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Colada em Los Angeles, Santa Mônica rouba a cena vanguardista na discussão sobre a mobilidade e assuntos relacionados

27 Jul 2017 11:22

Por Bruno Porto, de Santa Mônica

A eleição de Donald Trump surpreendeu o mundo e, entre os incontáveis possíveis efeitos colaterais negativos dela, está o retrocesso na agenda da mobilidade urbana na maior potência do planeta. Afinal, qual deve ser a importância de um tema complexo e de tintas liberais como este para um político que duvida do aquecimento global e tuíta como uma adolescente raivosa que não foi convidada para uma festa? Mas também existem consequências positivas: as cidades que estão investindo tempo, inteligência e dinheiro no assunto devem ganhar ainda mais proeminência, firmando-se como focos de resistência e provando que os elogiados anticorpos da democracia dos EUA estão firmes e fortes, God bless America. Uma delas é a discreta, mas surpreendente Santa Mônica, no estado da Califórnia. Colada na badalada Los Angeles, ela acabou roubando da vizinha VIP a vanguarda na discussão sobre a mobilidade e assuntos relacionados. OK, o tamanho de Santa Mônica é infinitamente inferior ao de LA. A população da primeira é de 90 mil habitantes, contra quase quatro milhões da segunda, o que dá para a cidade menor mais facilidade na hora de chegar a consensos que resultam em decisões. Ainda assim, chamam a atenção o arrojo de Santa Mônica e a timidez de Los Angeles, ainda mais se levarmos em conta que o star power de LA, com seus astros majoritariamente liberais, poderia forçar o lugar na direção de conquistas mais significativas.

É em Santa Mônica, porém, onde se pode constatar uma explosão de ciclovias, o incremento de lojas de aluguel de bicicletas e um planejamento de trânsito que salta aos olhos até de quem visita a cidade por poucos dias. É difícil estabelecer quando o município abraçou tão decididamente a agenda da mobilidade, mas com certeza o Bike Action Plan (BAP), aprovado em 2011 pelo conselho municipal, foi um marco. Trata-se de um conjunto de medidas, de curto e longo prazos, que visa a integrar as bicicletas à infraestrutura local, ao mesmo tempo que reduz o uso de automóveis. “A nossa meta é que cerca de 25% dos deslocamentos da cidade sejam feitos de bicicleta até 2030”, explica Francie Stefan, coordenadora da Divisão de Mobilidade de Santa Mônica, órgão da Prefeitura da cidade. “Outros 25% seriam feitos a pé. Ou seja, só 50% dos deslocamentos seriam com carro no futuro.”

Francie, claro, dá como exemplo ela mesma: alterna três bicicletas no seu dia a dia, uma dobrável, uma road bike e outra convencional. “Quando começamos com o plano, as áreas residenciais já eram bem bike friendly. Nossa prioridade foi estimular o uso de bicicletas nos bulevares”, acrescenta ela, mencionando esse tipo de via muito comum nas grandes cidades californianas. O aumento no número de ciclovias é uma das conquistas do BAP. Pularam de 48km em 2011 para 181km hoje. O nome do departamento de Francie é emblemático da mudança de mentalidade que ocorreu em todo o município. Até pouco tempo atrás ele se chamava Divisão de Transporte. Patrocinadas pelo serviço de TV sob demanda Hulu, mais de 75 estações com 500 bicicletas de uso compartilhado e gratuito estão espalhadas pela cidade, como parte do Bike Action Plan. Doze novas travessias para pedestres foram inauguradas.

No começo dos anos 2000, eu visitava Los Angeles constantemente a trabalho. Santa Mônica era um destino sempre convidativo, sobretudo devido à beleza da praia (que céu azul!) e de atrações como o píer local, que abriga um parque de diversões charmoso. A distância e a falta de opções de transporte, no entanto, levaram-me a abortar o plano de visitar a cidade algumas vezes. Hospedado em Hollywood ou nas redondezas, ou eu alugava um carro ou pagava quase R$100 de táxi, só de ida. Esse cenário pouco animador mudou em maio passado, quando foi inaugurada uma linha de metrô de superfície que liga Los Angeles a Santa Mônica. Por US$1,25, você pode pegar o metrô a dois quarteirões da praia de Santa Mônica e descer, por exemplo, na Avenida La Brea, em LA, numa viagem que leva em torno de meia hora. De lá, paga-se cerca de US$16 de Uber até a Calçada da Fama, no coração de Hollywood. O metrô é confortável e o trajeto, agradável.

Santa Mônica não está na vanguarda só na questão da mobilidade. A sustentabilidade é outra pauta tratada com seriedade e na qual a cidade está investindo. Se tudo correr como planejado, essa ousadia será transformada em um recorde: o município deve inaugurar em 2018 o maior edifício “verde” do mundo, que servirá de sede para a polícia local. “Só existem 11 prédios desse tipo no planeta”, diz Joel Cesare, consultor do Escritório de Sustentabilidade e Meio Ambiente local. “Ele seguirá os padrões exigentes do Living Building Challenge, criado pela organização Living Future’s Institute. Isso significa que o prédio deverá gerar sua própria energia e tratar sua própria água”, acrescenta.

Estabelecer metas altas já se tornou norma em Santa Mônica: também em maio de 2016 o conselho da cidade decidiu que todas as casas e prédios comerciais deverão ter painéis de absorção de energia solar, para reúso. “E no próximo ano toda casa terá de ser autossuficiente em água”, diz Cesare. Imagina-se que o custo desse tipo de inovação deva ser alto, talvez proibitivo para cidades com orçamentos mais modestos, certo? Errado, afirma Andrew Basmajian, coordenador de comunicação do Escritório de Sustentabilidade e Meio Ambiente. “Prédios verdes custam pouco mais que os normais”, garante ele. “E os custos caem ainda mais à medida que essa tecnologia se espalha”. Francie Stefan faz eco: “Não é uma questão de gastar muito, no que diz respeito à mobilidade ou à sustentabilidade, mas sim, sobretudo, de coordenar bem as ações. Uma cidade sem uma visão única de futuro é uma cidade dividida”.

Como se as inovações e essa mentalidade coletiva em si já não fossem impressionantes, a cidade teve a preocupação de integrá-las organicamente à paisagem de Santa Mônica. As ciclovias são pintadas de verde (remetendo às lindas palmeiras que embelezam a cidade?) e bem sinalizadas. As travessias também são extremamente bem cuidadas. Um dos estacionamentos públicos mais conhecidos (e gratuito, nos primeiros 90 minutos), o Santa Monica Parking Structure #6, é uma obra de arte. Foi projetado pelo escritório alemão Behnisch Archtekten, pioneiro mundial no design sustentável.

Outro ponto turístico recente da cidade a ter a assinatura de um arquiteto consagrado é o Tongva Park, localizado próximo ao píer de Santa Mônica e que era um antigo estacionamento de asfalto. Concebido pelo escritório James Corner Field Operations, responsável pelo incrível High Line nova-iorquino, é um parque arborizado, com água potável, lâmpadas econômicas e mirantes que parecem saídos de algum filme de ficção científica. Em Santa Mônica, o futuro já chegou.