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Tel Aviv: uma estranha no ninho em Israel

Tel Aviv, na contradição maior da breve história do País, vibra em missão de paz e amor

por Hermés Galvão 5 Ago 2016 12:38

Longe de casa e do lugar comum, Tel Aviv divide opiniões como a guerra que corre por fora da redoma cultural que a protege da velha crise étnico religiosa e a aproxima de um mundo mais profano e libertário. Fiquemos alheios à batalha, aliados com quem não se deixa levar pelas agências de notícia (e de viagem) e partimos para dentro de sua rotina – mesmo que in loco a impressão é de se estar mais em zona de conflito que de conforto. Ainda assim, na contradição maior da breve história de Israel, a “cidade branca” vibra em missão de paz e amor com locais e forasteiros experimentando ao vivo e em cores um novo testamento do movimento hippie, na mesa do bar ou de frente pro mar.

Existe no ar uma boemia à moda antiga, uma noite relaxada que lembra a buena onda de Ibiza (fora de temporada) e Barcelona – e nos faz esquecer dos problemas, os deles e os nossos. E o que acontece dali para fora não intimida seus visitantes e muito menos seus habitantes, desarmados de preconceitos e ideias vagas que servem apenas para afastar logo de cara o mais bem aventurado dos excursionistas: temendo o pior e sem querer descobrir o melhor, turistas nem ousam chegar. E assim, desembarcam apenas bem-vindos viajantes ávidos por novos sabores, amores e, claro, qualquer coisa que se sinta de mais místico em pleno umbigo do mundo.

Ocidental vista de cima, com seus arranha céus de Downtown que lembram qualquer cidade americana, e prédios de orla tais e quais os hotéis de Cancún (isso não foi elogio), vista por dentro Tel Aviv é Oriente Médio na veia, alma e coração. Mas com uma rara exceção: ali, como em nenhuma outro pedaço de terra na região, santa ou não, dividem cordialmente o mesmo espaço gente sem religião, judeu com torá na mão e muçulmano pregando o alcorão. Tolerantes para assuntos de ordem mundana, como uso de drogas e homossexualismo (a propósito, a cidade é a maior meca gay pra lá de Marrakesh), seus cidadãos têm pavio curto em tudo quanto é mais sagrado e se toleram no limite do insuportável – como a questão religiosa é inflamável, qualquer farpa pode causar incêndio. Não brinquemos com fogo, mudemos de assunto.

À primeira sensação, o estado de espírito de Tel Aviv é tão brasileiro quanto o Rio de Janeiro. Existe a praia, que rege o estilo de vida da cidade e nos empurra para às margens de um Mediterrâneo de águas limpas e mornas e para dentro das ciclovias que contornam a orla, jardins raquíticos, restaurantes, bares e clubes que fazem o clima ser de eterno verão à beira-mar. Existe também a decadência de uma paisagem urbana esquecida no passado que (ainda) não foi passado a limpo – o que pode ser um charme a mais dependendo do ponto de vista. Entre entulhos, escombros e construções contemporâneas de gosto nada duvidoso (é inegável: são horrorosas mesmo), há ali a maior concentração de edifícios Bauhaus do mundo, erguidos por arquitetos judeus fugidos do regime nazi na década de 30. Boa parte anda ora em mau estado, ora em mau uso, mas vê-se claramente a geometria pura da turma de Walter Gropius por trás das fachadas modernistas hoje cobertas de fios elétricos, buracos de ar condicionado e toldos temporários que tornaram-se definitivos com o passar do tempo – soluções de improviso feitas por um povo desde sempre andarilho que não mora, mas vive assentado e acostumado a levantar acampamento na calada da noite. Então, fora de cogitação pensar em reforma para quem não sabe o dia de amanhã, certo?

À luz do sol que brilha o ano inteiro (e quando a pino parece que nunca mais vai se pôr), bebemos e comemos divinamente e em porções ideais, nem muito e nem quase nada: homus é o prato base e o que vem depois é uma viagem ao império dos sentidos: especiarias, grãos e pães, peixes temperados com coentro e cominho que se misturam ao perfume de zahtar e menta, limão e jasmim vindos das cozinhas e dos jardins que crescem à força em solo pedregoso e castigado pelo calor. No mercado de Carmel, entre barracas onde são vendidas desde as onipresentes mãos de Fátima a quipás e quinquilharias made in China, estão as imperdíveis libanesas que preparam na hora sanduíches no pão folha com iogurte, pepino, tabule, gergelim e tomilho. Irresistíveis os doces melados com extrato de tâmaras e de flor de laranjeira.

O cair da noite em brisa convida a todos para sair de casa. Cabelo ao vento, gente jovem reunida no olho da rua, pelos terraços e calçadas tomadas por mesas e cadeiras no bairro boêmio de Neve Tzedek e no centro histórico de Yafo, cidade portuária de 4 mil anos colada a Tel Aviv, fundada em 1909 – uma recém-nascida para os padrões locais. Pelas esquinas, vê-se soldados em puberdade explodindo de hormônios e loucos para bombar na night e não no front, judeus do mundo inteiro miscigenados, de pele ocre ou olhos azuis, sardas e pestanas longas, com olhares profundos e papo firme. Lá, onde os hipsters nem têm vez, a ordem é não aparecer e sim se deixar ser e se deixar levar pelo desconhecido, seja endereço ou pessoa. Ser visto é mera consequência e caso você repare que está sendo reparado, seja discreto: talvez eles estejam olhando apenas a cor de sua aura ou a pulsação do seu oitavo chakra. Podes crer. Cachorros e gatos (muitos!) zanzam à procura de abrigo e comida, imigrantes etíopes misturam-se a palestinos de uma simpatia extrema. Apesar da tensão constante, seja em tempos de guerra ou em cessar-fogo, a vibração é latente. Talvez por nunca viverem uma trégua de fato, israelenses de nascimento e adoção seguem os dias em ritmo de festa, sem pensar muito no futuro. E sem medo de ser feliz.

Hermés Galvão

Hermés Galvão nasceu em 1975, no Rio de Janeiro. É jornalista e cronista de Carbono Uomo e Vogue Brasil. Autor do livro “Como Viajar em Tempos de Crise Financeira e Existencial”. Vive pelo mundo, sem destino conhecido, entre Barcelona, Roma e os espressos mal tirados dos aeroportos do Brasil.