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Saint-Barth: A ilha branca e bilionária do Caribe

Uma visita ao balneário onde a principal atividade econômica não é o turismo

por Shoichi Iwashita 30 Jun 2017 11:33

Três horas e meia de voo separam o rigoroso inverno nova-iorquino de fevereiro do verão-o-ano-todo de Saint-Barthélémy, essa ilhota de vegetação árida — e de praias menos bonitas que as das ilhas vizinhas, preciso dizer —, que se transformou no porto seguro de algumas das pessoas mais ricas e famosas (seguidas alpinistas sociais) do mundo, onde o turismo de massa não tem vez (nem as grandes redes de hotéis de luxo estão aqui). São Bartolomeu – assim como Saint-Tropez vira para os franceses “Saint-Trop” (os franceses adoram diminutivos), Saint-Barthélémy é “Saint-Barth”, ou ainda em inglês, “St. Barts” — não só é território francês mas praticamente a extensão da Côte d’Azur no Caribe (não raro você vai encontrar os mesmo superiates aportados em Cap d’Antibes em junho e aqui durante o inverno no hemisfério norte). Porque se chegar à França metropolitana — Paris, depois Marseille — para começar a viagem pela Riviera Francesa é se deparar com gente de todas as cores, roupas, etnias, línguas e culturas, basta sair da cidade mais antiga do país (e um dos portos mais antigos do Mediterrâneo) e dirigir por 30 minutos para encontrar uma costa — de Hyères até Nice — repleta de belíssimas paisagens, mas sem a menor presença dessa diversidade. Realidade similar em Saint-Barth, que é conhecida por ser a ilha “branca” e “non métissée” (não mestiça) do Caribe. Aqui não existe água doce (nem rio, cachoeira, lençóis de água, por isso todos os hotéis e casas são obrigados a terem cisternas para armazenar água da chuva para o caso de as plantas dessalinizadoras não conseguirem produzir água suficiente para consumo humano) e, apesar de ter havido escravidão, a ilha sempre foi tão pobre em recursos naturais (era comum colonos trabalharem lado a lado com seus escravos) que, quando a escravidão foi abolida em 1847, não havia mais atividade econômica viável. Assim, grande parte dos libertos (muitos colonos também) partiu para as ilhas vizinhas. Se mesmo nas ilhas mais próximas, as vizinhas Saint-Martin e Anguila (ambas a pouco mais de 10 minutos de voo em aviões velhos e minúsculos), ou na Martinica ou em Barbados, você vai encontrar uma população majoritariamente negra — apesar de todos os donos de hotéis e restaurantes serem brancos, franceses, holandeses, ingleses —, em Saint-Barth os negros e mestiços são quase inexistentes; e quase sempre você será atendido por “métros”, os franceses (jovens e brancos) da metrópole trabalhando por temporadas. A principal atividade econômica desta que foi até anos 1950 uma ilha colonizada por pouco mais de dez famílias vindas da Normandia e da Bretanha no século 17 (se você checar o guia telefônico local hoje verá centenas de pessoas com sobrenomes Gréaux e Lédées, tudo primo) era a produção de sal. E só.

DE ROCKEFELLER A ABRAMOVICH, PASSANDO POR NUREYEV

A reviravolta no destino da ilha — de renegada a reduto de celebridades e bilionários — se deu nos anos 1960. Em 1957, David Rockefeller, um dos 50 homens mais ricos do mundo na época (seu pai, John D. Rockefeller Jr. era um dos três mais), avistou a Baía de Colombier — uma das mais belas de Saint-Barth — de seu barco, comprou 27 hectares (mais dois terrenos em outras partes da ilha) e lá construiu uma obra-prima da arquitetura completamente integrada à paisagem desenhada por, também Rockefeller, Nelson Aldrich (infelizmente a casa hoje, que não pertence mais à família desde a década de 1980, está abandonada e decadente). Tirando as pedras, tudo teve de vir de fora. No ano seguinte, mais um grande sobrenome da elite mundial — desta vez europeia — chegaria à ilha: Edmond de Rothschild. A presença de ambos atraiu a atenção de seus pares e fez com que muitos outros ricos e celebridades — como o mítico bailarino russo Rudolf Nureyev — construíssem seus pied-à-terre em Saint-Barth nos anos seguintes, criando praticamente um clube de bilionários e famosos em busca de privacidade e segurança nestes 25 quilômetros quadrados de terra (a energia elétrica só chegaria em 1961). Hoje, nem os Rockefellers nem os Rothschilds possuem mais suas residências (a casa que um dia foi dos Rothschilds estava à venda em março de 2017 por US$ 67 milhões) e o dinheiro velho deu lugar ao dinheiro novo. Com uma fortuna avaliada pela Forbes em US$ 8,7 bilhões, um iate de QUINHENTOS E QUARENTA PÉS (o Eclipse, segundo maior do mundo, avaliado em US$ 1,5 bilhão) e uma casa que custou US$ 90 milhões na praia de Gouverneur — construída num dos terrenos de Rockefeller, escondida atrás dos arbustos que você vê da areia —, é do oligarca russo Roman Abramovich que você mais vai ouvir falar (pois ele é amigável, frequenta a praia pública e dirige um Mini Cooper sem o exército de seguranças particulares que o acompanha geralmente em Londres ou em Moscou). Ah, e caso você vá à praia, que é uma das mais lindas de Saint-Barth, dá até para deixar o carro no estacionamento público que Abramovich generosamente construiu ao lado de sua casa. De graça.

A HERANÇA SUECA

Para nós que vivemos em cidades gigantes é até interessante chegar a uma pequenina ilha como Saint-Barth e saber que ela tem uma capital, com pouco mais de dez ruas principais — com uma concentração enorme de marcas de luxo, de Chopard a Hermès; as únicas lojas dessas marcas em todo o Caribe —, e um nome nada francês: Gustavia, dado em homenagem ao rei da Suécia Gustav III (1746 – 1792), que também era o nome do aeroporto da ilha, um dos mais perigosos e emocionantes do mundo, antes de ele ter sido renomeado como Rémy de Haenen (o primeiro aviador a pousar em Saint-Barth, idealizador do hotel Eden Rock e prefeito da ilha por muitos anos). Em Gustavia, os nomes das ruas sempre são exibidos em francês e em sueco. Isso porque no século 18, o rei francês Louis 16, marido de Maria Antonieta e guilhotinado durante a Revolução Francesa, cedeu em 1784 Saint-Barthélémy para o Reino da Suécia, em troca do direito de fazer comércio no porto de Gothenburg (ocupando uma posição estratégica, Gothenburg sempre foi um dos principais portos da Escandinávia). Os suecos transformaram o porto de Gustavia numa zona livre de impostos e Saint-Barth acabou se tornando um dos portos mais movimentados do Caribe no fim do século 18. Mas com o fim da escravidão, as atividades diminuíram, o dinheiro faltou e a Suécia vendeu Saint-Barthélémy de volta para a França em 1877. Foram mais de 90 anos de domínio sueco. Uma vez França, Saint-Barth (assim como Saint-Martin) fazia parte do departamento da Guadalupe (outra ilha francesa no Caribe). Mas, desde 2007, essas ilhas se tornaram independentes, cada uma tem seu presidente, e hoje são livres para definir a quantidade de impostos que os ricos proprietários estrangeiros pagam por suas residências cinematográficas. Porque a maior atividade econômica de Saint-Barth não é o turismo, mas sim a construção civil, que é dominada pelos portugueses. Quanto aos impostos, o dinheiro — que não é pouco — hoje fica todo na ilha.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.

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