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Dirigindo na França

Um guia definitivo para percorrer o país europeu de carro

por Shoichi Iwashita 19 Jun 2017 12:23
Autodesk VRED Professional 2016 SP1

A tentação é grande de alugar um carrão conversível para percorrer as estradinhas cenográficas e ensolaradas da região da Provence e Côte d’Azur com aquela liberdade que só o dirigir permite para fazer as coisas no seu tempo, explorar as paisagens, ir e voltar na hora que quiser. Mas acredite, se você quiser dirigir pelas áreas medievais, tantos os vilarejos quanto as regiões antigas e centrais das cidades, alugue um carro pequeno. Ainda assim é inevitável a apreensão em muitas ruelas, tão estreitas que nos fazem duvidar de que o carro possa passar por ali, tão curvas que se torna impossível vislumbrar uma saída (e com capacidade para receber 0,8 da largura de um carro, reze para não ter ninguém vindo na direção contrária; isso quando elas não estão à beira de enormes precipícios).

PRECISO MESMO DE UM GPS NO CARRO? S-I-M!
Mesmo que você esteja com acesso a internet pelo celular através de um SIM card local e conseguindo usar o Waze ou o Google Maps, sempre alugue o carro com GPS pois no meio da viagem quando você estiver para pegar aquela outra estrada à direita, pode ser que aconteça de o sinal do celular desaparecer, o Maps não atualizar, e aí adeus chegar ao destino no horário planejado… E quando houver sinal para tudo (tipo, na cidade, antes de pegar a estrada), é sempre bom colocar o mesmo endereço no GPS do carro e no celular para ver se eles estão indo para a mesma direção (porque tem hora que o GPS erra). E se for desses prevenidos, também tenha um bom mapa em papel (eu prefiro sempre não depender só da tecnologia, porque ela só é maravilhosa quando funciona…): os da Michelin são vendidos nos postos de gasolina. Na minha última viagem à Côte d’Azur, aluguei um Audi TT, que já vem com o GPS no painel.

A ESTRADA CERTA PARA VER AS PAISAGENS MAIS BONITAS
Entre uma cidade e outra, você vai encontrar dois tipos de estrada (e geralmente você pode escolher a rota pelo GPS): 1. as autoroutes, rodovias com velocidade máxima entre 110 km/h e 130 km/h, sempre com pedágios e indicadas por placas azuis escritas com a letra A seguida do número da rodovia (por exemplo, para ir de Avignon a Aix-en-Provence é preciso pegar a A7 e a A8) e 2. as routes départamentales, as estradas departamentais gratuitas (sem pedágio), iniciadas pela letra D em placas amarelas, que são menores, arborizadas (parecem cenas de filme), passam no meio das cidadezinhas (quando você tem de diminuir a velocidade, pegar os faróis, mas dá para parar e tomar um café ou sorvete) e possuem as paisagens fotogênicas que a gente tanto procura. Por isso, rodovias-autoroutes só se você quiser chegar mais rápido ao destino porque é como dirigir pelas estradas paulistas: boas para dirigir mas charme zero. Importante ressaltar, no entanto, que as routes départamentales são estreitas. Idealmente, vias de mão duplas que são, elas deveriam comportar dois carros, um em cada direção, mas na verdade suportam um carro e meio, não têm acostamento, apresentam muitas curvas fechadas, têm como limite de velocidade 90 km/h (eu não consigo passar de 50 km/h) e, para piorar, elas estão repletas de ciclistas no verão, sozinhos ou em grupo, todos paramentados como se fossem atletas do Tour de France (os franceses adoram pedalar e deve ser mesmo por influência desse campeonato que é um grande evento no país). Ou seja, é preciso ter muita atenção ao dirigir (muita atenção na estrada para não atropelar alguém; e lembre-se sempre de manter uma distância de 1,5 m dos ciclistas), já que os franceses, acostumados com as pistas, costumam correr. E aí, tem as rotatórias, centenas, milhares delas, e você só deve se lembrar que a preferência nunca é sua, é sempre de quem está rodando; você sempre vai ver a placa “Cédez le passage” (ceda a passagem).

OS DIFERENTES TIPOS DE PEDÁGIO
As autoroutes na França são privatizadas e administradas por várias empresas. Por isso, os sistemas de pedágio (“péage”, em francês) também variam (para piorar a nossa vida). Tem pedágio que você já paga direto (apesar de aceitarem cartão de crédito, tenha sempre moedas — vá guardando as moedas dos trocos — e dinheiro trocado, pois as máquinas aceitam no máximo cédulas de 20 euros), tem pedágio que você só aperta o botão, retira o tíquete na primeira parada (sem pagar nada), segue viagem e paga lá na frente de acordo com a distância percorrida. Os mais legais são os pedágios da concessionária Vinci que tem um espaçoso bolsão de plástico que te permite atirar as moedas — de dentro do carro mesmo, adoro! — e ter a cancela liberada (parece brinquedo de parque de diversões). Só não vá esquecer a carteira no hotel como eu fiz um dia… Foi uma confusão, um buzinaço e não foi nada legar ter de explicar tudo e soletrar gritando cada letra do meu nome, endereço completo, email para que eles me mandassem a fatura para pagamento no Brasil. Na foto, o lindo pedágio da Vinci, com as opções de cada posição. Os que estão marcados apenas com a letra “t” é para quem tem a versão francesa do Sem Parar.

COM TODAS ESSAS VINÍCOLAS, PODE BEBER?
Imagina que você está na praia em Pampelonne, em Saint-Tropez, ou embebido em cultura no festival de teatro em Avignon, mas sabe que a poucos quilômetros das cidades existem ótimas vinícolas. E aí, surge o eterno dilema: como combinar álcool e direção? A sorte é que a lei francesa permite beber um pouquinho e dirigir. Se você tem mais de três anos de carteira, o limite de álcool permitido no sangue é de 0,2 g por litro. Se você já dirige há mais de três anos, o limite é 0,5 g de álcool por litro de sangue. Mas, atenção: se você for pego com uma concentração entre 0,5 g e 0,8 g, vai pagar uma multa de € 135; se acima de 0,8 g, você vai para o tribunal e a multa é de € 4.500. Grosso modo, uma pessoa que pesa 65 quilos pode tomar duas taças de vinho com 12% de álcool (150 ml cada uma) durante a refeição e ela estará com 0,4 gramas de álcool no sangue. Ou seja, dentro do permitido. Já se ela estiver bebendo o vinho puro, uma taça de 150 ml já faz com o seu nível de álcool no sangue seja de 0,32 grama. Ou seja, é melhor parar por aí.

ATENÇÃO COM O EXCESSO DE VELOCIDADE
Pois se você exceder o limite de velocidade de uma via em 40 km/h, a penalidade é tão grave que, se você for pego, o guarda tem direito de confiscar o seu carro.

COMO PARAR O CARRO NAS MUITAS CIDADEZINHAS
Em quase todas as cidades, existem estacionamentos — a maioria gratuita por até uma hora (que dá para fazer um belo passeio pelo centrinho) ou quando pagos, bem baratinhos (ainda mais se você estiver acostumado com os preços de São Paulo) — que você encontra sinalizados em placas azuis com a letra P. Se você encontrar uma vaga, é só parar e explorar a cidade. Nas ruas, você pode estacionar sempre que elas forem largas o suficiente, a não ser que elas tenham faixas amarelas pintadas no meio-fio, pois isso indica que o estacionamento é proibido. Se a faixa amarela for intermitente, pode parar mas não pode estacionar; se for contínua, não se pode estacionar nem parar.

COMO ABASTECER O CARRO
Na França não tem frentista, por isso se você nunca abasteceu carro na vida, no momento de retirar o veículo na locadora, pergunte como abre o tanque de gasolina (na primeira vez que eu tive de abastecer eu não fazia a menor ideia e tive de pedir ajuda; mas, não se preocupe pois é fácil) e qual é o combustível que você deve utilizar para encher o tanque. São dois tipos: 1. gazole, que quer dizer diesel; e 2. essence, que é a gasolina. E aí, tem dois ou três tipos de essence-gasolina dependendo do posto, mas geralmente são dois: o SP95 e o SP98 (SP quer dizer “Sans Plomb”, sem chumbo, e o número — 95 ou 98 — é a octanagem do combustível: quanto maior, melhor o desempenho do motor; só para comparação, no Brasil a octanagem das gasolinas comum e aditivada é de 87, e só a premium fica entre 91 e 93). Por isso, se você alugar um carro esportivo, a locadora vai te dizer para abastecer só com SP98. Mas não se preocupe quando, em algumas cidadezinhas do interior, você encontrar só SP95 e gazole nas bombas. Um motor que pede SP98 pode ser abastecido com SP95 tranquilamente, mas não o contrário (um motor SP95 não pode receber SP98). Essa é a única informação que você tem de saber. De resto, é só abrir o tanque do carro, pegar a mangueira da bomba, apertar o gatilho, encher o quanto você quiser e depois passar no caixa, informando o número da bomba e pagar. ;- )

ATENÇÃO NA HORA DE RETIRAR O CARRO NA LOCADORA
A forma mais rápida de se locomover pela França é através do trem rápido, o TGV (Train à Grande Vitesse). Por isso, se você estiver indo para a Provence – Côte d’Azur, dá para começar sua viagem por Avignon, Aix-en-Provence, Marselha ou Nice, pois todas elas são atendidas pelo TGV. Mas é só preciso se atentar para o fato de que em cidades como Avignon e Aix-en-Provence, por exemplo, as estações por onde passam os trens TGV não são as mesmas dos trens comuns, elas ficam distantes da cidade (Avignon, por exemplo, tem uma estação de trem no centro, mas a estação Avignon TGV, na foto acima, fica a 5 quilômetros; Aix-em-Provence tem uma estação de trem bem central, mas a estação Aix-em-Provence TGV fica a 22 quilômetros – o que é longe, a 25 minutos do centro da cidade!); em outras, como Nice e Marselha, a cidade tem duas ou três estações de trem, sendo que apenas uma delas é atendida pelo TGV. Por que é importante saber isso? 1. Para agendar o local correto de retirada do veículo; e 2. para ter em mente os trajetos e os tempos na hora de ir embora para não perder o trem (eu quase perdi o trem de Aix-en-Provence uma vez; ainda bem que eu tinha saído com antecedência do hotel…).

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.