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O Uruguai visto através de seu brasão

O que representam o sol, a justiça, o Fuerte del Cerro, o cavalo e a vaca?

por Shoichi Iwashita 23 Jan 2017 10:28

Por Rafael AB, especial para o Simonde

Cada país tem sua bandeira e seu brasão de armas (escudo de armas, em espanhol), com os emblemas e os símbolos representativos da nação. No caso do Uruguai, o brasão que faz referência à balança da justiça, ao forte del Cerro em Montevideo, à força dos cavalos e à abundância do gado, tudo sob a proteção calorosa do sol, não poderia ser melhor retrato da realidade do país.

A balança da justiça e da igualdade ficou evidente nas ruas. Apesar da riqueza ostentada em Punta del Este, o Uruguai não é um país riquíssimo nem paupérrimo. Vale dizer, não há essa discrepância social que costumeiramente vemos no Brasil. Ouvi o dono de uma das estâncias reclamar do ensino e da saúde pública, mas fui prontamente atendido no hospital de uma pequena cidade, inaugurando a viagem com dois pontos no dedo e uma garrafa de vinho quebrada.

O Fuerte del Cerro, uma fortaleza construída pelos espanhóis na colina mais alta de Montevidéu no fim do século 18, demonstra o apreço dos uruguaios por sua história política, principalmente na luta contra o domínio português e espanhol, defendendo um território que era extremamente estratégico na época em que toda a riqueza das colônias espanholas fluía pelo Mar del Plata. Essa história está presente nos diferentes faróis de navegação (La Paloma, Jose Ignácio, Punta del Este) e também nos prédios históricos que polvilham por todo o país. Acho que é por isso que me encantei por Colonia del Sacramento, com suas ruas floridas e estreitas, convidando para um passeio despretensioso entre um museu e outro.

O cavalo representa a força dos campos e dos pampas na economia nacional. Diferentemente do Brasil e da Argentina, o país não aderiu por completo ao processo de substituição das exportações, como defendiam os economistas latino-americanos do século XX. Assim, o Uruguai pode ser definido como um país exportador de produtos primários, com destaque para a carne, o couro, o arroz e os lacticínios. E percebi que essa força do campo estava sempre presente nas cabanhas (as fazendas de criação de gado) e nas estâncias do interior, reforçando a cultura gaúcha. Até eu me rendi ao mate do entardecer e aos passeios de cavalo.

Já o gado simboliza a mesa sempre farta dos uruguaios. Parrilla, vino e dulce de leche. Essa foi a combinação perfeita da minha viagem. Que me desculpem os vegetarianos, mas é muito bom se acabar de tanto comer entrecôte, vacío, lomo, costilla e asado de tira (deixo o chichulín e a morcilla para os apreciadores). Tudo isso acompanhado de um bom vinho. E quando se fala em vinho uruguaio logo vem à cabeça a uva tinta Tannat, por ser tão expressiva nas vinícolas e nas bodegas que estão espalhadas por todo o país, principalmente na região de Canelones e de Carmelo (apesar da origem francesa, a Tannat é considerada a “uva nacional”). Para coroar esta experiência gastronômica, nada melhor do que um doce de leite bem escuro, diferente daquele mais clarinho que estamos acostumados a ver em Minas.

Por fim, desponta o sol como a figura que está a zelar por todas as demais. E, no verão, o sol se faz ainda mais presente no céu de brigadeiro. Isso faz a alegria de todos os veranistas que vão aproveitar as praias do país. Engana-se quem acha que o litoral se resume ao luxo de Punta del Este. Tem praia para todos os gostos, como a despretensiosa Punta del Diablo ou a familiar Águas Dulces. Já Cabo Polônio lembra um refúgio hippie. La Paloma transpira jovialidade (na verdade, a cidade estava repleta de adolescentes por causa de um festival de verão). José Ignácio exibe requinte nos beach clubs. As praias de Manantiales, Bikini e Barra exalam uma vibe trendy nas proximidades da clássica Punta del Este. Enfim, praia, sol, mar, comida, campo ….. tem como não se render aos encantos do Uruguai?: O sol, a justiça, o Fuerte del Cerro, o cavalo e a vaca

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.