquistar a categoria Platinum concedida pela League of American Bicyclist, ONG cicloativista fundada em 1880. Até os amantes de cerveja podem pedalar em segurança enquanto fazem um tour pela cidade campeã mundial em número de cervejarias (são mais de 70). Muito comuns entre os turistas no verão, esses veículos de quatro rodas são movidos por pedais e têm capacidade para até 15 ciclo-cervejeiros que conseguem unir as duas paixões locais.

Desde sua fundação, em 1845, Portland sempre foi uma cidade no meio do caminho. Se você olhar no mapa vai perceber que ela fica entre São Francisco e Seattle, na Costa Oeste americana. Por mais de um século, serviu justamente como entreposto de madeira para essas cidades, alimentando trens movidos a carvão ou enviando suprimentos para a construção civil. Foram tantas árvores derrubadas que passou a ser chamada de Stumptown (Cidade dos Tocos), apelido que dura até hoje. O Rio Willamette servia para escoar a produção de madeira e também para receber esgoto e efluentes industriais. O roteiro para o desastre ambiental estava escrito – só não combinaram com os moradores locais. “O poder da comunidade é determinante. Sem dúvidas, o maior diferencial de Portland. Aqui temos mais ativismo do que urbanismo”, afirma Ethan Seltzer, professor de planejamento urbano da Portland State University e membro ativo na implementação do plano diretor da cidade. “A cidade ideal reúne bairros que congregam vários tipos de moradias, comércios, escolas, igrejas, cinema. Ao invés de criarmos áreas exclusivas para cada tipo de atividade, temos que juntá-las. Isso impacta diretamente na mobilidade urbana.”

Os streetcars, modernos bondinhos elétricos, dividem espaço com bikes, pedestres e automóveis, transportando 50 milhões de passageiros por ano. Ainda pouco difundido no Brasil, o compartilhamento de carros foi lançando em Portland há quase 20 anos – a primeira cidade americana a pensar nisso. Hoje, quatro empresas oferecem o serviço, com mais de mil carros disponíveis. Somente a Car2Go tem mais de 530 veículos, sua maior frota em solo americano. Em 2001, a cidade voltou a ter também os tradicionais bondinhos elétricos, só que mais modernos. Todas essas ações de mobilidade impactam diretamente na preservação ambiental, busca incessante da comunidade local. Portland foi também a primeira cidade americana a assinar um plano de redução de emissões de carbono, em 1993. Apesar do crescimento contínuo de sua população, a cidade já conseguiu reduzir em 14% os níveis de poluição. Mas a meta é ainda mais agressiva: diminuir em 80%, até 2050. De olho no futuro, Portland acabou de aprovar seu plano diretor para 2035 com um legado impressionante de execução do plano atual: 88% do planejado foi executado. Na terra dos hipsters, ter um automóvel é tão fora de moda quanto gostar de Shakira ou não ter barba. O novo plano diretor, aprovado em massa pela população, definiu a ordem de prioridade no quesito transporte: pedestres, ciclistas, transporte público, táxi/veículos compartilhados, carros elétricos e, na última posição, automóveis. Desta vez, o jornal não publicou nenhum editorial sugerindo divórcios coletivos.