Trip

Paris para quem fala francês

Um roteiro além do básico para os apaixonados por cultura na capital da Cidade Luz

por Shoichi Iwashita 7 Ago 2017 12:06

Não é preciso falar o idioma local para apreciar grande parte das experiências nas viagens: as paisagens, a arquitetura, a gastronomia, os concertos, espetáculos de dança, as exposições (a maioria dos museus tem placas e legendas versadas para o inglês), as vitrines. Mas para se aprofundar na cultura local e absorver a visão de mundo dos nativos (quase sempre muito diferente da nossa, e essa é uma das partes mais enriquecedoras das viagens), seja lendo os artigos de opinião dos jornais sobre os assuntos do momento, os debates na televisão (e na França, é o que você mais vai ver ao ligar a TV), assistir às peças dos dramaturgos que fizeram a história do país e ler o livros que não foram traduzidos para o inglês — e ainda mais raramente para o português —, a fluência no idioma é essencial. E não há governo que invista tanto em cultura quanto o governo francês (talvez até por entender que esse é um dos grandes atrativos que nos faz voltar para a França tantas vezes). Qual outro país possui uma tapeçaria estatal para manter viva a tradição de Gobelins, Beauvais e Savonnerie? Qual outro estado possui sua própria trupe de atores, mantendo ativa uma companhia de teatro fundada há mais de 330 anos por Luís 14 e Molière? E são essas experiências, as que exigem o conhecimento do francês para serem aproveitadas, que você confere hoje por aqui. {E para conferir todos-todos os eventos culturais da cidade, o governo de Paris criou o Saison Culturelle, um site com mais de 500 eventos listados, que você acessa clicando aqui}

COMÉDIE-FRANÇAISE, 340 ANOS DE HISTÓRIA E 3 MIL PEÇAS NO REPERTÓRIO
Se um ator da Comédie-Française fizer um filme, ele será apresentado no letreiro de abertura com seu nome seguido por “de la Comédie Française”. Mais antigo teatro em operação do mundo e parte do complexo do Palais Royal (agora com o Café Kitsuné, cada vez mais um dos meus lugares favoritos em Paris), a salle Richelieu, com capacidade para 862 pessoas, é desde 1799 a sede desta companhia de teatro fundada em 1680 pelo Rei-Sol Luís 14 e o dramaturgo Molière; e até hoje mantida pelo estado francês. A França é o único país do mundo a ter sua própria trupe de atores; 65 atores-funcionários-públicos, que apresentam uma média de 850 peças por temporada (ano), de autores que cobrem 2.500 anos de história do teatro como Aristófanes, Molière, Racine, Shakespeare, Corneille, entre outros mais contemporâneos (Tchekhov, Genet, García Lorca; o repertório da Comédie possui mais de três mil peças, e só as peças de Molière, entre 1680 e 2009, foram encenadas 33.400 vezes!). Além da sala Richelieu, a companhia possui mais duas outras salas mais modernas desde os anos 1990: o Thêatre du Vieux-Colombier (que eles abreviam para Vx-Colombier) e o Studio-Thêatre, a mais intimista delas com capacidade para 136 pessoas (mas se for a sua primeira vez, procure por uma peça na Salle Richelieu, por sua importância histórica). Os atores são excepcionais, tudo é feito na casa (cenografia, figurinos, música) e é sempre uma emoção estar na “maison” de Molière (ele praticamente morreu no palco durante uma apresentação de Malade Imaginaire, e a cadeira em que ele agonizou, já puída, está hoje exposta na galeria dos bustos no primeiro andar). E anote na agenda caso você esteja em Paris no dia 15 de janeiro, que é quando a Comédie anualmente celebra Molière. É o único dia em que todos os atores da companhia se reúnem, escolhem o figurino do seu personagem preferido, se vestem e se maquiam, e sobem todos ao palco após a apresentação do dia com o busto do dramaturgo recitando trechos de algumas peças. É emocionante tanto para eles quanto para nós. Comédie-Française: 1 place Colette, 1er arrondissement, métro Palais Royal – Musée du Louvre, telefone 00 33 (0) 8 2510-1680. Para conferir a programação da Comédie-Française — tem apresentações de segunda a domingo — e comprar o seu ingresso, é só clicar aqui. Os ingressos custam de € 7 a € 43.

CINEMATHÈQUE FRANÇAISE, A HISTÓRIA DO CINEMA NA CIDADE ONDE ELE FOI INVENTADO
O cinema, essa arte tão onipresente — e multibilionária — no século 21, nasceu na Paris do fim do século 19, com os irmãos Lumière. E quando a gente vê as peças da coleção que conta a história da sétima arte do museu da Cinemathèque Française, não tem como não se fascinar com todas as complexas invenções — tanto tecnológicas quanto narrativas — que foram criadas nesses últimos 120 anos para que a gente pudesse assistir e se emocionar com os filmes hoje. O edifício da Cinemathèque, projetado pelo starchitect Frank Gehry no meio do jardim do Parc de Bercy, à beira do Sena, abriga ainda uma coleção com mais de 50 mil filmes, 23 mil cartazes de filmes, 2 mil figurinos, uma das mais importantes e completas do mundo, que começou nos anos 1930, quando dois franceses apaixonados começaram a comprar rolos de filmes mudos. E como não poderia faltar, todos os dias são exibidos de cinco a dez filmes — muitas, muitas raridades —, sempre em versão original, com ou sem legenda em francês. Cinemathèque Française: 51, rue de Bercy, 12éme arrondissement, métro Bercy, telefone 00 33 (0) 1 / 7119-3333. Segunda-feira, das 12h às 19h; terça-feira fecha; e quarta a domingo, das 12h às 19h (fecha durante todo o mês de agosto). Ingresso a € 5. Para acessar o site e conferir a programação, clique aqui.

BIBLIOTHÈQUE NATIONALE DE FRANCE, SETE UNIDADES MAS SÓ UMA ABERTA AO PÚBLICO
Da Cinemathèque, basta atravessar o Parc de Bercy e chegando ao rio Sena, você já verá os quatro edifícios em formato de livros abertos desenhado por Dominique Perrault a pedido do presidente François Mitterrand. Esse não é o passeio típico de turista, mas eu amo bibliotecas (até porque, é como ir ao cinema ou supermercado de bairro: dificilmente você encontrará outro viajante). Assim como acontece com outras bibliotecas nacionais do mundo, infelizmente não dá para ver as raridades entre os mais de 40 MILHÕES de livros, documentos, manuscritos e iluminuras de mais de mil anos que formam o acervo da Bibliothèque Nationale de France a não ser que você justifique o motivo da sua pesquisa (imagine que a origem da Biblioteca Nacional daqui é a biblioteca real fundada por Charles 5, em 1368, com a coleção de manuscritos que ele herdou de seu antecessor, Jean 2). As atividades da instituição se dividem em sete prédios espalhados por Paris. E desde que foi inaugurado este moderno complexo à beira do Sena no 13éme arrondissement, a belíssima biblioteca na rue Richelieu (na primeira foto; ela tem o mesmo nome da sala da Comédie Française pois elas ficam na mesma rua), antes pública, só abre para pesquisadores. Então, tem de pegar o metrô e ir para a unidade François Mitterrand – Tolbiac, a única aberta para o público, para aproveitar a infinidade de jornais e revistas de todo o mundo, livros, e ainda assistir a pequenos concertos e exposições. Bibliothèque Nationale de France: Quais François-Mauriac com acesso pela rue Émile Durkheim (altura do número 25), 13éme arrondissement, métro Quai de la Gare ou Bibliothèque François Mitterrand. Segunda-feira, fecha; terça a sábado, das 10h às 20h; e domingos, das 13h às 19h. O acesso custa € 3,90 e é preciso que você seja maior de 16 anos de idade e leve sua carteira de identidade ou passaporte. Para acessar o site, clique aqui.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.