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Uma visita ao Nacional Gran Meliá Rio

Shoichi Iwashita confere o aguardado renascimento do icônico hotel projetado por Niemeyer

por Shoichi Iwashita 6 Mar 2017 11:03

O hotel não está no nosso bairro preferido no Rio de Janeiro — Ipanema — mas alguns fatores fazem do Hotel Nacional Gran Meliá a melhor e mais bem vinda novidade hoteleira de 2016 no Rio de Janeiro (por conta das Olimpíadas, mais de TRINTA hotéis foram inaugurados só nesse ano; um acréscimo de mais de VINTE E CINCO MIL novos quartos de hotéis): 1. a arte (ocupa um edifício histórico e tombado projetado por Oscar Niemeyer, tem jardins assinados por Roberto Burle Marx e obras de importantes artistas brasileiros); 2. as vistas matadoras (para a praia de São Conrado, para mata atlântica ainda selvagem, para a favela da Rocinha com o Corcovado ao fundo, e para a maior pedra da cidade do Rio de Janeiro — uma montanha monolítica com 844 metros de altura, a Pedra da Gávea); 3. a localização entre o Leblon e a Barra (próximo da favela do Vidigal e da Vista Chinesa, acessíveis de carro, e da estação de metrô São Conrado, a três minutos a pé, que te leva ao Leblon em uma e à Ipanema em três ou quatro paradas); e 4. a história deste que foi um ícone da hotelaria na cidade nos anos 1970 e 1980 (era aqui que aconteceram algumas das primeiras edições do Free Jazz Festival, época em que marcas de cigarro ainda podiam ter seus nomes em festivais de cultura).

Não consigo imaginar o investimento — e o risco assumido diante de tanta concorrência — por trás do renascimento do Hotel Nacional em São Conrado. Só de enormes placas de mármore creme, são mais de três mil metros quadrados no gigantesco lobby elegantemente decorado — onde quase inexistem colunas ou linhas retas, seguindo os preceitos da arquitetura modernista de Niemeyer —, sem falar na restauração das obras de arte (que foram saqueadas nos mais de vinte anos quando o prédio ficou abandonado depois da falência do hotel nos anos 1990, felizmente recompradas e restauradas) e na reforma dos 413 quartos deste edifício circular de 33 andares (era para ser 55 no projeto original) todo recoberto de vidro, que garante vistas panorâmicas em todos os quartos, seja para o mar, para a floresta, para a Rocinha, uma das dez maiores favelas do mundo onde moram quase 70 mil pessoas (entre os quais 30% dos funcionários do hotel), que se torna ainda mais impressionante à noite, quando as luzes das casas se acendem.

E a estrutura é completa. Além do enorme jardim que fica sobre o lobby (raríssimo nos hotéis hoje), você tem uma belíssima piscina de mármore branco, coroada com a sereia, uma escultura de glúteos avantajados de Alfredo Ceschiatti, que vislumbra o mar (grande colaborador de Oscar Niemeyer, Ceschiatti também criou Os Anjos e os Evangelistas que voam na Catedral de Brasília, a escultura da Justiça na Praça dos Três Poderes e As Três Forças Armadas, aqui no Rio de Janeiro); ótima academia e um spa Clarins; agradável bar no lobby e na piscina e restaurante; estrutura do hotel na praia em frente, com cadeiras, guarda-sóis, toalhas e águas; e, em breve, um grande complexo para congressos e eventos, que vai ajudar na lotação do hotel.

Os quartos seguem o estilo contemporâneo funcional (seria genial — mas arriscado comercialmente — se eles tivessem resgatado o projeto de decoração original da época, tipo o Parco dei Princi, do Giò Ponti, em Sorrento 🙂 com materiais não tão elegantes. Mas, diferentemente do hotel Emiliano, que tem diárias cinco vezes mais caras, os blackouts dos quartos do Nacional bloqueiam 100% a luz; todos os apartamentos possuem amplas janelas chão-teto-de-um-lado-a-outro que garantem vistas incríveis e muita luz natural (no Emiliano, você só tem essa quantidade de luz nas suítes de frente para o mar); a parede de vidro no banheiro (que garante vista para quarto e para o exterior) não embaça quando se liga o chuveiro; tem mesinha de trabalho com cadeira — e máquina Nespresso — e sofá até na categoria de quarto mais simples; iluminação no chão com sensor para quando você se levantar para ir ao banheiro à noite; e tomadas por todos os lados, do jeito que a gente gosta (tem também algumas coisas desnecessárias como luzes coloridas, que mudam de cor conforme seu humor). E, apesar de ser um hotel grande para o nosso gosto, a sensação de se chegar até o quarto, por ser um edifício circular talvez, é a de que se está num hotel menor (e não se preocupe de estar bêbado e não seguir na direção correta ao procurar pelo quarto: chegando no andar certo, é só andar para um lado ou para o outro, tanto faz. Uma hora você esbarra no seu quarto, não tem erro).

A minha única ressalva vai para a gastronomia do hotel, principalmente para os pães que poderiam ser muito melhores (apesar da seção de pães e bolos sem glúten no café da manhã) e a comida correta, mas que não encanta. De resto, aproveite os ótimos preços (das diárias pelo menos, já que nas bebidas o Nacional consegue ser igual ou mais caro que o Emiliano: uma água Prata de 300 ml custa R$ 11, um refrigerante R$ 12, um espresso R$ 12, um espresso duplo R$ 16! e uma água de coco R$ 14!!). Para passar uma noite, planeje gastar em torno de R$ 550, sem café da manhã, e R$ 600, com o café da manhã incluso para uma pessoa.

O hotel Nacional Gran Meliá, o único Gran Meliá do Brasil, esse que é o selo mais sofisticado da rede de hotéis espanhola, oferece muito espaço e tudo o que o viajante contemporâneo precisa, e é perfeito para famílias e viajantes a trabalho que tenham compromissos na Barra mas não querem ficar longe do Leblon e Ipanema. E por seu legado histórico (e coragem dos investidores), merece todo o nosso prestígio.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.