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Quem disse que o Japão é caro?

Shoichi Iwashita viaja ao país asiático e derruba a ideia de que passear por lá custa dinheiro demais

por Shoichi Iwashita 7 Nov 2016 10:33

Existiu uma época — poucos anos atrás, na verdade — em que uma passagem aérea para o Japão, em classe econômica, não custava menos que US$ 3.000. A distância (quase 30 horas de viagem, considerando o tempo nos aeroportos e de conexão) e o preço só para se chegar lá desencorajavam muita gente. O fato de o Japão também ter a fama de ser um dos países mais caros do mundo — o que é verdade, mas apenas em alguns aspectos, e principalmente para quem mora lá — criou o medo de se viajar para a terra do Sol Nascente e voltar maravilhado, mas falido.

Mas com a chegada das companhias aéreas do deserto, muita coisa mudou. Nesta minha última viagem, em setembro de 2016, o bilhete ida e volta, Guarulhos GRU — Haneda HND, em classe econômica, saiu por US$ 900, já com todas as taxas, parcelados em nove vezes sem juros (!), numa das promoções da Emirates, com a possibilidade de fazer uma parada de três dias em Dubai sem nenhum custo adicional. Para fins de comparação, esse é o preço que ainda pagamos — a não ser que seja uma promoção — por uma passagem para uma capital europeia.

TRANSPORTE DO AEROPORTO PARA O HOTEL
São dois os aeroportos internacionais em Tóquio e, a 17 quilômetros da cidade, aterrissar em Haneda HND é sempre a melhor opção (Narita NRT fica a 60 quilômetros de distância; e a Emirates tem voos diários para ambos os aeroportos). Se você não quiser gastar entre US$ 80 e US$ 100 de táxi para chegar ao hotel e tampouco quiser usar o transporte público (carregar mala em trem e metrô não é nada fácil, ainda mais pra gente que não viaja leve), a melhor alternativa são os ônibus chamados Keikyu Limousine Bus, que saem do aeroporto a toda hora e para vários bairros na cidade (Odaiba, Shibuya, a estação principal de Tóquio, a Tokyo Eki, bem centralizada) por US$ 10. E aí, você pode levar as malas no bagageiro do ônibus, retirá-las no ponto final e pegar o metrô ou um táxi para o hotel e gastar mais, no máximo, US$ 15. E pode fazer o mesmo na volta para o aeroporto. Na foto, o Aeroporto de Haneda com o Monte Fuji ao fundo.

HOSPEDAGEM EM TÓQUIO: DO LUXO AO AIRBNB

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Todas as grandes redes de luxo estão em Tóquio: Four Seasons, Park Hyatt, Mandarin Oriental, Aman, Ritz-Carlton, Peninsula, Shangri-La, e o preço das diárias é equivalente às dos hotéis de mesma categoria em outros grandes destinos urbanos: entre US$ 900 e US$ 1200 por noite, sem café da manhã. Do lado oposto da pirâmide, se você preferir gastar menos com hospedagem, são muitas as opções, entre hotéis simples — mas limpos e decentes (geralmente sem camas, mas com tatami, onde cabem até quatro pessoas) — e AirBnB, que custam a partir de US$ 75 por noite (ou seja, baratíssimo: em outras cidades como Nova York ou Paris, é simplesmente impossível encontrar algo por esse preço sem perder a dignidade). Dormir num hotel de tatami pode até ser uma experiência interessante para viajantes sem muito orçamento estando no Japão. Num hotel cápsula, você vai gastar US$ 30 para passar uma noite, com direito a cama, banho e amenities, mas sem espaço para guardar mala. Na foto, o belíssimo lobby do hotel Aman, que fica no 33º andar do Otemachi Tower, em Chiyoda-ku.

COMIDA BOA… E BARATA!

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Essa é uma das maiores concepções erradas sobre o Japão. Em nenhum outro lugar do mundo, come-se tão bem e tão barato. Sim, espere pagar US$ 300 por um almoço com 20 sushi no Sukiyabashi Jiro {para ler o relato da minha experiência, clique aqui} ou US$ 500 por um melão inacreditável de belo e saboroso (ou ainda US$ 15 por uma maçã). Mas você também come um ótimo ramen ou udon ou tempura, que valem por uma refeição, por menos de US$ 10 ou ainda paga US$ 25 por um prato de sushi, com direito a iguarias como hotate (vieira), chuutoro (a parte gorda e nobre do atum), uni (ouriço) e ikura (ovas de salmão), tudo fresquíssimo; algo que você encontraria no Brasil só em ótimos restaurantes, pelos quais você pagaria, no mínimo, o quádruplo desse valor. E esta é uma das partes mais incríveis daqui. Come-se bem em qualquer lugar, seja um onigiri (um bolinho de arroz que pode vir recheado com atum ou salmão grelhado ou umeboshi ) num konbini (ele vem numa embalagem que deixa o nori separado do arroz para ele não murchar e custa apenas US$ 1,5), uma massa em qualquer café (é engraçado que todo café aqui vende massas; elas são pré-prontas, mas a textura do macarrão e o sabor do molho são sempre uma delícia) ou uma refeição assinada por Alain Ducasse no topo do prédio da Chanel em Ginza. E ainda: você não paga pela água e pelo chá: é tudo gratuito, é só pedir o quanto você quiser, e não tem taxa de serviço, já que gorjeta no Japão é uma ofensa (enquanto isso, nos Estados Unidos, a gente tem de deixar até 20% de tip sobre o valor total, o que deixa a conta ainda mais salgada). Na foto, uma porção de sashimi do izakaya chic que pertence à marca de uísque Hibiki, em Shinjuku.

VIAJANDO DE UMA CIDADE PARA OUTRA
Essa é a parte da viagem que, de trem, é a mais cara (já o avião é baratíssimo). Uma passagem ida e volta entre Tóquio e Kyoto — uma viagem que dura 2h20 com o shinkansen Nozomi, o mais rápido dos trens ultrarrápidos — custa quase US$ 300 (se você pegar o Kodama, que é o shinkansen mais devagar, a viagem vai levar quase quatro horas e vai custar só um pouco menos). Por isso, vale a pena comprar o Japan Rail Pass, que permite que você viaje de forma ilimitada por duas semanas pelo preço de US$ 600, que inclui viagens com o Nozomi. Uma forma mais barata de viajar seria aproveitar as promoções de avião. Mas você está no Japão, país dos trens mais lindos do mundo, né? Sem falar que navegar pelos sites das companhias aéreas low-cost japonesas pode ser um martírio (é impressionante como faltam informações em inglês) e a maioria delas nem vende passagens para pessoas que estejam fora do Japão. Na foto, um dos muitos modelos de shinkansen.

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TÁXI VS. METRÔ
No Japão, não só os táxis são pagos de acordo com as distâncias percorridas, os trens e metrôs funcionam da mesma maneira. Se você não tiver um cartão pré-pago carregado à la Bilhete Único (como o Suica ou o Pasmo para Tóquio), é preciso que você verifique no mapa da estação para onde você vai, o preço que custa o percurso e comprar o bilhete, que você terá de colocar na máquina na saída da estação final (se você errar no cálculo ou decidir descer algumas estações depois, não tem problema: você pode pagar a diferença da tarifa na estação de destino). Para um bilhete de metrô, calcule entre US$ 1,5 e US$ 4 por trecho. Já os táxis, apesar de serem caros (a corrida começa em US$ 7, ou seja, mais de R$ 20), podem ser convenientes para fazer pequenas distâncias (principalmente naqueles dias em que você está cansado e não está a fim de andar quilômetros numa estação de metrô com aquela multidão de gente) e não vai encarecer tanto assim a sua viagem. Na foto, os táxis japoneses, em modelos vintage, com portas que se abrem automaticamente.

O Japão continua sendo longe… Mas não é mais tão caro assim.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.

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