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Taormina: A cidade siciliana com paisagens improváveis

Uma visita ao paraíso italiano nunca tocado pela máfia

por Shoichi Iwashita 17 Jul 2017 11:07

Assim como o cannolo e a retórica, a máfia foi inventada na Sicília. A maior ilha do Mediterrâneo, a “bola chutada pela bota” que é a península itálica, a Sicília pagou um preço alto por sua localização estratégica no Mar Mediterrâneo, nos quase dois mil anos em que a região foi considerada o centro do mundo. E quando perdeu a importância, na transição entre o feudalismo e uma tentativa de Estado moderno (a Sicília desde o Império Romano foi totalmente desflorestada para ser o celeiro da Itália continental graças ao seu solo vulcânico, logo, rico), a ilha viu o surgimento da Cosa Nostra, não só uma instituição criminosa que ultrapassou continentes, mas também uma organização social cujas origens explicam muito a história, a geografia, a alma — e o atraso — dessa ilha. Mas as “famílias” (a famiglia, nem sempre consanguínea, é a unidade básica da máfia) nunca estiveram presentes no nordeste siciliano, onde fica Taormina, apesar de sua presença influente até hoje no lado oeste, onde estão Palermo e Corleone. Talvez por isso, apesar de ter atraído viajantes das mais diversas nacionalidades e estirpes desde a Grécia Antiga — os gregos construíram aqui um teatro no topo de uma colina com vista para o vulcão Etna; mais dramático impossível — e feito parte do Grand Tour, Taormina tenha conseguido se manter como o mais charmoso representante da dolce vita na Sicilia.

TAORMINA E OS TRÊS GERMÂNICOS
Goethe já a havia visitado em 1787 e elogiado suas paisagens em sua obra Italian Journey. Mas foi uma aposta entre um pintor bem-nascido e críticos de arte franceses em 1863 que colocou Taormina no mapa de nobres, escritores e artistas (pense em D.H. Lawrence e Jean Cocteau; Oscar Wilde colaborando com Wilhelm von Gloeden; os reis da Inglaterra Edward VII e George V; Rotschilds, Morgans e Vanderbilts; Truman Capote). Ninguém acreditava naquela paisagem que misturava as ruínas de um teatro grego do século 2 a.C., a vegetação em contraste com o azul do Mar Jônico, o sol da Sicília sobre o enorme e ameaçador Etna e seu cume repleto de neve (o Etna, três vezes maior que o Vesúvio, é o vulcão mais alto da Europa e um dos mais altos e ativos do mundo, com 3330 metros de altitude), pintada por Otto Geleng, prussiano nascido em Berlim (naquela época a Alemanha ainda não existia) que foi acusado de “imaginação desenfreada” pelos críticos que foram desafiados a conhecer a paisagem in loco. Na foto acima, o palco Teatro Antico di Taormina, no topo de uma colina, o segundo maior teatro grego da Itália, com cenário “natural” que inclui a vista para a Baía de Naxos e o vulcão Etna. Me disseram que assistir a um espetáculo aqui quando o vulcão está em atividade é emoção ao quadrado. Imagem: Shoichi Iwashita

A CIDADE DOS MIL TERRAÇOS
Ainda hoje uma pequena cidade com 11 mil habitantes, Taormina é uma cidade íngreme, quase vertical, onde além de praias (de pedras, atenção, leve suas sapatilhas) como a charmosa Isola Bella (duas praias-ferradura, na primeira foto, que se encontram numa ilhota cinematográfica onde Dolce & Gabanna fotografou sua campanha de 2013), os terraços existem em abundância e em diferentes altitudes (use e abuse do carro, dos ônibus e do teleférico). Dos terraços dos Giardini Publici (os jardins hoje públicos que eram parte da residência de uma nobre inglesa) ao que é considerado o centro da cidade, a Corso Umberto, onde estão bares e restaurantes a-não-perder como o Wunderbar e o Vicolo Stretto (restaurante com o mesmo nome da rua mais estreita da cidade, com claustrofóbicos 50 centímetros de largura), você vai se deparar com o amplo e charmoso terraço que é a Piazza IX Aprile (terceira foto), com vista para o mar e para o Etna de um lado, e cercado por duas igrejas: a barroca San Giuseppe (que não é a Catedral, o Duomo, também ao longo da Corso Umberto) e a Sant’Augustine, uma igreja convertida em biblioteca municipal onde você pode encontrar diversos relatos de viagens pela Sicília publicados a partir dos diários dos Grands Tours, essas viagens que duravam meses (nesta época, só os pobres trabalhavam) e viraram moda entre ricos e nobres, principalmente ingleses e nórdicos, dos séculos 17 ao 19, e passavam, da França à Italia, pelas principais cidades e regiões que formaram culturalmente o mundo ocidental.

Mas o terraço mais bem posicionado para a vista de Taormina, a baía de Naxos e o monte Etna — e com mesas e drinks, perfeito para um aperitivo no fim da tarde, sendo você hóspede ou não — é o do Grand Hotel Timeo, antiga residência dos Floresta (foto acima, onde os críticos de 1864 se hospedaram na aposta de Geleng), primeiro hotel da cidade e que, recebendo por longas temporadas personagens ilustres como o Kaiser Wilhelm da Alemanha e o rei Edward VII da Inglaterra (filho da rainha Vitória), transformou Taormina capital da alta sociedade no Mediterrâneo. Com quartos e salões que nos fazem voltar ao elegante começo do século 20, um amplo jardim em desnível por onde você acessa a piscina e o spa, e localização privilegiada (ao lado da Corso Umberto e colado ao teatro grego; quando tem ópera os hóspedes muitos famosos possuem um acesso privativo do hotel para o teatro), o Timeo hoje pertence à rede Belmond, que possui outra propriedade na cidade: o Villa Sant’Andrea, mais contemporâneo, mas também com enormes jardins e praia privativa (os hóspedes de ambos os hotéis possuem transporte gratuito o dia todo para usarem as estruturas de ambos os hotéis).

A GASTRONOMIA SICILIANA
Tendo sido a Sicília ocupada por cartagineses, fenícios, gregos, bizantinos, romanos, árabes, normandos, espanhóis, austríacos — e até italianos — nos últimos 3500 anos, e com rico solo vulcânico e sol abundante que proporcionam belos e saborosos tomates, berinjelas e figos da Índia; amêndoas e pistaches (Bronte, a região onde se produz o que é considerado o melhor dos pistaches, está aos pés do Etna); e uvas que hoje rendem bons vinhos (pense em Nerello Mascalese e Nero d’Avola, uvas típicas da Sicília), não se esqueça de que você está numa ilha com uma oferta abundante de peixes e frutos do mar (peixe-espadae e atum são os destaques). E a pasta con le sarde, uma massa com sardinhas, erva-doce, uvas, açafrão e pinoli, é talvez o melhor símbolo desta mistura de culturas e sabores que fazem parte da história da ilha (que não agrada a todos os viajantes, principalmente aqueles acostumados com a gastronomia italiana continental). E para fechar a refeição acompanhada de um cálice de Marsala (o vinho de sobremesa siciliano) — e antes do limoncello (lembre-se que os árabes introduziram o limão na ilha, que se adaptou tão bem que hoje é considerado um dos mais perfumados da Itália) — não tente decidir entre cannoli (foto acima) e cassate, porque a qualidade da ricota de ovelha que é usada nessas duas sobremesas típicas é imbatível; raramente você as provará tão boas e tão frescas em outros lugares do mundo, mesmo quando preparados por bons chefs italianos expatriados. São inesquecíveis.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.

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