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Hotéis-Palace: a distinção máxima da hotelaria francesa

Um guia rápido para entender uma categoria exclusiva de hospitalidade

por Shoichi Iwashita 9 Nov 2016 10:10
A Suite Impériale do recém-reaberto Ritz Paris, que deve entrar para a lista de Palaces em 2017. Imagem: Divulgação

Desde os anos 1960, a França usava um sistema de classificação de hotéis próprio, que ia de zero a “4 estrelas luxo”. Quando resolveu aderir à classificação internacional (de uma a cinco estrelas; era o único país do mundo que não a utilizava, o que confundia a cabeça dos viajantes), o país que inventou o luxo contemporâneo resolveu não só aderir às cinco estrelas mas também criar uma categoria acima dela. E, apesar do nome que evoca séculos de história e tradição, a distinção Palace, dada pela agência de desenvolvimento turístico do país aos hotéis de excelência à la française, tanto da França continental quanto de seus territórios ultramarinos, só foi criada em 2010 com a mudança do sistema de classificação hoteleira. Os primeiros oito hotéis só receberam a distinção em maio de 2011 e, desde então, o título se transformou numa importante ferramenta de comunicação para os hotéis que fazem parte deste seleto clube (além da placa que ostentam na porta). Todos os anos, a gente aguarda a nova lista para saber quais hotéis entraram e se algum hotel saiu (apesar do caro e complexo processo de requerimento, uma vez conquistado, o título só tem validade de cinco anos; em 2016, por exemplo, os oito hotéis que haviam conquistado a distinção em 2011 solicitaram a renovação de seus títulos, passando por todo o processo novamente)…

TODO PALACE É 5 ESTRELAS MAS NEM TODO 5 ESTRELAS É PALACE
Se a classificação de um hotel cinco estrelas na França leva em consideração 240 critérios, incluindo — além da estrutura, serviços, conforto, higiene — sustentabilidade e novas tecnologias, o de um hotel Palace é ainda mais complexo: além dos fatores objetivos (todos os de um hotel cinco estrelas mais os específicos, como área mínima de 30 metros quadrados para os quartos; número de suítes — área mínima de 60 metros quadrados — que representem 20% da oferta de quartos; spa; restaurante gastronômico; proporção de 2,75 funcionários por quarto; bagagens entregues no quarto em menos de dez minutos; porcentagem do faturamento anual investido na manutenção e melhoria da propriedade) existem ainda os fatores subjetivos, como, por exemplo, “ter uma história que contenha uma parte de sonho, um tipo de encantamento pelas fantasias que ela suscita (…) em quartos que sejam uma espécie de obra literária”, nas palavras — e em tradução livre — do presidente do júri. Para essa tarefa, o Ministro do Turismo nomeia uma comissão formada por “cinco sábios” (that is sooooo français), personalidades do mundo das letras, das artes, da cultura, da mídia e dos negócios, que será encarregada de produzir um dossiê depois de visitas, hospedagens e uma auditoria completa do hotel. O processo, que geralmente faz com que a propriedade possua uma equipe especial para lidar com toda a documentação exigida (sem garantia de obtenção do selo, como foi o caso do hotel Negresco de Cannes, em 2011), é bem caro, e não pense que ele não estará incluso no preço das diárias.

O HOTEL DE LUXO QUE NÃO QUER SER PALACE

O delicioso jardim cheio de referências às borboletas-símbolo do Mandarin Oriental Paris (junto com o leque da marca). Imagem: Divulgação
O delicioso jardim cheio de referências às borboletas-símbolo do Mandarin Oriental Paris (junto com o leque da marca). Imagem: Divulgação

O fato de um hotel cinco estrelas não ser Palace não significa necessariamente que ele não tenha o mesmo padrão, já que nem todo hotel acha importante passar pelo árduo processo para conseguir o título, como é o caso dos 11 hotéis cinco estrelas do Grupo Barrière, entre eles o Fouquet’s Barrière de Paris, que fica do ladinho da Champs-Elysées, e que poderia tranquilamente conquistar a distinção máxima. A rede de hotéis nunca fez qualquer solicitação para as suas propriedades por achar que o selo não diz muita coisa fora da França e por temer que o título Palace afugente os viajantes de negócios.

ONDE ESTÃO OS HOTÉIS PALACE?
Hoje (fim de 2016) são 23 hotéis Palace. Dez deles ficam em Paris (mas o recém-reinaugurado Ritz ainda não consta na lista, já que a comissão exige que um hotel só inicie a solicitação depois de seis meses da data de reabertura; e dos dez, sete pertencem a asiáticos, entre chineses, árabes e o sultão de Brunei), três estão no minúsculo vilarejo-estação-de-esqui de Courchevel, seis na ensolarada Provence, e o único que fica fora da França continental está no Caribe, na ilhota de Saint-Barthélemy (para os íntimos, Saint-Barth).

E vamos para a lista que só aumenta, mostrando que a França, desde Colbert, o primeiro-ministro de Luís XIV, se esforça continuamente para atrair os viajantes ricos e sofisticados do mundo (em 2013, eram apenas 13 Palaces). Em Paris tem o Meurice {leia a nossa crítica, clicando aqui}, o Mandarin Oriental, o Park Hyatt Paris Vendôme, o Bristol, o La Réserve, o Four Seasons Georges V, o Plaza Athénée, o Royal-Monceau, o Shangri-La e o Peninsula. Em Courchevel, estão o Les Airelles, o K2 e o Cheval Blanc. Em Biarritz tem o Hôtel du Palais. Na Provence, o La Réserve, em Ramatuelle; o Grand-Hôtel du Cap-Ferrat, em Saint-Jean-Cap-Ferrat; o Cap Eden Roc, em Antibes; o Byblos e o Château de la Messardière, ambos em Saint-Tropez; e o La Bastide de Gordes, em Gordes. E ainda tem o Sources de Caudalie, em Bordeaux; o Royal Évian, em Évian-les-Bains, à beira do Lac Léman, na fronteira com a Suíça; e o Cheval Blanc, em Saint-Barthélemy, no Caribe.

QUANTO CUSTA SE HOSPEDAR NUM HÔTEL-PALACE

A piscina com vista para o Lubéron do La Bastide de Gordes, hotel que acaba de receber o título Palace. Imagem: Divulgação.
A piscina com vista para o Lubéron do La Bastide de Gordes, hotel que acaba de receber o título Palace. Imagem: Divulgação.

Se em Paris, é possível encontrar ótimos hotéis com a localização, a sofisticação e a identidade que a gente aprecia por 350 euros a diária, passar a noite num hotel Palace custa três, quatro, cinco vezes esse valor, entre € 1000 e € 1500, sem café da manhã incluso (por isso, esses não são hotéis para aqueles que passam o dia todo da rua e só voltam à noite para dormir, já que você não aproveitará toda a estrutura que faz da propriedade um Palace). Esses valores são ainda maiores nos hotéis em Courchevel, quando as diárias variam entre € 2500 e € 3000 para um quarto com 35 metros quadrados, mas aí com café da manhã e jantar inclusos (demi-pension ). Já nas propriedades do interior da França, os preços são mais acessíveis e você encontra tranquilamente diárias a € 350.

E aguardamos em 2017 a entrada na lista do hotel Ritz Paris e a reinauguração do Crillon, que deve receber seu título em 2018.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.