Trip

Uma viagem a Aix-en-Provence

Shoichi Iwashita visita o paraíso termal francês

por Shoichi Iwashita 15 Mai 2017 10:08

Diferentemente de outras cidades na ensolarada Provence, como Arles ou Nîmes, e apesar de também ter sido fundada pelos romanos com o nome de Aquae Sextiae (por conta das águas termais que até hoje brotam em algumas de suas inúmeras fontes), em Aix-en-Provence você não encontrará ruínas romanas; está tudo enterrado. Mas, ainda assim, la ville aux mille fontaines (a cidade das mil fontes, como se referia à Aix Jean Cocteau); dos muitos e coloridos mercados nas praças medievais (de flores, de frutas e legumes, de peixes, de artesanato — tem todos os dias — e a Provence é considerada “a horta da França”); e também sede de uma das minhas companhias de dança preferidas (o Angelin Preljocaj, que ocupa o Pavillon Noir, edifício contemporâneo de concreto e vidro assinado por Rudy Ricciotti, o mesmo do MUCEM de Marseille) e de um dos festivais de ópera mais importantes do mundo (o Festival d’Aix-en-Provence, tipo, imperdível), Aix é uma das cidades mais famosas e queridas — e foi das mais importantes — não só do condado independente da Provence, de que era a capital (a Provence só é anexada à França no século 15, em 1481), mas também do hexágono que ajudou a formar (“l’Héxagone” — essa figura geométrica de cinco pontas e seis lados — é um dos apelidos da França).

HOTÉIS DE CHARME DISTANTES DO CENTRO; AFINAL, ONDE FICAR?

Mas apesar de sua história como principal cidade da região por muitos séculos, de sua ligação com a arte (o pintor pós-impressionista Paul Cézanne, conterrâneo do escritor Émile Zola, nasceu e morreu aqui), e de sua arquitetura (são centenas de hôtels particuliers no coração da cidade, rivalizando em número com Paris, apesar de sempre ter tido muito menos habitantes), a oferta de hotéis e restaurantes na cidade não chama muito a atenção, principalmente no quesito que nos é caro: localização {conheça o nosso Manifesto do Hotel Perfeito, clicando aqui}. Em toda a cidade não há hotéis de luxo históricos ou tradicionais e os de charme — como o Relais & Châteaux Villa Gallici, ao norte, e o Pigonnet, da Small Luxury Hotels of the World, ao sul — ficam afastados do Cours Mirabeau (foto acima) e do centro histórico. E o único hotel com estrutura completa (piscina, elevadores, bom café da manhã), mais centralizado e que permite explorar a cidade a pé de forma confortável, o Grand Hotel Roi René, onde eu me hospedei, parece um hotel de negócios… Ou seja, decisão difícil. Na gastronomia o mesmo: apesar dos ótimos vinhos e ingredientes provençais, os restaurantes, em geral, não impressionam.

QUANTO TEMPO PASSAR?

Por isso, a não ser que você venha para o festival de ópera e precise passar alguns dias aqui, uma opção é ter Marseille como base (Aix fica a apenas 25 minutos de carro da cidade, o que para quem mora em São Paulo é nada) ou passe o dia quando deixar Avignon com destino a Marseille ou a algum outro destino da região (de Avignon a Aix dá, no máximo, 1h30 de carro). Como a principal atividade de Aix é flanar por suas ruas, tomar café no histórico e napoleônico Deux Garçons com uma visita ou outra a alguma instituição cultural, dá tranquilo para passar um dia inteiro aqui sem precisar pernoitar {continue lendo e veja o que tem para fazer mais abaixo}. Na foto, a fachada do hôtel de ville (a prefeitura de Aix), construída com essa pedra amarelada que é típica dos edifícios da cidade. Imagem: Shoichi Iwashita

E SE EU QUISER IR DE TREM À AIX?
Aix-en-Provence, assim como Avignon, possui duas estações de trem (por isso, atenção em casos de viagens ou reservas de carro): uma central e a outra bem mais distante de onde chegam e parte os trens rápidos franceses, o TGV (Train à Grand Vitesse). A viagem de TGV de Avignon à Aix-en-Provence duraria teoricamente vinte minutos entre uma estação e outra, mas como as estações TGV ficam sempre distantes do centro, a viagem (o percurso de Avignon à estação de trem TGV + o tempo do trem + mais o percurso de 25 quilômetros entre a estação de trem ao centro de Aix) acaba durando uma hora. Mais fácil ir de carro.

O QUE FAZER EM AIX-EN-PROVENCE?
PRIMEIRA PARADA: COURS MIRABEAU E O CARTIER MAZARIN

A cidade é um charme, um charme de várias épocas (sem falar que é daqui que vêm os calissons, esses doces feitos com pasta de amêndoas misturada com laranja e melão confits cobertos por uma fina camada de açúcar glaceado: deliciosos). E Aix tem seu coração no Cours Mirabeau, a larga e reta avenida com grandes calçadas para pedestres construída em 1651, que ocupa hoje o lugar da muralha que protegia a cidade medieval. O cours começa e termina em duas fontes de estilos completamente opostos (com outras duas fontes entre elas, a Fontaine des 9 Canons e a Moussue, interessantemente cobertas de musgo, por conta da água termal que brota a 18° C): a singela do “rei-bom” René d’Anjou, mais conhecido como Roi René, o último conde da Provence antes da anexação da região à França, e a neoclássica Rotonde (foto acima), uma imponente fonte com 41 metros de diâmetro e 12 metros de altura e muitas esculturas, que é um dos cartões postais da cidade. Inspirada nos corsi italianos e construída sob o comando de Michel Mazarin, um cardeal italiano irmão do outro Cardeal Mazarin, o todo-poderoso ministro de estado francês durante os governos de Louis XIII e Louis XIV, o Cours Mirabeau divide Aix-em-Provence em duas: ao norte, a cidade medieval com suas ruas estreitas e tortas, construções de aspecto meio sujo e descuidado (que eu adoro, edifícios antigos e muito limpos ficam parecendo cidade cenográfica), e inúmeras praças onde ocorrem diariamente os mercados de frutas, legumes e flores; e, ao sul, a parte burguesa, construída na mesma época e parte do projeto do Cours (por isso seu nome Cartier Mazarin ) com suas ruas planejadas, praças simétricas com fontes (na terceira foto, a Place des Quatre Dauphins), que chegou a abrigar quase 200 hôtels particuliers {para saber o que é um hotel particulier, clique aqui}, todos construídos nos séculos 17 e 18 (para efeitos de comparação, em Paris, cidade 50 vezes maior, eram 400). Nem preciso dizer que o cours se transformou num palco social, o lugar para senhores e damas da sociedade passearem, a pé ou em carruagem, indo e voltando, para verem e serem vistos (e até hoje é assim: nos fins de semana, não raro você vê à noite, carros indo e voltando pelo Cours :-). A maioria dos hôtels particuliers segue como residências dos descendentes das famílias e não estão acessíveis. Alguns se transformaram em bancos (tente entrar na agência do BNP no número 6 do Cours Mirabeau) e outros, como o Hôtel Caumont (na segunda foto, os jardins do hôtel ), se transformaram em institutos culturais.

PARADA PARA UM CAFÉ – OU UM ROSÉ – NOS DEUX GARÇONS

Instalado numa construção dos anos 1660, fundado em 1792 e até hoje com decoração original (trabalhos em madeira, espelhos, algumas mesas), no Les Deux Garçons Paul Cézanne passava suas tardes jogando cartas com o amigo Émile Zola (e se eles visitassem o café hoje ainda reconheceriam os ambientes). Mas não só. Pense em Piaf, Picasso, Cocteau, Trenet, A comida, ao estilo rápido, brasserie, não é lá essas coisas e paga-se pela história. Mas, de qualquer forma, as agradáveis mesas no calçadão do Cours Mirabeau e os ambientes internos, decorados ao estilo Directoire (a transição entre o estilo Louis XVI e Empire), valem a visita.

PASSAGE AGARD, UMA GALERIA SECRETA

Do Cours Mirabeau, quase em frente à fonte do Roi René, uma discreta abertura na parede (terceira foto acima) — quase secreta, de onde nada se vê — te leva para uma rua estreita que, nos seus 90 metros, liga o Cours à Place Verdun, a imponente praça onde fica o Palais de Justice, o tribunal superior de Aix. Com algumas partes cobertas e outras abertas, várias lojas ocupam essa galeria privada idealizada por Félicien Agard no fim dos anos 1840 que nunca fecha suas portas.

PRAÇAS E MERCADOS DE FRUTAS, LEGUMES E FLORES

Adentrando a cidade medieval pela rue Nazareth (estamos de volta ao Cours Mirabeau), entre à direita na rue Espariat e caminhe alguns metros até a vá direto para a Place d’Albertas (primeira foto), uma das minhas preferidas em Aix-en-Provence. Seguindo a moda parisiense das places royales, Monsieur Albertas compra todas as casas em frente ao seu hôtel particulier, manda demolir, e constrói em 1742 esta praça retangular (uma versão mais simples da Place Vendôme); a fonte só viria em 1912. De lá, suba a rue Aude que se transforma na rue Maréchal Foch e, pronto, você já estará na Place Richelme, onde acontece todos os dias, das 8h às 13h, o mercado de frutas e legumes (não só: tem também peixes, queijos, mel, azeites, tudo de produtores locais). E mais uma quadra na rue Maréchal Foch, você já estará na Place de l’Hôtel de Ville, a praça da prefeitura da cidade (cujo edifício possui uma torre medieval com um relógio anexa; terceira foto), onde acontece todos os dias o mercado de flores.

CATEDRAL DE SAINT-SAUVEUR

 

Subindo pela mesma rue Maréchal Foch, que depois da Place de l’Hôtel de Ville, ganha o nome de rue Gaston de Saporta, você vai chegar à catedral da cidade, a Saint-Saveur d’Aix-en-Provence, construída sobre as ruínas do que era o fórum romano de Acquae Sextiae. A nave central, ao estilo gótico, é “só” do século 13 (mesma época da Catedral de Notre-Dame em Paris), mas o batistério, construído no século 6, é circundado por colunas romanas antigas do século 2 e o espaço batismal fica dentro de um polígono de oito lados (Deus fez o mundo em seis dias, descansou no sétimo e, por isso o número oito significa a eternidade).

PAVILLON DE VENDÔME, BELO PRÉDIO COM UM ESPAÇOSO JARDIM

A rue Gaston de Saporta na porta da catedral Saint-Saveur já mudou de nome. Mas prossiga nela e entre à esquerda na avenida moderna Jean Jaurès. Siga por 250 metros, entre à esquerda na Cours Sextius e lá você vai encontrar duas outras atrações de Aix: a Thermes Sextius, um spa com várias saunas, tratamentos e uma linda piscina ao livre com jardim e ruínas romanas (terceira foto, a piscina está atrás desta torre), e, pela Rue Vendôme, a entrada para um dos edifícios mais fotogênicos da cidade, o Pavillon Vendôme — outro antigo hôtel particulier do século 17 –, no meio de um belo e espaçoso jardim de 9.000 metros quadrados, que abriga hoje exposições temporárias de arte moderna e contemporânea.

E para acabar a sua visita, há de se visitar ainda mais ao norte da cidade (e uma subidinha cansativa, principalmente sob o sol) o atelier deste que foi seu mais célebre nativo:

PARA CÉZANNE, A LUZ DA PROVENCE BASTAVA

Paul Cézanne, o pintor pós-impressionista que foi uma das bases do Cubismo, nasceu e morreu — sem qualquer reconhecimento, vale lembrar — em Aix-en-Provence. E apesar de ter ido para Paris, onde conheceu outros pintores que também se tornariam célebres décadas depois, nunca foi buscar a luz de outros lugares; a luz da Provence lhe bastava (como Turner que fez o Grand Tour). E, em Aix, você pode não só avistar o monte Saint-Victoire, que foi a inspiração de mais de OITENTA quadros de Cézanne (ele pintava repetidamente os mesmos temas), como também visitar seu atelier, que não tem seus hoje valiosíssimos quadros mas ainda abriga suas roupas, seus pincéis e muitos objetos originais, sempre de materiais simples (as esculturas eram de gesso e não mármore, vidro em vez de cristal, ferro em vez de bronze), que compunham suas naturezas mortas. É como se ele fosse chegar a qualquer momento.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.