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O centro do mundo que é Londres

Da gastronomia à moda e às artes, a capital britânica é unica no planeta

por Hermés Galvão 28 Nov 2016 15:43

Londres é a terapia ocupacional de um mundo em eletrochoque. Desmedida em sua neurose latente, atraente na loucura passageira de uma cidade em eterna crise de meia idade, mas nunca de identidade, quer ser jovem a vida toda a velha metrópole que inventou, inclusive, a juventude. Cresceu atônita em sua fuga do lugar comum e amadureceu na surpresa diária de sua rotina; válvula de escape por si só, faiscante pela própria natureza de sua gente que na falta de luz que vem do céu inventou uma maneira artificial de brilhar e nem por isso pouco original. Transformou em qualidade todos os seus defeitos, eles, seus habitantes, ingleses nativos ou adotivos, charmosos excêntricos, esnobes, irônicos, tradicionalmente cáusticos. É chegar e não largar, e se deixar levar pela cabeça perdida de um povo que sempre se achou por nunca querer encontrar nada além de uma boa vida.

Hedonistas, imperialistas e narcisistas, lovely bastards. Londres também nunca perdeu sua majestade; de capital da cultura, onde teatro, literatura, moda, cinema, decoração, música e arte pulsam no underground para depois chegar ao mainstream, e de umbigo do mundo, onde oriente e ocidente se encontram numa energia difusa e se misturam na ruas e nos menus dos restaurantes mais fusion e confusion da Europa – quem diria, a antiga capital da gastronomia obscura da Terra botou o pau na mesa e hoje, mais do que nunca, tem a cozinha super estrelada das galáxias. Reinventam-se da noite para o dia, inventa-se a toda hora tendências que mais tarde o resto do planeta vai aderir, diluir. E quando isso acontecer, ah, eles já vão estar em outra. O resto do mundo é so last season para eles…

Mais que atuais, a frente de um tempo que, a propósito, começa a contar ali no meridiano zero, estão todos lá, enfurnados e apertados entre ruas não menos estreitas que em sua escala diminuta fazem os ônibus vermelhos parecerem ainda mais estranhos, encruzilhados entra a saída do metrô e qualquer ponte que estreita todas as intimidades entre duas margens que não se perdem como em Paris. Democrática de mentirinha, aristocrática na veia, global desde quando era feudal, mantém inabalável seus costumes seculares, sua moeda, seus sistemas de medidas, padrões e direções, mas que ao mesmo tempo deixa claro sua vocação para a transgressão. Disse Samuel Johnson lá em 1791 a máxima que define a cidade para uns: “Quando um homem se cansa de Londres, ele está cansado da vida; porque há em Londres tudo que a vida pode trazer.” Em 1816, a não menos britânica Jane Austen escreveu que “a verdade é que em Londres há sempre uma estação doentia. Ninguém é saudável em Londres, ninguém pode ser”. Fiquemos com ela. Por ser mais, digamos, atual. Mas esperemos, pois, que alguém apareça com definição mais contemporânea. E menos clichê.

Hermés Galvão

Hermés Galvão nasceu em 1975, no Rio de Janeiro. É jornalista e cronista de Carbono Uomo e Vogue Brasil. Autor do livro “Como Viajar em Tempos de Crise Financeira e Existencial”. Vive pelo mundo, sem destino conhecido, entre Barcelona, Roma e os espressos mal tirados dos aeroportos do Brasil. 

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