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O vizinho do lado

Epicentro místico e eldorado gastronômico das Américas, o Peru ainda guarda segredos, sabores e tesouros sagrados

por Hermés Galvão 27 Jul 2016 13:51

À primeira vista, o Peru é um choque cultural e térmico. Seus extremos sociais e geográficos impedem a passagem de viajantes abismados que não colocam o pé para fora de casa sem um guia de bolso na mão, vai daí que tornou-se de maneira orgânica e acidental destino preferencial de quem já não se encanta com prazeres e paisagens do mundo ao alcance do luxo – e tampouco se incomoda com as intempéries que fogem de qualquer roteiro traçado por agências e revistas de bordo.

Enganam-se também aqueles que imaginam o país um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, como nós, de costas para os vizinhos e de frente para o que vem do outro lado do Atlântico; surpresa é que nosso “boy next door” vive o clímax de sua verdade andina, orgulhoso de sua latinidade. Campesina, caótica, ancestral e moderna, balaio de nativos, invasores e imigrantes, o Peru agradece a sua visita com um fuzuê de sentidos e sabores que lembra a graça da vida de cabeça para baixo do Marrocos e da Índia.

Existe qualquer coisa na terra que finca o pé e faz a gente querer ficar além do mais, a vibração que vem do chão, desde as margens do Pacífico até as alturas dos Andes e na selva que cresce indócil na Amazônia, nos desperta para sua história que nasceu antes daquela que conhecemos – os incas foram mais um no meio da multidão de civilizações que povoaram a região e deixaram suas marcas para a posteridade que hoje não só refaz, mas reforça a identidade através de gastronomia e folclore. Está tudo lá, à flor da pele, na alma, para experimentar de perto.

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Não se avexe, não, ao desembarcar em Lima, carregada de cinza no céu e no mar, úmida e esparramada pela costa em seu desengonço urbano. Com seus 10 milhões de habitantes em transe sutil entre o exótico e o neurótico, a capital peruana pode, e deve, ser uma jornada livre de expectativas. A surpresa está onde menos se espera e de repente, virando a esquerda e se esquivando ao máximo dos carros de outro século que correm por um fio do maior engavetamento das galáxias, somos transportados para um universo paralelo onde o barroco espanhol se mistura à nova arquitetura em bairros embebidos em boemia que nos recordam boas histórias de Mario Vargas Llosa.

Em Miraflores e San Isidro estão os bares e restaurantes que colocaram a noite limenha no roteiro gastronômico internacional; a passos de distância, os festejados Central, número 4 do mundo, com seu menu que explora toda a biodiversidade local a partir do controle vertical do solo; o emblemático Astrid y Gastón, de Gastón Acurio, responsável por introduzir o ceviche no cardápio global; e o Maido, especializado em cozinha Nikkei, casamento da culinária peruana com a japonesa.

Sem estrelas Michelin para contar, as biroscas que servem pratos Chifa, mistura bem sucedida da cozinha chinesa com a peruana, comprovam a tese de que por ali qualquer portinha serve boa comida – a máxima já não se aplica a Paris ou Roma. Chefs ou quituteiros têm à disposição os melhores peixes que se têm notícia (graças às correntes marítimas, o Peru tem o litoral mais produtivo do planeta), riquíssima variedade de batatas (são mais de 3 mil tipos), quinoa, chás (atentem para a menta andina, chamada de muña) além de 55 variedades de milho – agradecemos aos incas, que em vez de fazerem guerra, dedicavam seu tempo ao desenvolvimento de técnicas agrícolas. A prova: não se veem fortalezas, armas ou adereços de defesa em nenhuma ruína ou objeto incaico, mas indícios de que estudavam e colocavam em prática novas formas de plantar e colher para conquistar outros povos pelo estômago.

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Resistem ao tempo e ao vento construções pré-colombianas erguidas ao pé da Cordilheira. Machu Picchu é apenas uma delas, e longe de ser a mais energética do pedaço – apesar de ter sua entrada restrita a 2500 visitantes por dia, ainda assim é um Deus (ou Krishna, Buda, você escolhe) nos acuda tamanha quantidade de guias, excursões e, sim, paus de selfie que fariam todo xamã acordar da mata. Nada que uma trilha pirambeira acima não resolva, basta caminhar 10 minutos para encontrar a paz de espírito que o lugar oferece. Surpreende, lógico, pela grandiosidade e pelo estado de preservação (ela só foi descoberta em 1911 pelo aventureiro havaiano Hiram Bingham), mas são os sítios às voltas da velha cidade, no Vale Sagrado, que merecem especial atenção.

Urubamba, Maras, Ollantaytambo e a principal delas, Cusco – em quéchua, “o umbigo do mundo” (e tome chá de folha de coca para rebater os efeitos de seus 3.200 metros de altitude) –, guardam tesouros arqueológicos e revelam às almas mais sensíveis um astral fora do comum. Escadarias, celeiros, templos, círculos formados entre montanhas (seriam os deuses astronautas?), povoados onde vive-se ainda como e com o mesmo que se tinha desde quando todo dia era dia de índio despertam o visitante para o básico e faz repensar no simples da vida. Eis o espírito da coisa, o motivo maior de uma viagem que se torna mística até para quem ainda acredita que para ser sagrada tem que ser longe, tem que ser ashram.

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Hermés Galvão

Hermés Galvão nasceu em 1975, no Rio de Janeiro. É jornalista e cronista de Carbono Uomo e Vogue Brasil. Autor do livro “Como Viajar em Tempos de Crise Financeira e Existencial”. Vive pelo mundo, sem destino conhecido, entre Barcelona, Roma e os espressos mal tirados dos aeroportos do Brasil.