Trip

Saint Barth, um oásis francês no Caribe

Sossego e luxo são garantidos entre bistrôs, praias de águas limpas e butiques

por Hermés Galvão 5 Set 2017 13:17

À primeira vista, St. Barthélemy tinha quase tudo para não decolar, ou melhor, para afundar na aridez de sua terra e pouca exuberância natural, salvo aquele mar caribenho que em seus vizinhos, verdade seja dita, é muito mais verde e azul. Vingou não por acaso, mas por uma série de casos bem-sucedidos de colonização e administração em um balanço perfeito entre custo e qualidade de vida. A versão outre-mer da Côte D’Azur, com suas butiques e bistrôs de charme francês, é um oásis à prova de crise com pinta de paraíso fiscal, onde nada e quase ninguém parece preocupado com cifrões e conversões de moeda.

St. Barth (não chamá-la pelo apelido é suicídio social) é a realização de um projeto de exclusão social capitalista, um clube a céu aberto para quem não se contém de tanta satisfação material. Ostentar não é preciso, mas há quem insista. Resistem os que defendem a máxima low profile e passam longe da romaria de barcos flutuando sobre as águas cristalinas de Colombier Beach e do desfile de modelos (profissionais ou não), homens recém-feitos do mercado financeiro fumando charuto sobre as mesas de Nikki Beach, com DJ, champanhe Magnum e fogos de artifício à vista. A verdade tropical da ilha passa longe da lista de celebridades e personalidades de fato ou de foto. O que torna imperdível a temporada (de maio a setembro, a não ser que você queira ver e ser visto pelas mesmas pessoas de todo Réveillon e dia santo) é explorar onde não há beach club, nem hotel butique, nem butique e, portanto, nem sinal de turista acidental, longe do que uns chamam de agito e outros, de invasão – depende do ponto de vista e de quando se vai.

Quer sossego? Sim, por favor. Então, um passo à frente, mais pé na areia do que na marina, e não deixe de ir às praias de Gouverneur, Saline e Lorient, onde naturistas e tartarugas nadam sem o menor sinal de jet ski. Quer jantar sob as estrelas do céu e não do Michelin? Siga para o Bartolomeo, no hotel Le Guanahani. Lá, o chef italiano Nicola de Marchi cria maravilhas de sua terra misturadas às delícias pescadas no mar cor de turmalina paraíba da pérola do Caribe. No mesmo Le Guanahani, o spa da Clarins faz a gente se sentir nas mãos de Deus – não sei se as dele são tão milagrosas quanto as do staff. Fiquemos com as certezas terrenas por serem, por assim dizer, mais palpáveis. St. Barth sempre foi refúgio da aristocracia cansada da rotina protocolar.

Descoberta por Colombo, que a batizou em homenagem ao irmão, Bartolomeu, foi colonizada por corsários franceses de ascendência nobre que aportaram em 1763 dispostos a mudar de vida. Longe de casa, e da corte, tornaram-se lojistas e pescadores com um toque de requinte: trouxeram nos baús o savoir-faire aprendido na realeza e, sem querer ou sem pensar muito, deixaram de herança o melhor da Europa em além-mar e deram aos nativos noções de etiqueta na melhor política de boa vizinhança. No século 18, a ilha passou para as mãos dos suecos que, alheios ao quiproquó nas colônias vizinhas, transformaram-na em zona franca para todos os povos. No Porto de Gustavia, enquanto capitães ingleses, holandeses e espanhóis saqueavam meio Caribe, navios de diversos países ancoravam sem medo com os porões carregados de novidades para serem comercializadas sem impostos – outro legado sangue azul que permanece até hoje. Em tempos de paz, já de volta ao domínio francês, outros bem-aventurados chegaram atraídos pelos bons ventos que sempre sopraram a favor da ilha.

No apogeu da dolce vita, em 1957, o bilionário americano David Rockefeller fincou sua bandeira branca e, com ele, o jet-set calmo ganhou sinal verde para fazer de St. Barth seu entreposto de luxo, não importa a maré financeira do resto do planeta. Vieram o barão e colecionador Edmond de Rothschild, o bailarino Rudolf Nureyev e, mais tarde (bem mais tarde), Kate Moss, Beyoncé, além, claro, de magnatas russos, todos os jogadores de futebol e a nova realeza, que, com o pé mais na areia do que na marina, fazem o contraponto à onda high profile que invadiu a ilha. Tudo em nome da tradição.

Must Go
Praias
Esqueça a romaria de barcos sobre as águas de Colombier Beach e siga para Gouverneur, Saline e Lorient, onde naturistas e tartarugas nadam sem o menor sinal de jet ski.

Jantar
Para jantar sob as estrelas do céu e não do Michelin, aposte no Bartolomeo, do hotel Le Guanahani. Lá, o chef italiano Nicola de Marchi cria maravilhas de sua terra.

Wineshop
A mais sofisticada ilha francesa do Caribe é um dos melhores lugares para se comprar vinhos. A Cellier du Gouverneur concentra alguns dos melhores rótulos de tintos e brancos franceses.
st-barths.com/cellier-gouverneur

Hermés Galvão

Hermés Galvão nasceu em 1975, no Rio de Janeiro. É jornalista e cronista de Carbono Uomo e Vogue Brasil. Autor do livro “Como Viajar em Tempos de Crise Financeira e Existencial”. Vive pelo mundo, sem destino conhecido, entre Barcelona, Roma e os espressos mal tirados dos aeroportos do Brasil. 

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