Trip

De repente, Califórnia

Estado importantíssimo da Costa Oeste, a Califórnia é o sol que ilumina os EUA

por Hermés Galvão 11 Jan 2017 09:21

Infinita highway
San Diego não é má ideia. E sua intimidade com a fronteira torna a história aqui coisa dúbia. Cidade de duas caras, mas fora de questão sua crise de identidade. Tem sangue latino, mas a alma é americana, republicana. Vendida para o diabo.

Hispânicos nas ruas. Anglo-saxões nos carros. A divisão é essa.

Americano come comida de mexicano. Mexicano come comida de americano. Cardápio low budget, dieta full fat. Ainda vão morrer pela boca.

A Califórnia do sul, para quem chega do norte, pode confundir. Não por ser controversa, longe disso. É que tudo aqui é contramão para quem anda a pé.

Freeways dividem a cidade, cortam-na em várias partes iguais. Correm para um sentido exato demais. E errar a saída é fatal. Sobre elas, passarelas que dançam com o barulho dos motores uma sarabanda furiosa.

A calçada aqui é para quem vive à margem da rotina. Marginal, no sentido amplo, o pedestre. Assunto de pouca prioridade na área.

San Diego não pede passagem. Passa por cima. Para quem sempre vive à beira, é melhor tomar a direita. Chega de buzina. Melhor é Bacharach na voz de Diane Warwick. Do you know the way to San Jose?

Ain’t no mountain high enough
Yosemite é papel de parede em terceira dimensão, desses que estampam portarias de apart hotel e cozinhas de avós.

Estou acampado no Curry Village, ao pé da Half Dome. Primeira impressão deslumbrante tal montanha, a mais aparecida do parque. Da pequena janela da minha tenda posso vê-la por inteiro. E ela, no fim da tarde, é profundidade em technicolor. Minha útil paisagem. Aos seu pés dormi a última noite depois de um dia claro de primavera.

Hoje o vale acordou escondido, sob forte neve e neblina. Tudo se transformou. Eu, inclusive.

Yosemite é de venetas. Faz inverno quando quer. Fecha o tempo sem mais, imprevisível, inquieto e reservado. Há entre nós uma bem-vinda conexão.

Amanhecemos fechados, sem vontade de aparecer. É que ontem foi demasiado expansivo, talvez tenhamos nos mostrado demais. Éramos tudo aquilo que se viu pela frente.

A ideia de ser explorado me dá frio nos pés. Prefiro ser descoberto, porque agora sinto só calor. E antes que passe pela sua cabeça me cobrir, aviso que não gosto de falar. Porque corro o risco de ser da boca pra fora. Prefiro escrever.

Porque quando sou lido você ouve o que digo por dentro.

Cheddar sobre chilli
Monterey me seduz pelo nome, muito embora eu desconfie que não há nada por lá além da ideia torta que os americanos têm da Califórnia na era de México.

O rumo sul ficou distante assim que a carona atendeu do outro lado da estrada. Havia mais de duas horas que eu me encontrava estacionado no acostamento, assim, disponível e quase sexual, à espera de alguém que me dirigisse para fora do Big Sur – pois fora de temporada só há serviço de ônibus nos fins de semana. Era terça de sol. A quarta viria com chuva. Certeza até sábado.

Pela primeira vez na vida me perguntei por que não aprendi a dirigir.

Ainda assim, gosto da ideia de viajar off-season e de viver a pé. Andar na contramão de quem chega é das melhores sensações que trago na mochila. Não há gente além da conta, o mundo volta a parecer grande demais e eu me sinto pequeno o suficiente para entender a não importância das coisas.

Poker face
Precisei desse tempo (todo) para digerir minha passagem por Lake Tahoe. Cidade partida ao meio: de um lado a Califórnia, um estado de espírito. E de outro, Nevada – espírito de porco. Onde se pode tudo, quer dizer, tudo que não pode no lado de cá: fumar indoor, beber outdoor e jogar.

White trash e red necks atravessam a fronteira para ganhar. Já eu perdi meu tempo, mais precioso que dinheiro.

Black money e green card. Nevada é um caso de amor com a máfia.

Neve por fora, carpete por dentro. Eu, no meio disso tudo. Não tinha a ver com nada. Mas era preciso caminhar, uma vez feito o check-in no Mont Bleu Casino Resort & Spa.

Havia cheiro forte de ontem pelos corredores e hoje, ao olhar para o que passou, aposto comigo mesmo que jamais ando por ali outra vez. Mas pode ser que amanhã eu volte atrás. Mudo de ideias, sou cheio delas. Esse é meu jogo.

Voltei para San Francisco no raiar de um domingo cinzento. Desci a serra. Venci.

Full de ases. Não, de asas.

Sobretudo, sobre os outros

Ainda agora passei por Carmel. Carmel-by-the-Sea para ser exato. Um entreposto wasp a três horas de São Francisco – para quem dirige. Eu, que só sento no lado esquerdo quando estou na Inglaterra, levei o dobro e um quarto a mais dentro de um ônibus, um trem, um ônibus e outro ônibus. Assim, nessa ordem: SF para Oakland, Oakland – Salinas, Salinas até Monterey e por fim Carmel-sur-Mer. Não havia pressa mesmo.

Mas cheguei a tempo. De entender correndo o fundamento da cidade bagunçada por americanos, arrumada por mexicanos (foram eles que inventaram o origami de toalha sobre as camas, descobri!!!), lotada de republicanos e um dia dirigida por Clint Eastwood – que já atuou como prefeito daqui num passado meio remoto.

Aquilo lá (já tomei a distância necessária para não precisar dizer “isso aqui”) é tudo que Campos do Jordão queria ser e não teve clima para tanto. Mas a ideia é a mesma: um ponto frio cercado de terra quente por todos os lados, onde os homens ricos brincam de diário alpino e suas mulheres fingem para as amigas que está tudo bem sobre a king size. E elas acolá são proibidas, POR LEI, de usarem salto alto. Sim, pois as calçadas são irregulares demais para .

Há cães, muitos deles. De raças familiares, porém irreconhecíveis… Não sei se é o shampoo ou mão de pet shop, mas tinha um que estava ruivo demais para Golden Retriever (ou, vai saber, já existe tintura para cachorros). Mas são impecáveis, os pêlos dos bichanos e as tosas de suas donas.

Carmel é pequena demais para nós dois, doña Consuelo. Mas obrigado por me livrar da multa por cancelamento de reserva. Sua tortilla fica para uma próxima. Encarnación.

Bagdad Café
Para não dizer que há nada em lugar algum entre o céu e o deserto, existe Death Valley Junction no meio do caminho. Company town fundada nos anos 20 para abrigar os funcionários da extinta mineradora Pacific Coast Borax, hoje habitada apenas por uma mulher.

Marta Becket chegou à cidade na primavera de 1967. Instalou-se na velha hospedaria de estilo colonial espanhol, com um raquítico jardim ligando os quartos no pátio interno.

Um teatro completa o cenário.

Ex-bailarina da Broadway, Marta conta que deixou o mainstream para criar sua própria ribalta. Comprou o hotel e fez dele sua casa para morar. E o pequeno anexo para dançar. É ela quem assina direção, coreografia, figurino, iluminação e trilha dos números que encena. Dona da história.

Estrela única de um espetáculo em cartaz na coxia da América.

– Entre, meu rapaz, venha conhecer o teatro. Acho que você vai gostar de ver o que fiz aqui dentro.

Marta se apresenta todas as sextas, sábados e segundas-feiras no Amargosa Opera House – faça chuva ou faça sol, muito embora os dias em Death Valley Junction sejam secos de tudo. E de gente.

– Às vezes não vem ninguém, mas nem por isso deixo de me apresentar. Danço para eles aqui, you see?

Por falta de público, a estrela pintou pessoas nas paredes e no teto. Há homens e mulheres, crianças, negros e brancos em sua plateia pictórica. Todos vestidos em trajes de gala, formalidades de um mundo imaginário para quem vê de fora. Tão real aqui dentro, no universo em afresco idealizado pela velha bailarina.

Entardecia a terça-feira. E Marta não faria sessão extra. Regras da casa.

– Fique aqui no hotel até o fim de semana. Você vai gostar do meu balé.

– Adoraria. Mas o meu show tem que continuar também, lady.

Las Vegas estava na minha boca de cena. Se eu soubesse o que viria pela frente teria ficado no Amargosa.

Desce o pano.

Hermés Galvão

Hermés Galvão nasceu em 1975, no Rio de Janeiro. É jornalista e cronista de Carbono Uomo e Vogue Brasil. Autor do livro “Como Viajar em Tempos de Crise Financeira e Existencial”. Vive pelo mundo, sem destino conhecido, entre Barcelona, Roma e os espressos mal tirados dos aeroportos do Brasil.