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Uma visita a Dresden

Tudo o que você não pode deixar de visitar, ver e fazer em uma das cidades mais fascinantes da Alemanha

por Shoichi Iwashita 17 Ago 2017 11:26

Pare na praça Neumarkt em frente à estátua de Martinho Lutero e a icônica igreja luterano-barroca Frauenkirche. Observe em volta. A sensação é a de que você está, assim como em tantos destinos da Europa, numa linda cidade com séculos de história (o que é verdade: Dresden foi a capital do eleitorado e do reino saxão e ainda hoje é a capital da Saxônia — Sachsen, em alemão —, apesar de Leipzig ser a maior cidade do estado). Mas o edifício mais antigo — o único original — desta praça não são todos esses prédios que aparentam centenas de anos, mas sim o Kulturpalast, um prédio quadradão-modernista-socialista construído na década de 1960, cuja belíssima nova sala de concertos acaba de ser inaugurada (Dresden tem uma longa ligação com a música clássica: além de possuir uma das orquestras mais antigas do mundo, óperas de grandes compositores como os Richards Wagner e Strauss estrearam aqui). Todo o resto da “Cidade Antiga”, a Altstadt — incluindo a maioria dos lugares citados nesta matéria, e ela, a imponente Frauenkirche — havia sido completamente destruído durante o bombardeio aliado, mais especificamente de ingleses e americanos, no dia 13 de fevereiro de 1945, num dos capítulos mais vergonhosos da Segunda Guerra Mundial (25 mil civis morreram em dois dias; foi tão horrível quanto Hiroshima), e só começou a ser reconstruído depois da reunificação das Alemanhas capitalista e socialista em 1991. Contraditoriamente, Neustadt, que quer dizer “cidade nova”, o bairro alternativo famoso por seus bares e grafites, é a parte mais antiga da cidade (saiba mais sobre a Neustadt abaixo). E é essa discussão que vai ficar presente na sua cabeça durante toda a sua visita à Dresden: a dos paradoxos do novo e do histórico; da guerra e do renascimento; do palaciano e do grafite; da monarquia, da república, do nazismo, do socialismo e do capitalismo (e das arquiteturas de todas essas épocas)… (Uma observação importante: se você for passar um ou dois dias em Dresden, só tenha certeza de que você não está indo numa segunda ou terça pois são os dias que quase todas as principais atrações da cidade fecham.)

FRAUENKIRCHE E O RENASCIMENTO DA IGREJA DE NOSSA SENHORA

Deve ter sido um dos maiores quebra-cabeças da história. O lugar onde hoje está a Frauenkirche já foi uma igreja católica. Mas, depois da Reforma, ela foi substituída por uma igreja protestante em formato de sino que é um dos melhores exemplares do estilo barroco germânico do século 18 (tudo bem que igreja católica da cidade, a Catedral de Dresden, a 300 metros daqui, não fica atrás na imponência). Mas, apesar de sua enorme cúpula (uma das maiores da Europa, com 96 metros de altura) ter resistido às mais de 100 balas de canhão durante a Guerra dos Sete Anos nos anos 1750 e parecer que ia resistir também ao ataque aliado com mais 650 mil bombas incendiárias nos dias 13 e 14 de fevereiro de 1945, a Frauenkirche, depois de seu interior atingir os 1000º C, desmoronou na manhã do dia 15 de fevereiro de 1945. Assim como a Cúpula Genbaku em Hiroshima, as ruínas foram mantidas pela Alemanha Socialista como um memorial de guerra por 50 anos, mas com a queda do Muro de Berlim e a unificação do país, os alemães decidiram reconstruir a igreja, colocando cada pedaço que tinha restado no seu lugar original. Por isso, entre as pedras novas e amarelinhas, você vai ver outras sujas e escuras no meio delas. Foram mais de dez anos de reconstrução (com o apoio de doadores do mundo todo) e a Frauenkirche foi reconsagrada em 2005. A igreja abre todos os dias e você pode subir até a cúpula para uma vista panorâmica de Dresden (mas as escadas são difíceis: só vá se tiver um bom condicionamento físico e não for claustrofóbico), visitar o pequeno museu que conta a história de seu renascimento ou mesmo assistir a um concerto no interior tinindo de novo da igreja (é linda a combinação de verde com ouro do altar, onde fica o enorme órgão que é tocado diariamente ao meio-dia; não deixe de assistir). FRAUENKIRCHE: Georg-Treu-Platz 3, telefone 00 49 (0) 351 / 6560-6100. Segunda a sexta, das 9h às 18h; sábados, das 9h às 15h. Para conferir a programação de concertos e comprar seu ingresso, clique aqui.

RESIDENZSCHLOSS, A CASA DOS SOFISTICADOS PRÍNCIPES SAXÕES

O palácio real que foi a casa dos eleitores e príncipes saxões por mais de 500 anos fica entre a Frauenkirche (luterana), a Catedral de Dresden (católica), a ópera Semper, o Zwinger e a Semperbau, ou seja, mais central e integrado à cidade de Dresden impossível. E se o Residenzschloss também foi quase que totalmente destruído — assim como toda a Altstadt— com os bombardeios de 13 de fevereiro de 1945, a reconstrução e a transformação do palácio em museu, que vem acontecendo desde 2004 (e vai até 2019!), é uma surpresa até mesmo para os frequentadores assíduos de museus; simplesmente por que a coleção que Augusto, o Forte e seu filho Augusto 3 amealharam em vida — de porcelanas, joias, armaduras, pinturas e relógios — é, cada uma em sua área, das mais incríveis existentes no mundo. E é fascinante que, apesar de todas as reviravoltas da história (da monarquia à república, do nazismo ao socialismo, passando pelas grandes guerras), esta coleção tenha permanecido unida e praticamente intacta. Mais fascinante ainda é saber que a parte mais importante da coleção ocupa hoje exatamente os mesmos espaços que ocupavam na época de Augusto, o Forte, que, em 1729, abriu para visita pública a “Caixa-Forte Verde”, a Historisches Grünes Gewölbe, num projeto de museu extremamente moderno para a época. Saiba tudo-tudinho sobre a visita ao palácio real, um dos prédios que abrigam a Coleção Estatal de Dresden, em nossa matéria exclusiva (e com mais fotos) clicando aqui. RESIDENZSCHLOSS: Taschenberg 2, telefone 00 49 (0) 351 / 4914-2000. Segunda-feira, das 10h às 18h; terça-feira fecha; quarta e quinta, das 10h às 18h; sexta-feira, das das 10h às 20h; sábado e domingo, das 10h às 18h. O ingresso custa € 12 (audioguide incluso) e menores de 17 anos de idade não pagam. Para acessar o site, é só clicar aqui.

ZWINGER, O PALÁCIO DAS PORCELANAS E DOS ANJINHOS POP DE RAFAEL

Do Residenzschloss, basta atravessar a larga mas pacata Sophienstrasse para se chegar a essa que é uma das mais belas construções do barroco germânico, que só parece também um palácio (bem mais bonito e harmônico que o próprio palácio real, preciso dizer), mas é um anexo com jardins, fontes e esculturas construído a pedido de Augusto, o Forte, em 1709, para abrigar suas plantas e servir de palco para as festas da corte. Além da beleza própria da arquitetura e do paisagismo, é no Zwinger onde foi instalada a magnífica coleção de porcelanas (Porzellansammlung) dos eleitores saxões, principalmente de Meissen — manufatura fundada por Augusto, o Forte em 1708, quando eles descobrem a fórmula para a fabricação da porcelana; leia mais abaixo —, que conta também com importantes peças chinesas e japonesas dos séculos 17 e começo do século 18; com projeto expográfico — repleto de luz natural graças às muitas janelas dos edifícios que formam o complexo — do arquiteto nova-iorquino Peter Marino (responsável pelos projetos das principais lojas Chanel, Louis Vuitton, Dior e Fendi no mundo). Já no Semperbau, o maior — e mais novo, de 1855 — dos prédios do Zwinger (ele fecha um dos lados que antes era aberto), fica a Galeria de Pinturas dos Grandes Mestres, a Gemäldegalerie Alte Meister, que conta com obras belíssimas como a Madonna Sistina de Rafael (você certamente conhece os anjinhos que se tornaram ícones pop deste quadro), a maravilhosa Vênus Adormecida de Giorgione, a Moça Lendo uma Carta à Janela de Vermeer, sem falar nas obras de Van Eyck, Dürer, Holbein, Rubens, Rembrandt, Poussin, Murillo, Canaletto, Tiepolo (Augusto, o Forte e depois seu filho, Augusto 3, eram ávidos colecionadores, mas em 1746, eles fizeram uma compra espetacular: 100 obras foram adquiridas de uma só vez da coleção do Duque de Modena, com obras de valor inestimável já naquela época). O Zwinger é um lugar que você deve voltar mais de uma vez durante sua estadia em Dresden porque é realmente único. ZWINGER: Theaterplatz 2, telefone 00 49 (0) 351 / 4914-2000. Os jardins ficam abertos todos os dias, de abril a outubro, das 6h às 22h; e de novembro a março, das 6h às 20h. Já as coleções abrem apenas de terça a domingo, das 10h às 18h, e o ingresso custa € 6 (o ingresso que combina a visita à coleção de porcelanas mais a visita à galeria de pinturas custa € 10). Para acessar o site, clique aqui.

SEMPEROPER, A TRAGÉDIA DA ÓPERA QUE TEVE DE SER INTEIRAMENTE CONSTRUÍDA TRÊS VEZES

Theaterplatz. Graças a essa enorme praça à beira do rio Elba, chegar ao Semper para assistir a uma ópera à noite faz você se sentir chegando ao Metropolitan em Nova York; só que em versão barroca e com o peso de se estar entrando na casa onde estrearam algumas das mais importantes óperas de Wagner (Rienzi, Tannhäuser ), Richard Strauss (Salomé, Elektra ) e Carl Maria von Weber. Assim como o Semperbau, o edifício ao lado que faz parte do Zwinger, a ópera de Dresden foi desenhada — duas vezes, porque o primeiro edifício foi consumido por um incêndio — pelo arquiteto alemão Gottfried Semper; e depois, ele seria novamente destruído pelos bombardeios da Segunda Guerra, reconstruído e reinaugurado exatos 40 anos após a tragédia, em 13 de fevereiro de 1985. Além disso, a Semperoper é a sede de uma das orquestras mais antigas do mundo, a Sächsische Staatskapelle Dresden, fundada em 1548, que é também o corpo musical da Sächsische Staatsoper (a Ópera do Estado da Saxônia) e da companhia Semperoper Ballet. Nem preciso dizer que a programação é de primeira. Em 2017, eles inauguraram um edifício contemporâneo (logo atrás e conectado ao Oper), com uma sala bem menor, para espetáculos experimentais de música e dança, o Semper Zwei (zwei é dois, em alemão). SEMPEROPER: Theaterplatz 2, telefone 00 49 (0) 351 / 491-1795. Para ver a programação e comprar ingressos, clique aqui.

KULTURPALAST, DA MULTIFUNCIONALIDADE SOCIALISTA À PRIMEIRA CASA – ULTRACONTEMPORÂNEA – DA DRESDNER PHILARMONIE

Inaugurado em 1969 como um centro de congressos da Alemanha Socialista, o Kulturpalast, o edifício mais antigo da Neumarkt (apesar de parecer o mais novo) acaba de ser transformado — depois de cinco anos fechado — em uma sala de concertos estado-da-arte com capacidade para 1800 pessoas, à altura da orquestra que abriga, a Dresdner Philharmonie, uma das mais célebres orquestras do mundo. Um dos destaques da sala é o órgão de 6 milhões de euros, posicionado no alto atrás do palco-altar. Além da sala de concertos, o Kulturpalast abriga também a Biblioteca Central de Dresden, a Zentralbibliothek, também novinha em folha. KULTURPALAST: Schlossstrasse 2, telefone 00 49 (0) 351 / 48-660. Para conferir a programação da sala de concertos, é só clicar aqui. Para conferir a agenda de apresentações da Dresdner Philharmonie, clique aqui. A biblioteca funciona de segunda a sábado, das 10h às 19h.

ÄUSSERE NEUSTADT: CONTRACULTURA, MUITOS BARES E AS INTERVENÇÕES MAIS INESPERADAS NOS PRÉDIOS

Neustadt é a região que fica na margem direita do rio Elba (é só cruzar a Augustusbrücke). Mas se a Innere Neustadt (a parte que ficava dentro dos portões da Dresden medieval) é aristocrática, com suas casas elegantes e originais construídas no século 18 (e que não foram destruídas durante a Segunda Guerra), a Äussere Neustadt (a “parte de fora”) é totalmente contracultura, com seus mais de 150 bares; restaurantes coreanos, vietnamitas, indianos, vegetarianos; arte de rua, portas e paredes grafitadas. Para começar o seu passeio em Neustadt é só se dirigir para o cruzamento da Louisenstrasse com a Rothenburgerstrasse para se ambientar. De lá siga pela Görlitzerstrasse por 150 metros e você vai encontrar a placa para a Kunsthofpassage: um complexo de prédios repletos de pátios e passagens que tomam grande parte do quarteirão, onde você vai encontrar os prédios mais loucos que você poderia sonhar (como esse da foto acima). Depois de caminhar, ver os grafites e observar as pessoas, é hora de decidir onde parar para comer e beber. Eu adorei o biergarten na Louisenstrasse e o restaurante vegetariano Scheune, que fica dentro de um complexo hiperhipster na Alaunstrasse quase esquina com a Louisenstrasse.

PORCELANAS MEISSEN E OS HACKERS DA DRESDEN DO SÉCULO 18

Por mil anos os europeus não sabiam como eram fabricadas as branquíssimas porcelanas chinesas feitas com pasta dura; objetos de desejo entre ricos e nobres europeus desde a Idade Média (Francesco I de Medici até havia tentado fabricar porcelana nos anos 1580, mas diante do resultado inferior, desistiu). Mas foi a paixão e a obsessão de Augusto, o Forte pelo “ouro branco” que fez com que alquimistas contratados por ele descobrissem a fórmula e transformasse Meissen na primeira fabricante de porcelana da Europa, em 1708. Para chegar à fábrica dessa manufatura estatal — que leva o nome da cidade onde está localizada e segue encantando o mundo com suas criações depois de mais de 300 anos —, basta pegar um S-Bahn (trem metropolitano) de Dresden para Meissen-Triebischtal e seguir as placas que começam na estação e vão até a fábrica, em uma caminhada de cinco minutos. Lá, além de visitar o museu, você pode visitar os artesãos em ação acompanhado de um audioguide ou de um guia. Imperdível para os amantes das artes decorativas. STAATLICHE PORZELLAN-MANUFAKTUR MEISSEN: Talstrasse 9, em Meissen, que fica a 30 quilômetros de Dresden, telefone 00 49 (0) 3521 / 46-8206. De maio a outubro, todos os dias das 9h às 18h; e de novembro a abril, das 9h às 17h; e como bons alemães que são, a Meissen abre também nos dias 31 de dezembro de 1 de janeiro, das 10h às 16h, e só fecha do dia 24 a 26 de dezembro. Para acessar o site, é só clicar aqui.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.