Trip

O pai dos spas

Um dos mais antigos do mundo, o Brenners Park-Hotel ainda hoje é referência em terapias

por Shoichi Iwashita 19 Jan 2018 11:35

Quando cheguei e vi um gato em cima do balcão da recepção já perguntei: “todo hotel Oetker tem um gato de estimação, é isso?” (o Bristol em Paris tem o Fa-Raon, mas ele tinha uma companheira, a Kléopatre, que não estava se dando muito bem com ele e ganhou nova casa, dessa vez em Baden-Baden). Dom Pedro II se hospedou aqui com sua família em 1887. Nasser-ed-Din, o xá da Pérsia, em 1889. Um dos melhores hotéis do mundo fica em uma cidadezinha alemã com, hoje, 55 mil habitantes. Com a localização mais mágica de Baden-Baden — e em um dos lugares mais lindos do mundo —, este hotel fundado em 1872 foi o primeiro da Oetker Collection (e segue sendo sua sede, apesar de serem deles também o Bristol, um dos palaces de Paris, e o Lanesborough, de Londres; e basta caminhar pelo corredor ao lado da recepção para ver o CEO da Oetker, que trabalha sempre com a porta aberta). E nem alguns contratempos como 1. não ter serviço de quarto 24 horas (só até às 23h), 2. de um dos concierges não ser nada simpático e 3. de eles não terem encontrado minha mala na hora de ir embora, o que quase me fez perder o trem (o carregador pegou apenas as bolsas e, enquanto eles reviravam nervosamente o depósito do hotel, a minha mala estava ainda no quarto, já preparado para receber novos hóspedes), fizeram com que a minha impressão não fosse a melhor.

Isso por que a estrutura do Brenners Park-Hotel & Spa é incomparável. O hotel aberto quando a cidade era o destino de verão obrigatório da nobreza e intelligentsia europeia do fim do século 19 — e de milionários, celebridades e políticos mundiais do século 20 —, não só é formado por vários e elegantes edifícios Belle Époque interconectados por corredores subterrâneos, ricamente decorados, com amplos jardins e na melhor localização de Baden-Baden (tem acesso direto do hotel para a Lichtentalleraller, por uma pontezinha que passa por cima do rio Oos, dando quase em frente ao Frieder Burda, um dos nossos pequenos-museus prediletos no mundo, e que “fornece o caminho mais rápido e belo para o centro”, segundo o recepcionista durante meu check-in; o que é totalmente verdade). Mas tem também comida excelente em seus três restaurantes, que inclui o Brenners Park — com duas estrelas Michelin —, o Rive Gauche (fora do hotel, do outro lado do rio) e o Wintergarten (os dois últimos abertos o dia todo), além um dos melhores cafés da manhã da vida, servido todos os dias até às 11h (#muitoamor) — em salão próprio, o Lichtental —, com o chef preparando o-que-você-quiser-do-jeito-que-você-quiser no momento do pedido, sucos de muitas frutas (tudo fresco), leites vegetais, kefir, itens-sem-gluten-sem-lactose, e o melhor da panificação alemã (os pães alemães são sempre uma perdição) e da viennoserie francesa (estamos aqui a apenas 10 quilômetros da fronteira com o Hexagon). Apesar da idade, o Brenners está completamente alinhado com as necessidades dos viajantes contemporâneos, sem deixar de lado o glamour da sua história.

E se o seu intuito é ainda, como manda a tradição, viver Baden-Baden como um destino de saúde, bem-estar, beleza e relaxamento, o Brenners é o lugar ideal. O Villa Stephanie, o prédio onde está o spa com 500 metros quadrados (lembre-se que você está na Alemanha e a área da sauna, mista, é naked zone), a piscina indoor que lembra termas romanas que se abre para o jardim com vista para o parque, e a academia completa (com professor gato), abriga ainda 15 quartos com decoração contemporânea — que convidam ao detox também digital — e está diretamente conectado com a Haus Julius, o prédio em que ficam os consultórios de médicos de mais de 10 especialidades (cirurgia plástica, medicina preventiva, dermatologia, fisioterapia, cardiologia, neurologia, pediatria; tem russo que só vem ao dentista aqui) onde você pode fazer desde um check-up completo a apenas um programa para ser aproveitado durante sua estadia no Brenners. (Hiponcodríaco que sou, acho sempre reconfortante saber que se está em um hotel rodeado de bons médicos.)

Apesar de o café da manhã não estar incluído no valor da diária (custa € 41 por pessoa e por dia, e vale cada centavo) e você precisar pagar pela bicicleta (não deixe de alugar uma para explorar a belíssima região), o wi-fi não é cobrado, assim como você pode consumir à vontade as bebidas não-alcoólicas (água, sucos, refrigerantes, kombucha e Red Bull) que estão no frigobar.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.