Trip

Sardenha+Sicília

O olhar do chef Renato Caleffi e do publicitário Alexandre Carvalho sobre os destinos.

16 Abr 2018 14:56

Texto e fotos Alexandre Carvalho e Renato Caleffi

Vivemos em uma época em que sabemos que viveremos mais. Por outro lado, precisamos aprender a conviver com isso. Talvez um bom começo seja observar o legado e os hábitos de vida de algumas culturas, em vez de se prender simplesmente às inovações tecnológicas e científicas do mundo contemporâneo. É o que estamos investigando há dois anos, um chef de cozinha e um publicitário ávidos pelo comer autêntico. Buscamos comer bem e de maneira saudável. Comida de origem, alimento de verdade, com baixíssimo ou zero processamento industrial. Em nossos roteiros de viagem o alimento reina muito mais pelos seus atributos do que pelo excesso de superproduções estreladas. Nunca é comida anônima, comida de fast-food; é sempre aquele prato à sua frente (e até pode ser uma porção de mortadela tartufada), mas que contém as impressões digitais do humano que o elaborou, seja ele um cozinheiro ou um produtor de azeites orgânico. Onde entram a Sicília e a Sardenha nisso? Em tudo.

Bem-vindo a uma das mais fascinantes blue zones do planeta, uma das regiões do mundo onde as pessoas vivem muito mais e com uma saúde de invejar os seus avós. Pessoas centenárias ativas e saudáveis que possuem algumas características em comum, desde adotar um estilo de vida extremamente ocupado (muitos cultivam a própria horta, os próprios azeites e vinhos), ter um senso de comunidade e família (na casa onde moramos na Sardenha, vimos três gerações diferentes convivendo juntas e bem, e não só à mesa) e valorizar mais o que a terra dá do que o supermercado expõe e vende na prateleira.

Nosso roteiro se ocupou de mais de 15 cidades, burgos e vilarejos visitados, 2 mil kms de trecho percorrido somente na Sicília, mais mil quilômetros pela costa ao norte da Sardenha, a elegante Costa Esmeralda. Sim, essa é uma região glamourosa. Mas não foi isso o que nos pegou. Em vez dos milionários iates flutuando sobre a própria sombra tamanha a transparência azul da água, foram as sutilezas e rotinas dos habitantes da ilha – os sardos – o que nos surpreendeu. Era mais interessante observar um senhor de 86 anos na sua scooter velhinha, para não chamar de “motoca”, buscar um punhado de bomboloni (espécie de sonho de padaria, de sabor inigualável) para o desjejum do que trombar com Roberto Cavalli, aos 76 anos, no seu iate estampado de oncinha em Porto Rotondo.

A Sicília é uma ilha colonizada por gregos, romanos, turcos, espanhóis, italianos, e cada parte se revela única. Uma mais grega, outra mais árabe, romana, fenícia… Sem falar no clima e solo, que são muito distintos. Cada região se destaca por um tipo de cultura agrícola e por um sabor. Da cidade de Bronte vem o pistache; de Pachino o tomate; o gamberone (camarão com sabor de trufa) vem de Mazara del Vallo; o chocolate, de Modica; e assim segue a quase interminável lista. “A Sicília é onde história, arte e tradições antiquíssimas se encontram, um lugar onde sabores simples e matérias-primas extraordinárias nos fazem viver experiências marcantes”, contou-nos a blogueira Patrícia Kalil, 33 anos, que vive na Sicília desde 2007.

Um produtor de azeites orgânicos cuja fazenda visitamos perto de Siracusa nos disse, citando o poeta e ensaísta siciliano Leonardo Sciascia: “A Sicília toda é de uma dimensão fantástica, onírica. Como viver nela sem imaginação?”. Tivemos que concordar com Dario Ficara, ali, degustando no meio de seu olival, o melhor azeite orgânico que já provamos em nossa vida, além das suculentas peras e nectarinas que a família cultiva para sua própria subsistência. Saímos de lá com uma pequena e consistente melancia orgânica, que virou parte do café da manhã no dia seguinte. E aqui vale dizer: muitas vezes perguntar se o alimento é orgânico (ou biológico, como o europeu denomina) pode soar ofensa, pois é algo natural e familiar. Mas não nos fizemos de rogado: perguntamos de propósito, curiosos pela resposta.

Ao conversar com os ilhéus da Sardenha e Sicília, percebemos que eles se referem à porção continental do país como Itália e se consideram vivendo em outro lugar. Notoriamente, os hábitos são diferentes. Aqui, a qualidade de vida é melhor. O tempo de almoço é de duas horas, em comparação com os 30 minutos do norte italiano; o mercado de trabalho feminino siciliano é menor (a sociedade é bem machista), portanto, as mulheres cozinham mais; o almoço e jantar são mais caseiros e saudáveis, feitos de comida fresca, local e da estação. A mamma está sempre por perto para cuidar dos filhos casados – pois os homens costumam sair de casa só aos 40 anos. Descobrimos que isso faz toda a diferença no estilo de vida e longevidade. Também notamos que se toma pouco leite, embora se coma muito queijo, e de ovelha. Leite de vaca é comum apenas no cappuccino, e ir ao fast-food é coisa rara para uma família.

As duas ilhas, Sicília e Sardenha, são coisa de cinema e vale a pena revisitar O Poderoso Chefão para entender que não é força de expressão. Palermo, capital da Sicília, sediou uma das cenas mais belas e dramáticas do último filme da trilogia, a morte da filha de Don Michael Corleone nas escadarias do Teatro Massimo. Quem era a filha do mafioso no filme? Sofia Coppola, a mesma que escreveu e dirigiu As Virgens Suicidas, Maria Antonieta, Encontros e Desencontros. Palermo matou uma atriz e fez nascer uma diretora. E a uns bons 500 km de lá, na parte leste da ilha, em dois pequenos burgos no alto mais distante de uma colina – Savoca e Forza d’Agro – é possível reviver cenas como o clássico encontro de Michael Corleone com seu primeiro e grande amor, Apollonia, protagonizada por Simonetta Stefanelli. Quando entramos no Bar Vitelli, que se esmerou em manter ao máximo a cenografia original, o choro foi inevitável ao reimaginar a cena com Al Pacino pedindo a mão da moça. Ali por perto provamos a típica pasta alla norma: molho pomodoro, berinjela, alho e basílico (manjericão), servido com queijo ralado de ricota curado de ovelha. Detalhe: para o siciliano, berinjela tem o valor de um bom bife no prato, é uma proteína por excelência.

Voltando a Palermo (onde nossa viagem começou), surpreendeu-nos a cor terracota que acompanha o relevo e o clima árido, quase desértico. A comida por lá possui uma caseira rusticidade, e o primeiro sabor provado foi de um arancini, bolinho de risoto com recheios diversos. Isso a caminho do restaurante L’ Ottava Nota, dono de uma estrela no Michelin, que nos foi recomendado por um local. Vale dizer que, embora cheguemos sempre com uma lista previamente estudada de bons restaurantes, nunca deixamos de especular com os moradores locais sobre comida, ruas, lojas, mercados de rua… Essa foi uma dessas dicas, que nos conquistou com um risoto de limão com pasta de anchova e chocolate picante. A primeira pasta da viagem também não decepcionou: uma carbonara autoral, com pistache e tartufo.

Então, fizemos algumas lições de casa, como provar a autêntica caponata de berinjela, a superdoce granita de limão-siciliano (uma raspadinha de gelo e suco) e depois algo bem típico e local, pani ca’meusa, um sanduíche de vísceras servido com queijo da região. Mas, sobretudo o Mercato San Lorenzo nos ganhou, um mercado de artigos orgânicos locais indicado pela jornalista Ailin Aleixo. Era a hora do aperitivo, e isso se respeita na Sicília. O cozinheiro pegou tudo fresco que estava disposto na bancada de gelo, filetou em nossa frente e temperou: polvo, peixe-espada, anchova e camarões, apenas suco de limão (siciliano), sal e pimenta. Serviu com caponata e dois copos de vinho branco da uva grillo local. E então o mercato se revelou: taças de vinho de uva Nero d’Avola mais mortadela com pistache, mortadela com tartufo, salami picante, queijos variados, como a ricota de ovelha e o queijo com zafferano, servidos com um pão de cereal ancestral chamado tumminia. A viagem poderia acabar ali, mas não, de Palermo em diante, foi uma sucessão (ou melhor, profusão) de experiências e achados.

Da mesma forma como cada cidade responde por certa cultura agrícola, cada uma também oferece uma iguaria ou prato típico do qual se orgulha, como o cuscuz trapanese em Trapani, ou a bottarga (ovas) de atum com melão na pitoresca Marzamemi, o hambúrguer de cavalo ou asno em Catania. Não raras vezes, os molhos levam o nome do lugar também (molho à ragusana, de Ragusa) e em um único menu você pode se deparar com atum de Favignana, alcaparras e damasco de Palermo, anchova e queijo de ovelha de Trapani e pão de Agrigento.

Detalhar tudo isso é assunto para um livro (quem sabe?), pois ainda há histórias por contar sobre o mercado de Ortigia e o melhor tiramisù em Siracusa; a mais saborosa cassata siciliana em Noto; a pizza indescritível na Rua Filomena em Catania, indicada por Patrícia Kalil; o inesperado cannolo no vale dos templos em Agrigento, lugar de extrema felicidade para amantes da mitologia grega, como nós; as vinícolas orgânicas aos pés do vulcão Etna, onde um comedido wine tasting de três etapas virou 11, com direito a visitar vinhedos inesperados. Sem contar as praias, que são um destino à parte, como Giardini Naxos e Isola Bella, esta última à frente da majestosa e grega Taormina, incrustada em um penhasco, suntuosa cidade que celebra o pôr do sol e a vida como se não houvesse amanhã, de preferência com um Etna Spritz do Belmond Grand Hotel Timeo.

Conversando com Patrícia, a percepção sobre longevidade é nítida. Os sicilianos longevos não são infectados pelo estresse da vida moderna. Comem pouca carne e muitos vegetais. Vegetais sempre da estação e da localidade. Sempre com uma taça de vinho da uva local, azeite caseiro… E não comem muito, ao contrário do que pensamos. Por outro lado, comem fritura e seus doces são bem açucarados. Esse comportamento também se refletiu na Sardenha, onde nos hospedamos na casa de uma família italiana e pudemos saborear na prática tudo isso.

A Sardenha é um mundo totalmente à parte da Sicília e da Itália, já dizia nossa amiga e chef Nadia Campeotto para quem a ilha “não se pode explicar, apenas sentir. É reservada, revela-se aos poucos”. O que se come na Sardenha fica na Sardenha. Não se come em outro lugar, levando à risca o que a estação dá de frutos. Uma passagem que denota bem isso foi a tentativa do Renato de cozinhar uma sopa de abóbora com gengibre. Não era época do fruto, quase uma afronta questionar o feirante local. E Renato teve que improvisar outra sopa. Foi Nadia quem nos apresentou a família, que nos recebeu por cinco dias. Comemos, cozinhamos e bebemos ao lado de pessoas fantásticas, como as piemontesas Barbara e Marinella, observando a vida ativa das pessoas com cuidados domésticos e jardinagem. Fomos às feiras locais e nos chamou a atenção o fato de que o supermercado não é a primeira fonte de acesso a produtos e, sim, os pequenos estabelecimentos, especializados em produtores artesanais que se especializaram naquele queijo, naquele pão, e assim por diante.

Certamente, em algum momento da sua vida você já ouviu a expressão slow food. A ela hoje se conectam outros conceitos, como mindful eating, locavorismo, km zero, sazonalidade, todos eles presentes na Sardenha e na Sicília, de forma natural e que provavelmente concede a essas culturas dias e horas a mais de vida na Terra (com saúde, porque sem ela não tem graça). É possível ter uma “zona azul” dentro de casa? Acreditamos que sim. Por exemplo, simplifique a sua alimentação: se você não consegue plantar seu próprio alimento, priorize frutas, legumes e verduras orgânicas. Procure saber de onde vêm: elas não nascem em supermercados. Assine cestas orgânicas ou vá para a feira. Coma menos carne, coma mais vegetais. Seja ativo nas mínimas coisas, faça mais atividades rotineiras a pé. E, na medida do possível, vá à Sícilia ou à Sardenha, ou ambas, como fizemos. Parte do seu coração ficará por lá, mas a experiência virá por inteiro, com um nostálgico desejo de comer, viver e ser mais simples.

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