Trip

Uma viagem a Jackson Hole

Conheça o que torna a região do Wyoming um dos resorts de ski mais disputados dos EUA

6 Jul 2017 23:34

Por Antônio Bonfá, de Jackson Hole

Localizado na região Oeste do estado de Wyoming, sua geografia faz parte de um maciço das montanhas rochosas (as Rocky Mountains) que se estende até a Columbia Britânica (Canadá). Jackson Hole cativa por manter o mais autêntico cenário de Velho-Oeste americano, típico desde a sua colonização. Ao todo, tem 10 mil moradores alinhados na preocupação de conciliar desenvolvimento econômico sustentável com manutenção da cultura local e de suas tradições, buscando preservar as características naturais do estado com menor densidade demográfica do país. Cerca de 90% da região são consideradas áreas de preservação permanente e oportunidades imobiliárias por ali são caras e disputadas.

Além da natureza exuberante, Jackson carrega a tradição de possuir a montanha mais “casca-grossa” dos EUA. São 1.261 metros verticais de terreno sem obstáculos e mais de 10km² distribuídos em 133 pistas e 12 lifts. Em sua topografia, descidas íngremes em pistas não convencionais a 3 mil metros de altitude, gargantas e muitas árvores proporcionam um desafio com altas doses de adrenalina para os mais experientes. Por sinal, para os executivos do resort, este é o mantra a ser quebrado. Os milhões investidos nas últimas temporadas também assumem a responsabilidade de atrair cada vez mais gente. Hoje 10% das pistas são destinadas a iniciantes, 40% aos intermediários e 50% aos experts. A combinação de condições ambientais perfeitas e melhorias contínuas na manutenção e na preparação das pistas e lifts tornaram Jackson um lugar mais acessível em termos técnicos. E assim vem se transformando num dos principais destinos para atender à demanda de famílias e turistas em geral. Jackson vai além do lugar-comum dos resorts de neve. Por sinal, a quantidade de visitantes recebidos no verão ainda é maior do que no inverno. Parte desse fenômeno é atribuído aos atrativos de alguns dos principais parques nacionais americanos, como Yellowstone e Grand Tetton. O melhor retrato do DNA agregador de Jackson é o vilarejo de Tetton. Ali, lojas de chapéus customizados para cowboys dividem espaço com joalherias e galerias de arte. Restaurantes contemporâneos são vizinhos dos tradicionais saloons típicos do Velho Oeste. Hotéis de alto padrão e hostels convivem a poucas quadras de distância.

MISSÃO
Nossa missão por lá era entender as razões de Jackson ser a bola da vez entre os resorts americanos e documentar o lançamento da nova gôndola, a Sweetwater. Logo descobrimos que não se trata de uma simples gôndola, mas sim do highlight de um grande projeto cujo investimento somente no último ano chegou a US$170 milhões. Tudo para posicionar o resort como gerador de uma experiência inesquecível para os mais variados perfis de visitantes. O equipamento recém-inaugurado possui 48 cabines para quatro pessoas e cobre sozinho um trecho que anteriormente demandava três conexões com os lifts.

Com sorte, chegamos pouco antes da entrada de uma nevasca, voos noturnos foram cancelados e a previsão não erraria informando que no dia seguinte a neve estaria espetacular. Nossa equipe foi dividida em duas: parte foi conhecer o parque nacional Yellowstone a bordo de snowmobiles (motos de neve) e outra parte, como eu, optou por aproveitar a boa condição da neve prevista para manhã seguinte para conhecer melhor os principais pontos da montanha.

Powder é o termo empregado para classificar o tipo de neve ideal para prática de esqui e snowboard. A neve powder costuma se dissipar com um simples sopro, é leve, seca e, quando acumulada, fica macia e com aspecto fofo. No snowboard, quanto mais powder, melhor. Algumas regiões, como Wyoming, produzem esse tipo de neve em maior abundância, pois são lugares de clima seco e com
mais altitude, entre outros fatores.

A Jackson Hole Sports é uma loja de equipamentos completa para esqui e snowboard localizada na base da montanha e foi ali que fui apresentado ao meu guia – o experiente Beau Brown – para iniciarmos nossa jornada esportiva. A primeira descida foi apenas de reconhecimento, era importante para Beau conhecer o meu nível técnico, justamente para saber aonde ir com segurança. Mesmo estando um pouco enferrujado – resultado de um par de anos sem subir numa prancha de neve – acho que me virei bem, afinal, na segunda descida já estava em frente a um dos famosos steeps de Jackson, um barranco sinistro, cheio de árvores para contornar. Cena de sonho para qualquer snowboarder experiente. Bateu adrenalina e ali senti que a brincadeira era séria. A visibilidade era pequena, pois havia muita neblina e nevava sem parar.

A concentração no limite não dava outra opção a não ser botar para baixo e driblar as árvores no meio daquele labirinto nevado. Fizemos bons drops, e assim fomos conhecendo a montanha, descendo áreas superíngremes e cheias de neve, tomando tombos que literalmente pareciam caldos em ondas gigantes, misturando adrenalina e diversão na mesma dose. Não imaginava que o primeiro dia seria apenas um aperitivo. Animado, marquei encontro logo cedo no dia seguinte com o guia e retornei para nossa base, o Hotel Amangani.

O Amangani é um hotel de luxo pertencente à rede Aman, notória por reunir uma lista de paraísos espalhados pelo mundo. Com apenas 40 suítes, é considerado o mais luxuoso da redondeza e fica praticamente isolado no meio da montanha. Não é raro encontrar animais selvagens, como alces e veados, passeando calmamente em frente à varanda. Sua receita de privacidade, luxo, boa arquitetura e atendimento personalizado responde o porquê de Jackson se tornar cada vez mais notório e badalado, indo além dos atrativos da montanha em geral.

No dia seguinte me conectei novamente com Beau Brown. Depois de algumas boas descidas, ele me perguntou se eu gostaria de conhecer o The Big Red Box – um dos cartões- postais do resort, um trem aéreo capaz de transportar até 100 pessoas da base de Tetton Village ao topo da Rendezvous Mountain – já emendando: “Acho que sim, né, afinal você veio até aqui.’’ Foi a senha para entrarmos no trem lotado para a primeira subida do dia! Apertados como sardinha, a subida foi um balanço só, causado por fortes ventos e uma nevasca intensa que entrava pelas poucas frestas entreabertas, fazendo-me borrar de medo. Sai do trem procurando confiar em Beau, pois lá em cima ventos de mais de 70km sopravam sem dó e não havia absolutamente nenhuma visibilidade, Com certeza, o ambiente mais extremo em que já havia estado. Ali passei a ter sensação de estar no lugar errado na hora errada. Mesmo assim não desistimos.

Nos primeiros momentos da descida enxergava apenas Beau a, no máximo, um metro de distância. No lado esquerdo havia um cordão de isolamento e tudo que eu fazia era descer tentando direcionar a prancha no sentido oposto dessa área isolada e, digamos, sinistra. Seria uma manobra simples não fosse a sensação de vertigem que me acometeu. Nunca havia sentido aquilo antes. Sem visibilidade, perdi totalmente o sentido de localização e mal enxergava a superfície. Fiquei com a impressão de que a montanha girava ao meu redor. Caí da prancha meio tonto e ofegante. Sabia que estava num caminho sem volta pois já havíamos descido uns cem metros e retornar ao topo naquela condição era impensável. Procurei me manter calmo. Levantei procurando recobrar os sentidos, e assim fui descendo por mais alguns metros. Quando a visibilidade surgiu, deparei-me com um cenário épico: um bosque magnífico cercado de árvores, neve fresca, lisa e descidas de sonho. Um pedaço do céu. A partir daí consegui desenhar boas linhas com velocidade, totalmente extasiado. Fazia muito tempo que não sentia nada igual. Tinha acabado de viver uma experiência tão especial quanto inédita, e ainda sobrevivi para contar. Ao final agradeci a Beau por tudo o que ele nos proporcionou. Sem muitas palavras, disse apenas que tinha muita gratidão por aquele momento raro e mágico, e ele concordou comigo atestando que aquele não era um dia comum. Cortesia de Jackson Hole e sua montanha, que nos acolheu se mostrando de forma intensa e genuína.

O que fazer / Onde ficar
• Não perca a oportunidade de conhecer o parque nacional Yellowstone. Contato direto com a natureza selvagem e visuais de tirar o fôlego fazem parte do cardápio. É comum se deparar com manadas de bisões atravessando a pequena estrada. Procure a Scenic Safaris e reserve um dia inteiro só para isso. scenic-safaris.com

• Voltando de Yellowstone, vá direto ao Rendez-vous Bistrot. Destaque para as ostras sempre frescas, a boa carta de vinhos e os drinques exclusivos.

• Sua fissura é simplesmente esquiar o dia inteiro? Então seu lugar é o Four Seasons. Lá você encontra toda a infraestrutura necessária para obter o melhor desempenho nas pistas. Duas piscinas externas aquecidas, academia de ginástica de última geração e um spa completo para recarregar a pilha no final da sessão. É a principal opção de esqui in-out de Jackson.

• Anexo ao Four Seasons, a visita ao Handle Bar é obrigatória. Misto de restaurante e snack-bar, é o point mais animado da montanha. Pela proximidade dos lifts atrai um bom contingente de esquiadores ávidos por hambúrgueres artesanais, como o de bisão, carne típica da região e tradicional da casa.

• Deu vontade de comer massa? Precisa adicionar mais carboidrato à dieta? Não se sinta culpado. Essa sensação é recorrente depois de alguns dias intensos de esqui. A Il Villagio Osteria é um simpático restaurante italiano localizado aos pés da montanha. Prove a lasanha tradicional e escolha um bom vinho tinto na extensa carta da casa.

• Para aproveitar mais o clima do vilarejo, hospede-se no Hotel Jackson, no coração de Tetton Village. Recém-inaugurado, tem clima discreto e instalações luxuosas, seguindo uma receita de arquitetura e decoração minimalistas. Destaque para o FIGS Restaurant e sua cozinha contemporânea.

• Procura um lugar animado para comer e beber? Vá ao SPUR Dining. Considerado um dos melhores restaurantes de Jackson Hole, o Spur fica no Tetton Lodge Mountain Spa. Ótima opção de comida e hospedagem.

• Ir a Jackson e não viver o clima de Velho Oeste típico dos saloons seria imperdoável. Procure o tradicional Silver Dolar, localizado no The Wort Hotel, e ouça country music da melhor qualidade ao vivo. Outra divertida opção é o The Cowboy BAR, localizado no centro de Tetton Village com música ao vivo e cenografia característica