Trip

No fim das Américas

Fomos até o Ushuaia para conhecer o lado aventureiro do ponto mais austral do continente

por Luciano Ribeiro 18 Jul 2017 11:39

O Ushuaia fica a mil quilômetros da Antártica. Ou seja, do Polo Sul. Uma distância similar separa São Paulo de Porto Alegre. Se geografia é destino, se a gente pode afirmar que a posição de uma cidade no mapa é capaz de definir um povo inteiro, o que significa, no dia a dia, ser o lugar mais austral do planeta, ser o Fim do Mundo, ser a Terra do Fogo, além de títulos-chamarizes para turistas europeus aposentados? Essa foi a pergunta que tentei responder nos quatro dias que passei nessa província da Patagônia, no fim de novembro, quando dei a sorte de pegar dias de verão – isso quer dizer temperaturas de 12 graus de dia e dois graus à noite. Nas primeiras horas lá, quis entender que tipo de gastronomia existe numa terra onde há basicamente duas estações: a com neve e a sem neve, sendo que a primeira predomina oito meses do ano e a segunda é a consequência da primeira.

A fauna tem castores predadores, raposas e lobos – eles só aparecem à noite. De dia, podem-se ver lindos pássaros – inclusive filmei um pica-pau em ação e fiquei impressionado com a força de suas bicadas e o diâmetro do buraco que ele consegue fazer nos troncos. A flora traz apenas três espécie de árvores, quase todas com caules cobertos de musgos. Maçãs, morangos, uvas e outras frutas de clima temperado não sobrevivem no Ushuaia. A mata tem galhos tombados pelo vento, e cada passo que eu dava nas trilhas pensava no René Redzepi, chef do Noma, já eleito o melhor restaurante do mundo. São tantos musgos e fungos e matéria-orgânica-gelada não-identificada que o cozinheiro nórdico poderia montar no Ushuaia uma filial do seu premiado estabelecimento dinamarquês.

Mas a região não é para quem curte gastronomia – embora haja bons cordeiros patagônicos, centollas e merluzas negras. Em vez de chocolates e doces de leite, lojas de vinhos, carnes e embutidos, o que a cidade melhor oferece são butiques de material esportivo para frio e ventos extremos. Ali, todo o mundo parece ter pelo menos uma jaqueta impermeável da North Face ou da Patagonia e calçados marrons com solado de borracha preta Timberland. A cidade é para quem ama esportes de aventura. A ponto de – e isso chamou muito a minha atenção, achei um momento inesquecível – escolherem um documentário maravilhoso de surfistas que desafiam situações extremas de frio, isolamento e falta de comida para entreter os turistas durante um passeio de catamarã pelo Canal Beagle (o Pão de Açúcar, o sanduíche de mortadela, a Torre Eiffel local). A travessia leva, ao todo, quase quatro horas e você embarca nessa para ver leões-marinhos se espreguiçando e pinguins livres em uma praia de chão de pedra. Voltei tendo a certeza de que pinguins são os animais mais fofos do planeta – nunca vi de perto um urso panda. De qualquer forma, as quatro horas seriam entediantes não fosse a percepção de alguém no catamarã de pôr o documentário Peninsula Mitre, la Tierra Olvidada, dos irmãos argentinos Julian e Joaquim Azulay, os Gauchos del Mar. Sério, baixe, compre, veja no YouTube. É comovente ver o estoicismo dessa dupla em busca de ondas nas regiões mais remotas e escondidas da Patagônia.

Os esportes no Ushuaia, no entanto, são trekking, pesca, esqui alpino e escaladas. A geografia particular faz com que, mesmo a nível do mar, você veja, a metros de distância, montanhas com seus cumes brancos, que, ao derreterem (e não totalmente), formam lindas lagoas naturais – uma das mais bonitas é a Laguna Esmeralda, onde se chega após andar cerca de 1h30min em uma trilha fácil. Há dezenas de caminhadas – dependendo da sua disposição, você pode passar dias na mata. Nós preferimos dormir no conforto e nos hospedamos no Arakur. O hotel é o melhor da cidade e serve como base perfeita para quem quer passar dias se aventurando nas trilhas, nos lagos, no frio, mas espera descansar de verdade na volta. Não é um hotel butique. O Arakur é relativamente grande e seu restaurante recebe muitos não hóspedes pela fama que conquistou entre turistas e locais. No menu, há centollas e merluzas negras. Mas quase todos optam pelo bufê, servido diariamente com assados preparados na hora: morcillas, mollejas, cordeiros, ojo de bife, linguiças e muitos legumes na brasa. Mas o imperdível ali são as piscinas aquecidas com vista da cidade. Como no verão escurece apenas depois da 23h, era comum ver muita gente, tarde da noite, debruçada sobre as bordas, relaxando a musculatura, embasbacada com a paisagem. Aventura é bom, mas acampar só mesmo pela televisão do catamarã.

ANTÁRTICA
Do Ushuaia saem barcos para o continente gelado mais ao Sul do mundo. As diárias a bordo costumam sair a partir de US$15 mil por pessoa. Lá você descobre que existe uma possibilidade de embarcar por menos. Algumas operadoras oferecem o Last Minute. Ou seja, quando o barco não está completo eles vendem um tíquete, em cima da hora, por US$5 mil.

AEROLÍNEAS ARGENTINAS
A companhia melhorou. Hoje opera com Boeings novos, tripulação simpática e serve um gostoso pão de miga durante a viagem. Virou uma boa opção para voar até o Ushuaia. Você precisa ir primeiro a Buenos Aires e, em seguida, mais 3h30 até a capital da Terra do Fogo.

O QUE É A PATAGÔNIA?
A disputa verdadeira de argentinos não é com brasileiros – isso é coisa criada por Galvão Bueno. Até por questões territoriais, nossos hermanos têm rixa profunda com o Chile. Parte dela vem da Patagônia, região com quase 800 mil quilômetros quadrados com grandes áreas virgens dividida entre os dois países. Sua cidade mais conhecida é Bariloche. O tempo é sempre imprevisível e pode mudar muito durante o mesmo dia. O ideal, caso queira evitar frios extremos, é visitá-la entre dezembro e março. São seis os parques nacionais mais conhecidos: Torres del Paine, Laguna San Rafael e Alberto de Agostini, no Chile, e Nahuel Huapi, Terra do Fogo e, Glaciares, na Argentina.