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O Casa de Uco, em Mendoza, é um hotel que vale como destino. Lá você pode fazer seu próprio vinho orgânico, descobrir como pensa a nova geração de enólogos argentinos, comer assados em meio aos 300 hectares de terreno com vista para os Andes e descansar em uma construção com linda arquitetura

por Luciano Ribeiro 1 Jun 2017 00:53

O asfalto que cobre as milhares de pedras irregulares, ligando por 1,5 quilômetro a estrada principal de Mendoza, na Argentina, ao Casa de Uco Wine Resort, foi derramado há dois anos. Era o toque final para o lançamento de um dos lugares mais bacanas que Carbono Uomo visitou ultimamente – e foram muitos, como você pode ver nesta edição. Com apenas 16 quartos, o hotel é mais do que uma acomodação, ele tem a força de ser um destino em si. Ou seja, vale a pena você fazer conexão em Buenos Aires, esticar mais 2h30min de voo, seguir por mais 1h30min de carro para se hospedar lá. E, aí sim, conhecer a região.

Em minha estada de quatro dias, não cheguei a ir a Mendoza – embora recomende que você faça isso, nem que seja para provar a comida do Maria Antonieta, restaurante de Vanina Chimeno, mulher de Francis Mallmann. Recentemente, o aeroporto estava em obras, então a ida e a volta foram por San Rafael cidade um pouco mais distante. Concentre  meu tempo no Vale de Uco, um daqueles lugares que, diferentemente das cidades brasileiras, vem se desenvolvendo bem, o que, no meu conceito, significa prezar por boa arquitetura, restaurantes sem afetação, segurança, incentivo à agricultura orgânica, nenhuma poluição (nem ambiental nem sonora).

Há pouco mais de dez anos, o Vale de Uco era uma região isolada, com terras baratas, sem atrativo turístico. A primeira vinícola importante a se instalar ali foi a Salentine, seguida do conglomerado francês Clos de los Siete, encabeçado pelo enólogo Michel Rolland. E, então, tudo começou a mudar. Há uma década, a graça era mesmo, e apenas, estar aos pés da Cordilheira dos Andes. Hoje, há bons hotéis e restaurantes, especialmente se você ama vinho. No Casa de Uco, vale pedir para o staff preparar um churrasco típico argentino em meio aos 320 hectares de terreno. Os chefs levam os excelentes miúdos e embutidos locais (mollejas grossas e morcillas picantes entre eles), bifes de chorizo, ojo de bife, e todos são assados numa churrasqueira a lenha improvisada. Seu conforto é garantido com mesas forradas e cadeiras sob tenda, guardanapos de pano, talheres e a vista inesquecível dos Andes.

A graça também está em beber os tintos e brancos orgânicos cultivados ali mesmo na propriedade. E em correr entre as videiras, mergulhar na piscina com vista para as montanhas, descansar nos quartos, jogar sinuca, aprender a fazer drinques, praticar mountain bike, provar a omelete com linguiças no café da manhã, a gigante milanesa no almoço e os raviólis de queijo de cabra no jantar. Tudo, quase sempre, com os densos malbecs.

O hotel foi construído pelos mesmos incorporadores do grupo Chacofi, empresa com mais de 60 anos no mercado imobiliário e responsável por grandes edificações em Buenos Aires. Um dos sócios do hotel é o jovem Juan Tonconogy, herdeiro do grupo, que implementou um pensamento novo sobre práticas orgânicas desde que as primeiras parreiras foram plantadas. No Casa de Uco qualquer pessoa pode produzir seu próprio vinho. Você está livre para desenhar o rótulo, escolher a quantidade das uvas que vão compor o blend (se for o caso), o terreno em que elas serão plantadas, a hora de serem colhidas.

O wine program começa com US$ 7,5 mil e inclui hospedagens no hotel, a expertise de agrônomos e enólogos para elaboração do seu tinto ou branco, além de 300 garrafas numeradas para você. O cliente também pode comprar o seu quinhão de terra e fazer da brincadeira um esporte profissional Comentei com Juan o fato de achar os vinho argentinos todos muito parecidos, sempre escuros demais, potentes demais, alcoólicos demais, difíceis de beber. Juan garante que ele, assim como toda a nova geração, concorda com essa opinião. E, aos poucos, estão começando a mudar o estilo. “Nosso enólogo Alberto Antonini é um italiano que dá , dá muita importância ao terroir, à expressão máxima da terra, às uvas. Estamos alinhados com o que o consumidor internacional busca. E ele quer tintos fáceis, orgânicos e com pouca interferência da madeira, com pequena concentração de álcool”. Depois disso, Juan buscou uma garrafa de pinot noir, uma raridade na terra dos malbecs, e abriu. Era um tinto de cor leve, delicado, com 12% de teor alcoólico. “São tintos assim que vão definir nossos vinhedos e a nossa filosofia”, finaliza Juan.

The Vines

O hotel fica a menos de 15 minutos do Casa de Uco. Em comum, tem terrenos com videiras que podem ser comprados por clientes que desejam fazer seus próprios vinhos. Alguns brasileiros já produzem suas bebidas ali. Vale a pena ir até lá nem que seja para provar a comida do Siete Fuegos, comandado por Francis Mallmann. O chef montou sete maneiras diferentes de se fazer assados: tem brasa, lenha, forno, chapa etc.

Clos de los Siete

Ao se instalar no Vale de Uco, o francês Michel Rolland tentava reverter o declínio do consumo de vinhos na Argentina – em menos de uma década, eles passaram a beber 30 litros por pessoa em vez de 90 litros. Rolland se apaixonou pelas terras e convidou mais seis produtores de Bordeaux para criar o Clos de los Siete. Atualmente, a produção está em cinco milhões de garrafas e o tinto tornou-se um dos ícones locais. Se estiver no Casa de Uco, não deixe de agendar uma visita em uma das sete vinícolas. A Diamandes é a mais nova – e muito moderna.

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