Trip

Surf Trip na Nicarágua

Visitamos o país da América Central que tem algumas das ondas mais fabulosas do planeta

por Luciano Ribeiro 1 Fev 2018 11:35

Ao chegar ao aeroporto em Manágua, eu ainda tinha poucas informações sobre a Nicarágua, o país onde resolvi passar dez dias de férias. Sabia da influência do exército sandinista – mesmo que por conta do The Clash, minha banda predileta dos anos 1980 – e que era o maior país da América Central. Que fazia fronteira com Costa Rica ao sul e Honduras ao norte. Mas o que iria descobrir nos dez dias seguintes era tão mais interessante que fez com que eu tivesse vontade de voltar para lá todos os anos, pelo menos uma vez, para passar, pelo menos, uma semana.

A mágica acontece a duas horas e meia de carro ao sul da capital, Manágua, em direção à Costa Rica. O caminho é todo em estrada de mão dupla, mas o asfalto é decente. Pelo trajeto, o que mais se vê são pulperias, armazéns improvisados batizados sempre com nomes de mulher – imagino que seja a dona ou esposa dos donos. O clima em agosto é úmido, quente, mas fresco, e o cheiro lembra a minha infância: terra molhada (costuma chover nesta época do ano). Durante todo o trajeto você pode ver um vulcão ativo, poucas plantações, muito verde, construções baixas, casebres, cercas danificadas, crianças correndo sem camisa e descalças, ônibus completamente pintados, como os mexicanos, desenhados com cores chamativas. Pobreza, mas não miséria.

Depois de percorrer 180 quilômetros, cheguei à minha Disney, que se chama Hacienda Iguana. Trata-se de um condomínio fechado, bem cuidado, espaçado, com estrada de terra aplanada, de casas grandes, confortáveis e refrigeradas. Na fazenda, foi construído um campo de golfe de nove buracos, um dos melhores da Nicarágua, ou Nica, como os locais se referem ao país. Você topa sempre com seguranças e equipe de manutenção. É comum sair e deixar a porta aberta – e são raras as casas muradas. Ali, fala-se inglês mais do que castelhano. Os frequentadores são americanos da Califórnia e de Miami, neozelandeses, canadenses, australianos e brasileiros. Usa-se tanto dólar como córdoba, a moeda local.

Mas a atração principal da Hacienda Iguana é a praia de Colorado, com acesso apenas aos hóspedes ou a quem chega de barco. Colorado é um dos beach breaks (quando o fundo é de areia, e não pedra ou coral) mais famosos do mundo. A onda é espetacular. Basta dizer que encontrei ali Wiggolly Dantas, atleta de Ubatuba que pertence à elite do circuito mundial de surfe, e o havaiano Jamie O’Brien. “Vou competir em Trestles, na Califórnia (a etapa foi realizada em setembro), e a onda daqui é semelhante, fácil, muito manobrável. Fora que a água é quente e o clima é delicioso”, disse Wiggolly.

Só entra na Hacienda Iguana quem comprou ou alugou casa no condomínio, e é preciso mostrar seu passaporte comprovando isso. Em frente às ondas, foi montado um beach club, com piscina, restaurante e bar. É ali que os surfistas se concentram no fim de tarde para comentar suas manobras, o swell e a previsão dos próximos dias. Fotógrafos tentam vender suas imagens para os atletas amadores. Ali também são servidos tacos, burritos, cafés sempre preparados na french press, cervejas Toña, a predileta dos locais. Você também assiste a um pôr do sol espetacular.

Em Colorado quase nunca venta, então, diferentemente de muitos picos no mundo, você não precisa necessariamente surfar de manhã. Tem onda o dia inteiro, mas, claro, dependendo da maré e do fundo, nem sempre vai estar bom. Hacienda Iguana é um destino em si, assim como o Mukul, melhor hotel do país, que fica a apenas 15 minutos dali. Para entender o serviço, a decoração, a qualidade do atendimento, o conforto dos bangalôs e a gastronomia, é preciso dizer que o Mukul foi construído para ser o refúgio praiano de Carlos Pellas, o homem mais rico da Nicarágua. Pellas é considerado pela revista América Economíca um dos 50 personagens mais influentes da América Latina. A Bloomberg crava que ele é o primeiro bilionário do país. Dono do rum Flor de Caña e da concessão da Toyota, entre mais de 20 outras empresas, Pellas comprou milhares de hectares para criar ao sul do país um dos mais impressionantes resorts do mundo – e um dos poucos, com esse nível, que não pertence a uma grande rede hoteleira.

O Mukul reflete o bom gosto da elite local. Isso fica claro no paisagismo exuberante, nos guardanapos, nas louças, nas luminárias, no uniforme do staff, nas mesas de teca, nas cabeceiras de tecido de cana-de-açúcar, nas cercas de barris de rum e nos móveis criados por artesãos da região. Nos dias que passei ali, costumava acordar cedo para fazer aula de ioga num lindo espaço aberto, com vista para o mar. O professor é um californiano que preferiu viver no clima úmido e quente da América Central. Em seguida, logo depois de me alongar, seguia para tomar café da manhã em frente à praia. O serviço à la carte traz iguarias como gallo pinto, um arroz e feijão fritos, e o nacatamal, prato substancioso à base de milho e batata, além dos clássicos french toast e ovos beneditinos. E para um aficionado por café como eu, uma surpresa. Na Nicarágua os grãos e o método de preparo são levados a sério. Todos os dias eu bebia grãos moídos na hora servidos na french press. Sempre quente, fresco e delicioso.

Depois da refeição, descia para mergulhar na praia de Manzanillo, onde o acesso é restrito aos hóspedes. É lá também onde quebra uma das melhores ondas de todo o país. No canto esquerdo, quando a ondulação acerta, com tamanho, rolam ondas perfeitas, longas, fáceis e manobráveis. Não à toa, durante a minha estada, o hotel hospedava o havaiano Jamie O’Brien, um dos melhores e mais corajosos free surfers do mundo.

O Mukul mantém uma parceria com a Tropic Surf, empresa australiana especializada no esporte e também presente nas redes Four Seasons (Maldivas) e One&Only (Los Cabos, México), entre muitas outras. A Tropic Surf costuma recrutar surfistas locais e serve como um concierge para os praticantes do esporte. Você não precisa, por exemplo, se informar sobre ondulação, vento etc. Basta perguntar à equipe onde ir surfar e ela vai te dizer as praias que recebem as melhores condições.

Nos quatro dias que passei no Mukul, infelizmente, o swell não entrou, o mar parecia lagoa. Foi bom para aproveitar os bangalôs, a gastronomia, arriscar, pela primeira vez, tacadas no campo de golfe – um dos melhores do país, fazer massagem no spa, descansar dos dias intensos de Colorado. Ao todo, são 37 acomodações. Os bangalôs são divididos em categorias (beach villas e bohios). Fiquei no bohio, bangalô com vista para o mar e ofurô. E fui embora com muita vontade de voltar todos os anos para este país que, até então, nunca havia estado na minha wish list e passou a ser um destino obrigatório nas minhas férias futuras.