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Dez Mandamentos

Visitamos as cidades mais visionárias do mundo e contamos como elas vêm se adaptando a um mundo cada vez menos dependente do carro

por Hermés Galvão 14 Jul 2017 11:01

Bicicleta é fato consumado, as smart cities discutem agora, antes tarde do que nunca, a exclusão parcial e, em casos de um bem-vindo extremismo, a retirada integral de carros de suas ruas. Em meio século, o mundo (ou parte dele) vai tomar de volta os espaços que já foram de pedestres, numa bem-sucedida parceria entre profissionais de transporte, habitação e meio ambiente.

AMSTERDÃ

O pesadelo da cidade é o sonho de qualquer outra metrópole mundial: há bicicletas demais (são quase 900 mil, para uma população que não chega a 1 milhão) e, sim, existe bate-boca entre ciclistas, engarrafamento nos horários de pico e, que grave, encontrar uma vaga (um poste que seja) é gincana cotidiana. Para 2020, uma garagem subterrânea, ao lado da Central Station promete aliviar parte do problema – a outra se resolve este ano com a conclusão das obras da quinta linha do metrô, que vai cortar Amsterdã de Norte a Sul, integrando linhas de trem, ferry e tram. Carros? Cerca de 65% da população não usam ou não têm. Amsterdã é a cidade com maior número de ciclistas por metro quadrado do mundo. O restante vai de Uber movido a combustível derivado da queima do lixo.

BARCELONA

Desde as Olimpíadas de 1992, a cidade tem matutado maneiras de livrar-se dos carros, se não para sempre, pelo menos por um tempo. Ampliou, e muito, sua rede de metrô, criou o VLT para conectar a área metropolitana aos bairros mais modernos e, cereja do sundae, implementou o conceito da supermanzana – em português claro, os superblocks. Quarteirões inteiros serão fechados para veículos, liberados para pedestres, formando, assim, grandes praças e pedonais. A primeira “grande maçã” cresceu em setembro passado, na região do Poblenou, dando ótimos frutos: a população reconquistou as ruas com festas, esportes e, claro, boêmia.

HAMBURGO

A cidade mais hipster da Alemanha (de fato, Berlim é de foto) também caminha para ser a mais verde. Em 20 anos, o plano Grünes Netz, ou Rede Verde, promete banir todos os carros, promovendo a circulação de bicicletas e pedestres por parques e jardins que serão interligados formando um grande cinturão eco na segunda metrópole do país. O projeto ainda prevê áreas de natação e
escalada, futebol e bird watching – nada mais alemão. Utopia? Não. Teoria que já está sendo colocada em prática. Nada também mais alemão.

CIDADE DO MÉXICO

Desajeitada e engarrafada como São Paulo, a capital mexicana saiu na frente ao bolar um plano nada mirabolante para subverter sua lógica atual: a de priorizar carros e motoristas, em vez de pedestres. Desde 2009, foram criados mais de 300km de ciclovias ou faixas exclusivas em ruas e avenidas dorsais da cidade, sendo que cada trecho sempre começa ou acaba em espaços públicos ou em terminais de transporte (e não em pontos turísticos), com bicicletários e estações de aluguel de bikes a preços bem acessíveis para a população majoritariamente carente. A propósito, o metrô, com suas 11 linhas e mais de 200km de extensão, custa módicos três pesos – ou R$0,40. E vai longe.

COPENHAGUE


Pioneira em projetos de mobilidade, a cidade tem se preparado para livrar-se dos carros nos últimos 40 anos com projetos de retomada do espaço urbano para pedestres. No plano, ruas foram se transformando em pedonais, estacionamentos deram lugar a parques, o skyline manteve-se baixo para que a escala humana não sumisse na paisagem. Há mais bicicletas que carros (o dobro), o meio de transporte oficial e mais eficaz, com inúmeras estações, onde cada um pode pegar a “magrela” em troca de uns centavos e circular livremente pelas autoestradas exclusivas, iguais às destinadas a veículos particulares e transportes públicos, que já circulam com combustível alternativo.

HONG KONG

Centro financeiro mais frenético do mundo, Hong Kong mantém um sistema impecável de transporte público: pontual, barato, bem conservado e limpo. Além de metrô, trem, balsa, ônibus e táxis abastecidos a gás liquefeito, a metrópole conta com escadas rolantes cobertas, que transportam 60 mil pessoas diariamente. Lá, mais de 90% dos habitantes se locomovem em ritmo coletivo, chegando rapidamente às áreas de lazer, seja no mar ou na montanha.

VANCOUVER

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Uma grande rede de compartilhamento de bicicletas e veículos híbridos (que têm estacionamento gratuito nas ruas) fez os moradores de Vancouver deixarem seus carros na garagem. Hoje, quase a metade das viagens feitas dentro da cidade são pelo sistema público de transporte. E, até 2020, a cidade com a melhor qualidade de vida das Américas pretende diminuir em mais de 30% a emissão de poluentes no ar. Um novo plano diretor também obriga as incorporadoras a concentrarem a maioria dos investimentos imobiliários residenciais em áreas próximas aos corredores de trânsito e/ou voltadas para pedestres no centro da cidade.

VIENA

A capital austríaca apresentou em 2014 seu projeto para tornar-se uma smart city. As ações integram atividades de trabalho e lazer da população, além do plano de igualdade de acesso entre gêneros. Hoje, em Viena, calçadas e passeios são bem mais iluminados e parques possuem quadras de badmington e vôlei, os esportes preferidos do público feminino do país. Toda a cidade, do centro ao subúrbio, está interligada por redes de trem, metrô, ônibus e bicicleta – são nada menos que 1.300km de ciclovias no novo hotspot hipster europeu.

TÓQUIO

A megacidade número 1 do planeta também ostenta uma das maiores frotas de carros particulares do mundo. São cerca de 10 milhões para uma população de 38 milhões, mas ainda assim não há trânsito, por duas razões óbvias: não há espaço nas ruas (um estacionamento custa mais caro que uma vaga no céu) e o transporte público mora no futuro. São quase 5 mil quilômetros de linhas de trem e metrô, com 160 linhas, 2 mil estações e um empurra-empurra indiano, mas funciona. Os claustrofóbicos e hipsters optaram por uma saída tão eficaz e veloz quanto: usam bicicletas e scooters elétricas, carregadas a partir das miniplacas de energia solar presas às mochilas, e o sistema de car sharing, que desde 2009 vem tirando quatro entre dez carros das ruas da cidade. Para as Olimpíadas de 2020, Tóquio pretende colocar em circulação veículos sem condutores e à prova de acidentes. Sonho impossível? Para os jogos de 1964 eles prometeram a criação do trem-bala. E aconteceu.

SYDNEY

A cidade australiana cresceu e avançou discretamente sobre o mar e a baía sem atropelar sua geografia e seu cotidiano. Para circular na cidade, ciclovias foram criadas e as bicicletas começam a fazer parte da útil paisagem, ao lado de carros econômicos e movidos a energia renovável – aos que dão carona, descontos nos impostos e estacionamentos. Outra boa notícia é que, para andar no centro financeiro e pelas áreas de lazer, a Prefeitura disponibilizou ônibus gratuitos para turistas e moradores, tirando das ruas carros particulares e táxis.

Hermés Galvão

Hermés Galvão nasceu em 1975, no Rio de Janeiro. É jornalista e cronista de Carbono Uomo e Vogue Brasil. Autor do livro “Como Viajar em Tempos de Crise Financeira e Existencial”. Vive pelo mundo, sem destino conhecido, entre Barcelona, Roma e os espressos mal tirados dos aeroportos do Brasil.