Trip

Os banhos públicos de Baden Baden

Conheça a histórica cidade alemã que faz das águas um estilo de vida

por Shoichi Iwashita 11 Out 2017 12:10

Apesar da distância (uma na Inglaterra, outra na Alemanha), Bath e Baden-Baden levam, em seus respectivos idiomas, “banho” como nome e possuem histórias bastante parecidas. Ambas as cidades foram fundadas pelos romanos (Bath era Aquae Sulis; Baden-Baden, Aquae Aureliae) e esquecidas por séculos depois da queda do império; as duas renasceram no século 18 com as visitas de duas nobres que procuravam nas fontes termais a cura de suas doenças, e, por conta disso, se transformaram em destinos aristocráticos que passaram a atrair ricos-e-nobres-e-intelectuais-e-arrivistas de todas as partes, em busca de bem-estar — e verem e serem vistos).

Baden-Baden era o destino número um da alta sociedade nos verões europeus do século 19. Mas se Bath só recentemente começou a recuperar seu status de balneário de águas termais, em Baden-Baden você vai ter essa experiência em todo o esplendor: são 12 fontes que jorram 540 litros por minuto, de uma água que vem de 1500 metros de profundidade e chega à superfície — seja nas torneiras espalhadas pela cidade seja nas termas — a uma temperatura entre 56º C e 69º C, riquíssima em minerais. E não só. Esta pequena cidade às margens da Floresta Negra — Der Schwarzwald — é um dos “pequenos destinos” mais luxuosos do mundo (e não deixe de comer o autêntico bolo de mesmo nome; leia mais abaixo). Concentra não só muita natureza (com a floresta ao lado) e bem-estar (com termas históricas e contemporâneas), mas também um hotel mítico, um museu que é uma pérola da arquitetura contemporânea, um exuberante cassino que foi frequentado por Dostoiévski e Marlene Dietrich, lojas sofisticadas, ótima gastronomia (talvez o fato de estarmos aqui a 10 quilômetros da França ajude) e ainda uma programação anual de música clássica bastante importante (mais que em muitas cidades maiores), que acontece no Festspielhaus, a segunda maior casa de concertos da Europa (detalhe: a cidade tem apenas 55 mil habitantes). Nos arredores, você ainda encontra campo de golfe 18 buracos e corridas de cavalo em maio, agosto e outubro.

Na primeira foto, um panorama de Baden-Baden. Na segunda, o Trinkhalle, o prédio onde funciona hoje o escritório de turismo da cidade, onde você encontra uma torneira de onde sai água termal. Na última, outra torneira, uma das que ficam espalhadas pela cidade de onde sai a água quente — tem de tomar cuidado para não queimar a mão — com várias propriedades benéficas para saúde (não é muito gostosa, mas é menos ruim que a de Bath). Imagens: Shoichi Iwashita

CURTINDO OS BANHOS PÚBLICOS COMPLETAMENTE NU: FRIEDRICHSBAD OU CARACALLA?

Eu adoro a naturalidade com a qual germânicos e escandinavos encaram a nudez (que deveria mesmo ser a coisa mais natural do mundo). Mas, apesar de eu achar que faz parte das viagens se permitir aderir à cultura local e sair da zona de conforto, se você não estiver definitivamente disposto a ficar nu em público, esqueça a Friedrichsbad (fotos acima), a belíssima terma fundada em 1847 com piscinas de mármore de Carrara (é como voltar aos tempos romanos) onde a nudez é obrigatória (a Friedrichsbad fica sobre as ruínas — que podem ser visitadas — das termas romanas que funcionavam aqui dois mil anos atrás). Na Caracalla (a 120 metros da Friedrichsbad; fotos abaixo), outra belíssima terma-spa (essa mais contemporânea) com 4000 metros quadrados e inúmeras piscinas, saunas — de todas as temperaturas imagináveis — e áreas para relaxamento e tomar sol, você tem as duas opções de experiência: com roupa de banho no andar de baixo e completamente nu — ao estilo romano, eles dizem — no andar de cima, incluindo duas saunas secas em casinhas de madeira ao ar livre, no meio de uma minifloresta, que fica na área nudista. Existe outra diferença importante entre as duas termas: enquanto na Friedrichsbad existe uma sequência sugerida de 17 etapas (passa-se de uma sala para outra — banho, sala de ar morno, sala de ar quente, banho, massagem, banho, vapor, vapor quente etc — e no mapa você verá quantos minutos ficar em cada uma delas), na Caracalla você fica livre para ir e vir — ou simplesmente deitar e dormir em salas ultraconfortáveis perfeitas para esse fim — conforme a sua vontade; e eu gosto mais (mas tem de visitar a Friedrichsbad pelo menos uma vez já que é uma volta no tempo). No edifício onde está a Caracalla funciona também uma academia incrível. E não há nada melhor que treinar e fazer sauna e tomar duchas no meio da natureza — peladão — depois do treino. Quando em Baden-Baden, a academia ArenaVita e a Caracalla são atividades diárias fixas para mim. :- ) Friedrichsbad: De segunda a domingo, das 9h às 22h, só fecha nos dias 24 e 25 de dezembro. Três horas e meia incluindo a massagem com sabão € 37. Não são aceitos menores de 14 anos de idade. Caracalla Spa: Telefone 00 49 (0) 7221 / 275-940. De segunda a domingo, das 8h às 22h, sendo a última entrada às 20h30, e só fecha nos dias 24 e 25 de dezembro. Você pode comprar o ingresso para ficar uma hora e meia (€ 15), duas horas (€ 16), três horas (€ 19) ou o dia todo (€ 23). {Para acessar o site, clique aqui.} ArenaVita Academia: De segunda a domingo, das 8h às 22h, e só fecha nos dias 24 e 25 de dezembro. O day pass para usar a academia custa € 22; o uso da academia + Caracalla custam € 37.

A academia estado-da-arte Arena Vita fica dentro do edifício onde está também o Caracalla Spa. Na segunda foto, as piscinas com águas naturalmente quente na área “vestida” do Caracalla (deve ser interessante usá-la no inverno). Imagens: Shoichi Iwashita

OS INCRÍVEIS BOLOS ALEMÃES COM CAFÉ, UM RITUAL DIÁRIO

FRIEDER BURDA, COLEÇÃO MILIONÁRIA EM MUSEU BY RICHARD MEIER

Um dos meus museus favoritos no mundo, não só pela arte exibida e arquitetura, mas também por sua localização, na promenade bucólica e über-verde, a Lichtentallerallee. O edifício de alumínio e vidro, concebido pelo célebre arquiteto nova-iorquino Richard Meier e inaugurado em 2004 ao custo de € 20 milhões, foi projetado para abrigar a coleção de arte particular de Frieder Burda, o dono de uma das maiores editoras — e um dos homens mais ricos — da Europa. No seu acervo, que é composto por mais de 1000 obras, muitos Picasso, importantes peças dos artistas norte-americanos representantes do expressionismo abstrato (Gottlieb, de Kooning, Pollock, Rothko), e muitas e muitas obras de todos os grandes alemães do pós-guerra: Gerhard Richter, Sigmar Polke, Georg Baselitz, entre outros; a ponto de eles conseguirem fazer exposições individuais e temporárias de cada artista só com as obras da coleção. Não deixe de visitar a loja no subsolo do museu. Museum Frieder Burda: Lichtentaller Allee 8b. De terça a domingo, das 10h às 18h; aberto nos feriados também, com exceção dos dias 24 e 31 de dezembro. O ingresso custa € 13 e crianças até oito anos não pagam. {Para acessar o site, clique aqui.}

O CASSINO QUE RECEBEU DE DOSTOIÉVSKI A MARLENE DIETRICH

O Bernstein fica dentro do Casino Baden-Baden, que fica dentro do Kurhaus, esse edifício de mais de 200 anos onde homens e mulheres socializavam, juntos, principalmente nos grandes bailes (antigamente eram raras as oportunidades de se paquerar), que passou a abrigar nos anos 1850 o cassino da cidade. E, apesar do luxo dos enormes salões ricamente decorados e dos importantes personagens históricos que fizeram a fama deste cassino em diversas épocas (de Dostoiévski a Marlene Dietrich, passando pelo Xá da Pérsia, os Windsor e muitos grandes compositores), não é preciso se intimidar. Basta comparecer — a partir do meio-dia para os slots e das 14h para as roletas, quando o cassino mais antigo da Alemanha abre — munido do seu passaporte (tendo no mínimo 21 anos), vestindo paletó e gravata e pagar € 5 para entrar (mas à noite tem mais gente, é mais interessante). São várias as opções de jogos: roleta (americana e francesa), blackjack, poker, punto banco, em salas temáticas, como a que tem decoração inspirada na rainha da França Marie-Antoinette ou no estilo Império. O restaurante no interior do cassino ainda é uma ótima opção de late dining (lembre-se que nenhum hotel em Baden-Baden — nem o Brenners — tem serviço de quarto 24 horas), já que a cozinha fecha entre meia-noite e 1h da manhã, dependendo do dia, ficando aberto até 2h ou 3h30 da manhã. E ainda tem a boate Bernstein, para aqueles a fim de uma noitada regada a champagne. Casino Baden-Baden: Kaiserallee 1, telefone 00 49 (0) 7221 / 30-240. De segunda a domingo, das 12h (para os slots machines) ou 14h (para os jogos clássicos) até às 3h. {Para acessar o site, clique aqui.}

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.