Trip

Uxua, o hotel invisível

Sem portas e chaves, uma das experiências mais autênticas de Trancoso

por Shoichi Iwashita 11 Dez 2017 13:09

Um hotel-ícone que é invisível por fora (não tem placa ou qualquer indicação), em que os quartos não têm portas (tá, eles até têm mas você só vai descobri-las mais tarde, quando as camareiras fizerem a abertura de cama), sem recepção e onde você não recebe uma chave no check-in. Um hotel que está na melhor localização de Trancoso (e ao lado do restaurante que serve a melhor moqueca do universo, a Silvana & Cia.), com arquitetura completamente integrada à vegetação — incluindo uma linda piscina de aventurina, um quartzo verde terapêutico e nativo da Bahia —, decoração elegantemente rústica (não existe um canto sequer, por menor que seja, que não tenha sido pensado) e sustentável na essência (não há absolutamente NADA de plástico exposto em todo o hotel: o saco de lixo do banheiro é de papel, os amenities — do repelente ao sabonete líquido — estão em recipientes de cerâmica, e atenção: não disponíveis para você levar embora). E as poucas coisas como os fios de energia dos abat-jours e as garrafinhas de água estão lindamente camufladas, cobertas por recipientes de vidro ou palha. No todo, o Uxua é um projeto de espaços e experiências — no hotel, nas casinhas e no restaurante do Quadrado, na barraca da Praia dos Coqueiros — que só alguém com muito repertório de estilo (e muita pesquisa) seria capaz de conceber. Neste caso, o ex-diretor criativo da Diesel, o holandês-quase-baiano (ele fala português com sotaque nativo) Wilbert Das.

A tentação é grande de chamar os amigos que estão em Trancoso para drinques “em casa” (porque enquanto você estiver no Uxua você terá a sua própria) enquanto você está num dos lugares mais charmosos do mundo. Mas, por ser um destino de muitas festas (ainda mais na temporada), a política do Uxua é rígida: apenas hóspedes podem entrar no hotel (até na loja da pousada, com uma curadoria linda de produtos, só quem se hospeda pode comprar). Todas as casas do hotel — não há categorias, elas se dividem por número de quartos, de um a três — levam o nome de seus antigos donos. E passar alguns dias na “casa do Seu João” dá uma interessante sensação de proximidade com o passado de Trancoso, este que foi o primeiro ponto de contato dos portugueses que chegaram por aqui (ainda mais por que essas casas centenárias foram reformadas por artesãos locais, de pescadores a índios pataxós, que conheciam seus donos, utilizando só materiais da região). E não só você pode ter uma casa escondida no meio do jardim exuberante que nos anos 1970 foi uma comunidade hippie, mas você também pode ter a sua casa no Quadrado por alguns dias.

DO MENU DE CASAS, QUAL ESCOLHER?
Tudo bem que sendo um hotel de apenas onze quartos em um dos destinos mais cobiçados do mundo, dificilmente você terá todas as opções disponíveis a não ser que você faça a reserva com muita antecedência. Mas, uma vez definida a quantidade de quartos de que precisa (sete casas possuem uma suíte, três casas possuem duas e a Zé e Zilda é a única casa com três quartos), você precisa definir se quer estar em uma das quatro casas do Quadrado (que contam com mesas e cadeiras na própria praça) ou no jardim interno, com mais privacidade. Aí, é preciso considerar se você quer uma piscina privativa (as casas Eugênia, a do Seu João, a do Seu Irênio e o Terraço do Céu contam com pequenas piscinas no interior das casas) e uma casa sem escadas (a Casa da Árvore, o Quintal da Glória ficam no alto, e o Terraço do Céu conta com três andares com um terraço panorâmico no último andar). Com essas definições, é só fazer a sua reserva.

A EXCELENTE ESTRUTURA DO UXUA
Não só o Uxua conta com piscina linda e restaurante com pratos criativos e bem executados (muitas opções vegetarianas), sempre utilizando ingredientes locais e cada vez mais orgânicos (e você pode almoçar ou jantar tanto na sua casa e no restaurante interno quanto no Quadrado, parte aberta a não-hóspedes), mas o hotel também conta com um excelente espaço de bem-estar — com academia completa, sala ampla com TRX e equipamentos para a prática de boxe, capoeira ou yoga (você pode agendar aulas), e três salas de massagem, incluindo uma com hidromassagem e outra aberta para o jardim — e uma das melhores e mais bem localizadas barracas de praia de Trancoso. Isso porque a barraca do Uxua fica numa parte linda da Praia dos Coqueiros (a praia que eu gosto de frequentar), onde o sinuoso Rio Trancoso desemboca no mar, e ela é a mais próxima do Quadrado, se comparada com as barracas da Silvana & Cia, a do Jonas e da Lúcia do Espelho (as outras de que eu gosto; leia mais sobre as praias, clicando aqui), a apenas dez minutos a pé da pousada (eu sempre desço de carro pois tenho preguiça daquela subidinha depois de um dia de drinques na praia e eu posso querer ir para outro lugar depois, mas no inferno da alta temporada, com o trânsito, esse detalhe da localização faz toda a diferença; mas além de ter um ponto de moto táxi bem na saída do caminho do manguezal, você pode pedir para um carro do hotel para te levar ou buscar). Nem preciso dizer que a barraca é concorrida entre os viajantes que estão na cidade, mas a boa notícia é que cada casa possui seu próprio lounge, com sofá, mesa, espreguiçadeiras, toalhas, almofadas e ainda banheiros exclusivos para os hóspedes. E a barraca ainda conta com quadra de vôlei de praia e aparelhos de ginástica de madeira e você ainda pode convidar os amigos para passar o dia com você na barraca (só é preciso avisar o hotel quantas pessoas virão).

COMO CHEGAR DE CARRO AO UXUA
No Quadrado, não entram carros. Mas não se preocupe, pois você não terá de arrastar suas malas pela praça para se chegar ao Uxua. Chegando de carro até o Quadrado, você obrigatoriamente terá de seguir pela rua à direita. Vá circundando o Quadrado até chegar a uma ruazinha sem saída conhecida como Rua do Parque (não tem no Google Maps) e entre nela à esquerda. Aí é só procurar pela casinha (também discreta) que funciona como recepção-concierge e pedir para eles abrirem o portão do estacionamento. E seja bem-vindo ao paraíso.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.