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Um Mandarin Oriental em Nova York

Quando a relação entre a localização de um hotel e o destino consegue ser perfeita

por Shoichi Iwashita 6 Mar 2018 10:20

Se a principal preocupação — e o maior desafio — de toda rede internacional de hotéis de luxo é encontrar um lugar especial nos destinos mais disputados do mundo para instalar sua bandeira, é preciso dizer que o Mandarin Oriental de Nova York, exatamente na linha que separa Midtown do Upper West Side, em frente ao Columbus Circle (acho que a única rotatória da cidade!), está, sem qualquer dúvida, na melhor localização de Manhattan para o viajante; e é o mais bem localizado dos Mandarin que conheço (e, olha, que a localização de quase todos os outros é excelente). O hotel aberto em 2003 oferece tudo o que a gente pode esperar-precisar-desejar (com algumas poucas ressalvas que você lê mais abaixo): 1. vista incrível para o Central Park, que custa geralmente US$ 200 (essa é a diferença no preço das diárias entre os quartos voltados para o parque e os com vista para o Rio Hudson), e vale toda a pena; se não fosse o Trump Tower atrapalhando na frente, ela seria ainda mais absurda; 2. acessibilidade, a 100 metros planíssimos da estação de metrô 59 St – Columbus Circle que te leva para o Meatpacking e o Whitney e o High Line e as galerias de arte de Chelsea e o West Village — nosso bairro favorito na Big Apple — em apenas três paradas! (e quatro para o SoHo); 3. gastronomia, com os ótimos bares e restaurante do hotel e ainda acesso privativo (no terceiro andar) para os Shops at Columbus Circle onde estão não só dois dos cinco restaurantes três estrelas Michelin de Nova York, o Per Se e o Masa, mas também uma filial da Bouchon Bakery & Café (também do Keller) e uma enorme-e-linda-linda loja da Whole Foods (para passar todos os dias e comprar um monte de coisinhas saudáveis para comer no quarto); 4. atividade física, já que além de poder correr no Central Park, ali na porta, e utilizar a academia perfeita com piscina de 23 metros de comprimento no 36º andar do hotel, dá ainda para treinar na Equinox ao lado (e eu gosto mais porque, além dos sucos detox feitos na hora da Juice Press, dá também para interagir com os locais, né?; basta apresentar sua chave na recepção e assinar uma lista); 5. e ainda acesso fácil a grandes concertos, balés, óperas, apresentações de jazz, já que estamos a um quarteirão do Carnegie Hall, a três do Lincoln Center e no mesmo prédio do Jazz at Lincoln Center, que também fica no Time Warner… Ou seja, daria para passar dias aproveitando o melhor do mundo — tanto no hotel quanto na cidade — sem sair desse quadradinho (e eu poderia escrever ainda mais um parágrafo sobre as coisas incríveis para fazer a poucos passos do hotel, por isso não deixe de conferir as experiências quintessenciais da cidade no guia Simonde de Nova York, clicando aqui).

LOBBY DO HOTEL A 85 METROS DE ALTURA, A CHINA PRESENTE E O PRIVILÉGIO DE UMA VISTA PANORÂMICA (E PRIVATIVA)
Ocupando do 35º ao 54º dos 55 andares de um dos dois prédios que formam o complexo de escritórios, apartamentos, shopping, supermercado, restaurantes, casa de shows e estúdio da CNN (é aqui que grava o Anderson Cooper!) conhecido como Time Warner (e não se deixe enganar pelo gigantismo exterior das torres gêmeas, pois a sensação é a de que se está em um hotel boutique), o Mandarin Oriental, New York tem 244 quartos e suítes, ou com vista ou para o rio Hudson ou para o Central Park, sendo que o menor dos quartos possui espaçosos 37 metros quadrados (e todos eles possuem banheiras separadas do box do chuveiro; ou seja, um luxo na cidade cujo metro quadrado é um dos mais caros do mundo). E se o hotel em grande parte parece um hotel de design internacional, é no caminho entre o elevador no lobby no 35º andar e a porta do seu quarto que você será lembrado de sua herança chinesa, com os muitos funcionários asiáticos (chineses ou descendentes, talvez), o trabalho em metal belíssimo nas portas dos elevadores, a padronagem estilizada dos tapetes das áreas comuns e as portas vermelhas dos quartos (mas tenho a impressão de que nos hotéis mais novos como em Paris e Milão, a rede tem optado por algo mais contemporâneo-ocidental).

No quarto, o destaque é a janela, com vidro do chão ao teto e de uma extremidade à outra (justamente por isso, o blackout deveria vedar 100% a luz, mas desta única vez eu não me importei de ser acordado pois a vista que tive do sol nascendo com o céu azul-azul valeu o sono perdido), e a chaise longue estrategicamente posicionada para que você relaxe com a cidade-que-nunca-dorme a seus pés (e é bastante interessante a experiência de se ter essa vista privilegiada de forma completamente privativa, sem estar em um restaurante rooftop ou em um observatório público; me peguei várias vezes, em total silêncio, contemplando a paisagem). De resto, todo o conforto de que precisa o viajante contemporâneo: muitas tomadas espalhadas pelo quarto, TV enorme com canais do mundo todo (tem até Globo News), mesa de trabalho com todas as saídas possíveis, wi-fi potente, enxoval de primeira qualidade, banheiros de mármore (achei interessante a mistura de pedras, chão e paredes de mármore creme e pia em granito preto), e silêncio total: nenhum barulho vindo dos corredores, dos quartos ao lado ou do exterior, mesmo a 52 andares de altura em uma das regiões mais populosas do planeta (e silêncio em Nova York é das experiências mais raras). Só senti falta de um controle geral para acender e apagar as luzes (e como os dimmers ficam junto das lâmpadas por dentro das luminárias, sempre rola aquele momento “cegueira” para desligar cada uma delas; não muito agradável quando se está com sono).

QUEM TOMOU BANHO NO MEU QUARTO?
Quando fiz check-in e subi para o quarto, o box do chuveiro estava molhado como se alguém tivesse acabado de tomar banho. E foi estranho imaginar que alguém, que eu não sabia quem era, tinha acabado de estar ali, no quarto que era meu. Quando fui dormir, minha cabeça voltou ao assunto. Fiquei pensando que na noite anterior, existia(m) outra(s) pessoa(s), que eu nunca vou saber quem-era(m)-de-onde-vinha(m)-para-onde-foi(ram), ali, assistindo TV, trabalhando no computador, mexendo no celular e dormindo, como eu, naquele mesmo colchão. Interessantemente, apesar de mais de trinta anos viajando, foi a primeira vez que essas ideias me passaram pela cabeça. Aí percebi que os quartos dos hotéis devem ser preparados para o próximo hóspede como se ele fosse a primeira — e única e última — pessoa a utilizar aquele espaço tão íntimo.

OS BARES DO GRUPO ALINEA DE CHICAGO EM DUAS EXPERIÊNCIAS NO MO NEW YORK
Não só dá para ser muito feliz com os vinhos excepcionais da carta do restaurante principal do hotel, o Asiate. Para os fãs de coquetelaria séria, duas-instituições-em-uma do Alinea de Chicago (considerado um dos melhores restaurantes e bares do mundo) ocupam desde 2017 o 35º andar do Mandarin Oriental, New York: o Aviary, com vista matadora para o Central Park e o skyline de Midtown, aberto o dia todo para drinques e comidinhas, e o speakeasy Office, mais intimista, que abre às 17h30 e ocupa uma sala fechada no melhor estilo clube inglês, acessível por uma porta escondida atrás do bar-cozinha do Aviary (tem até um código para entrar). E apesar de se ter a opção à la carte (que pode ser interessante para um drinque-com-vista ao entardecer), para a experiência completa vá direto em uma das opções de menu-degustação, com três, cinco ou oito etapas de coquetéis com alto nível de complexidade + comidinhas elaboradas, sempre servidas em pequenas porções impecavelmente apresentadas (aqui, são os pratos que harmonizam com os drinques e não o contrário; veja as fotos abaixo). É a arte da coquetelaria levada aos extremos: são mais de trinta tipos de gelo e copos desenhados exclusivamente para cada tipo de drinque; misturas preparadas na casa com ingredientes naturais; garçons esbeltos, bem vestidos e que sabem o que falam. É só uma pena que o hotel tenha “privatizado” a vista do lobby para o Aviary, já que os hóspedes — que antes tinham acesso livre à vista — só podem usar o espaço quando o bar não está em operação (e ele já abre às 11h30 da manhã para almoço e/ou brunch nos fins de semana).

ONDE TOMAR CAFÉ
Esse não é um problema exclusivo do Mandarin (e até preciso escrever um dia sobre o assunto), mas eu sempre testo o conhecimento dos concierges, ainda mais quando conheço bem a cidade. E confesso que já me decepcionei com muitos profissionais que portam na lapela o broche da Clefs d’Or, uma associação mundial que reúne a crème de la crème dos concierges (a minha impressão é que, muitas vezes, eles estão mais bem preparados para atender a pedidos extravagantes que dar dicas relevantes de restaurantes e programas para o viajante sofisticado). Bom, cheguei à conciergerie do hotel com um pedido: queria uma dica de café charmoso onde tomar um bom espresso. Só que eu não estava preparado para essa resposta, de um profissional com o broche-das-chaves-de-ouro: “Hmmm, receio que não há algo assim aqui perto, mas tem um Starbucks aqui em frente”, uma vez que considero o café da Starbucks uma das piores coisas do mundo (não importa onde, em São Paulo, Nova York, Paris, Tóquio, é tudo igual: sempre aquele torra escuríssima dos grãos que faz o café ter gosto de pneu queimado; e eu me recuso a tomar café em copo de papel)… Tomar um café com croissant de amêndoas no excelente-mas-dentro-do-shopping Bouchon, no térreo, teria sido melhor… Assim, se além de todas as coisas incríveis citadas no primeiro parágrafo desta matéria, você também quiser tomar um espresso perfeito, em um café charmoso, de rua, perto do Mandarin (a 600 metros), é só ir ao Boule & Cherie, que também tem comidinhas deliciosas e é tudo aquilo o que a gente gosta e espera de um café.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.

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